Revisão

Isso é empobrecer a língua


      Desrolhar. Desarrolhar. Será legítimo fazer tal emenda? Nem pensar. Tão correcto é a primeira como a segunda: são variantes. Ainda por cima, desarrolhar parece-se muito com o espanhol desarrollar. Outra coisa, claro, que desrolhar (que o Flip 7 não reconhece...) em espanhol é descorchar, pues ‘corcho’ es el tapón que se hace de corcho para las botellas, cántaros, etcétera. Sí, es un mensaje cifrado. Yo mismo desconozco su destinatario. Então agora comecei a escrever em espanhol?!

[Post 3946]

Léxico: «plastificante»

Mais inglês


      «Alberto Contador poderá ter sido apanhado devido a um novo teste antidoping, utilizado pela primeira vez no Tour 2010, que detecta um plastificante, encontrado nos sacos de sangue usado nas autotransfusões» («Novo teste revela plastificante», Diário de Notícias, 6.10.2010, p. 36).
      «Um plastificante»! Parece ser uma palavra acriticamente traduzida do inglês. Bem, inglesa é — plasticizer. No Público está tudo mais bem explicado: «Agora, este teste positivo seria um produto de plástico que aparece numa quantidade oito vezes maior que o permitido. […] Este novo despiste detecta um determinado tipo de químico, chamado plastificante, que geralmente é encontrado nos plásticos dos sacos de administração intravenosa» («Novo teste levanta suspeitas de autotransfusão e reforça tese de doping de Contador», Filipe Escobar de Lima, Público, 6.10.2010, p. 34).

[Post 3945]

«Escutar/ouvir»

Confusões


      «Quem vive nas imediações de imediato escutou o barulho do desastre. “Só ouvi um estrondo enorme. Cheguei cá fora, não me parecia nada e voltei a entrar. Depois ouço muito reboliço lá fora, fui ver e, meu Deus, fiquei sem palavras”, recorda uma vizinha» («Sobreviveu a naufrágio e morreu na estrada», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 6.10.2010, p. 16).
      A vizinha conhece melhor a língua que o jornalista. Claro que o «reboliço» é deste, pois ela terá pensado em «rebuliço». Escutar é ouvir, sim, mas não é um qualquer ouvir — é ouvir prestando atenção. E como é que a vizinha podia estar a escutar, se o acidente, por sua própria natureza, é um acontecimento casual ou inesperado?

[Post 3944]

Ortografia: «cidade velha»

Ora cá está


      «O PS de Faro classificou de “erro” e “absurdo” a intenção de Macário Correia querer criar uma “horta urbana” em terrenos da Cidade Velha onde há achados arqueológicas. Os socialistas pedem “bom senso” na preservação do património cultural» («Horta urbana provoca críticas de socialistas», Jornal de Notícias, 6.10.2010, p. 22). «Cidade Velha»... Já aqui tínhamos visto, a propósito da tradução de old town, esta questão. No Público viram a questão de outra forma: «A ideia do líder da Câmara de Faro, eleito pelo PSD, é aproveitar a chamada Horta Misericórdia, na cidade velha, e transformá-la em 12 talhões de 40 metros quadrados cada um, que depois serão entregues a 12 candidatos. […] O terreno situa-se na Horta Misericórdia, junto ao Museu Municipal, na zona velha da cidade» («Câmara de Faro quer criar 12 hortas no centro da cidade», Idálio Revez, Público, 6.10.2010, p. 27).

[Post 3943]

Ortografia: «subespecialidade»

Não entra


      «A falta de reconhecimento da maioria das sub-especialidades pediátricas é outro dos problemas da medicina dedicada às crianças em Portugal, tema que será debatido no Congresso de Pediatria que começa hoje no Funchal» («Centro de saúde com falta de pediatras», Diário de Notícias, 6.10.2010, p. 13). Uma vez que a regra não lhes entra na cabeça — só se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por b, h ou r —, podiam ter telefonado para a redacção do Público: «A falta de reconhecimento da maioria das subespecialidades pediátricas é outro dos problemas da medicina dedicada às crianças em Portugal, tema que será debatido no Congresso de pediatria que começa na quarta-feira no Funchal» («Falta pediatras nos centros de saúde, o que leva a injustiça social», Público, 6.10.2010, p. 10). Se as relações com este jornal não forem as melhores, podiam ter tentado outro: «A falta de reconhecimento da maioria das subespecialidades pediátricas é outro dos problemas da medicina dedicada às crianças, tema que estará hoje em discussão no Congresso de Pediatria, que decorre no Funchal» («Pediatras em falta nos centros de saúde», Jornal de Notícias, 6.10.2010, p. 54).

[Post 3942]

Léxico: «cadeirante»

Vem do Brasil?

      O trânsito e o estacionamento foram reordenados na Aldeia do Meco, Sesimbra. Comerciantes e moradores descontentes. O programa Portugal em Directo, da Antena 1, mandou lá a repórter Lídia Cristo. O maior motivo de queixas são os passeios: Fala Maria Adelina Costa, proprietária de um bar: «De qualquer maneira, os pilaretes que eles fizeram não servem nem como passeio, não serve para passar um carro de bebé, não dá para um cadeirante […].» Cá está um neologismo que ainda não marca presença nos jornais e revistas. Cadeirante é o termo utilizado para designar a «pessoa que, por deficiência física, ou por estar provisoriamente impossibilitada de andar, locomove-se em cadeira de rodas», na definição do Dicionário Aulete Digital, único que conheço que regista o vocábulo. Apresenta vantagens inequívocas: numa só palavra, inclui tanto deficientes como não deficientes que se locomovem em cadeira de rodas. Está bem formado (vamos esquecer que não há nenhum verbo cadeirar, porque há muitos outros nas mesmas circunstâncias) e vem preencher uma lacuna.
[Post 3941]

Tradução: «a la ligera»

Sem ligeireza


      Duas personagens de Cervantes, dois jovens nobres, «puestos, pues, a la ligera, se pusieron en camino». Podemos temer traduzir a locução a la ligera por à ligeira, mas decerto que por coincidir com outra, essa castelhana até ao tutano, intransmissivelmente idiomática: a la ligera, «sem reflexão». Mesmo esta traduz-se, sem surpresa, por uma locução que tem um vocábulo da mesma família: com ligeireza. A que cito acima, porém, significa «sem aparato, com menos comodidade e companhia da que corresponde». Ora, em português, à ligeira é o mesmo que «sem aparato, com simplicidade, rapidamente». No verbete de rorário, por exemplo, José Pedro Machado regista que «era o soldado romano armado à ligeira».

[Post 3940]

Léxico: «neotenia»

Nascem por fazer


      «Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada)» («Quem guardará o guarda?», Anselmo Borges, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 62).
      Tanto o Dicionário Houaiss como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam o vocábulo; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa perdeu o verbete ou considerou, erradamente, que nunca se usa. A neotenia é, na definição do segundo dicionário referido, o «atraso no desenvolvimento morfológico do indivíduo, o que ocasiona, por vezes, o aparecimento de maturidade sexual na forma larvar, ou, pelo menos, numa forma atrasada». Para o Dicionário Houaiss, é a «pedomorfose produzida pelo retardamento do desenvolvimento somático, de maneira que a maturidade sexual é atingida em um organismo que retém características juvenis». Pois é: má técnica lexicográfica: para conhecermos um conceito, temos de consultar dois verbetes. Pedomorfose (vocábulo ignorado pelos outros dois dicionários) é a «presença de caracteres primitivamente juvenis, larvais ou embrionários em um organismo adulto».

[Post 3939]

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