Tradução: «a la ligera»

Sem ligeireza


      Duas personagens de Cervantes, dois jovens nobres, «puestos, pues, a la ligera, se pusieron en camino». Podemos temer traduzir a locução a la ligera por à ligeira, mas decerto que por coincidir com outra, essa castelhana até ao tutano, intransmissivelmente idiomática: a la ligera, «sem reflexão». Mesmo esta traduz-se, sem surpresa, por uma locução que tem um vocábulo da mesma família: com ligeireza. A que cito acima, porém, significa «sem aparato, com menos comodidade e companhia da que corresponde». Ora, em português, à ligeira é o mesmo que «sem aparato, com simplicidade, rapidamente». No verbete de rorário, por exemplo, José Pedro Machado regista que «era o soldado romano armado à ligeira».

[Post 3940]

Léxico: «neotenia»

Nascem por fazer


      «Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada)» («Quem guardará o guarda?», Anselmo Borges, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 62).
      Tanto o Dicionário Houaiss como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam o vocábulo; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa perdeu o verbete ou considerou, erradamente, que nunca se usa. A neotenia é, na definição do segundo dicionário referido, o «atraso no desenvolvimento morfológico do indivíduo, o que ocasiona, por vezes, o aparecimento de maturidade sexual na forma larvar, ou, pelo menos, numa forma atrasada». Para o Dicionário Houaiss, é a «pedomorfose produzida pelo retardamento do desenvolvimento somático, de maneira que a maturidade sexual é atingida em um organismo que retém características juvenis». Pois é: má técnica lexicográfica: para conhecermos um conceito, temos de consultar dois verbetes. Pedomorfose (vocábulo ignorado pelos outros dois dicionários) é a «presença de caracteres primitivamente juvenis, larvais ou embrionários em um organismo adulto».

[Post 3939]

«Pontos de espantação»

Já têm nome


      «O blogue Arrastão é dos melhores, opinião assertiva e escrita inteligente. Esta semana, Bruno Sena Martins, um dos autores do blogue, escreveu: “Otamendi, curioso nome, soa como que vindo da América do Sul, mas afinal vem da Argentina.” Houve um leitor na caixa de comentários que escreveu: “Otamendi, curioso nome, soa como que vindo da América do Sul, mas afinal vem da Argentina??????????” Reparem, a contribuição do leitor foram dez pontos de espantação» («Cala a boca, Magda!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 64).
      Pronto, Ferreira Fernandes já lhe deu nome: ponto de espantação. Claro que só com mais de um percebemos que os comentadores, anónimos ou não, ficaram espantados.

[Post 3938]

Sobre «romanche» e «rético»

Vai dar uma volta à Récia


      «Constituída por quatro comunidades linguísticas — alemão, francês, italiano e romanche —, a Suíça baseia a sua unidade enquanto nação no passado comum e na partilha de princípios como o federalismo, a democracia directa e a tal neutralidade que sempre a caracterizou» («A excepção de ser República na Europa de 1910», Helena Tecedeiro, Notícias Sábado, 2.10.2010, p. 13).
      Munido somente de um exemplar do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o leitor não vai muito longe: o verbete «romanche» remete para «rético», e este regista que, como adjectivo, é o referente à Récia, região oriental da antiga Gália» e, como substantivo, é a língua novilatina também chamada romanche. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por seu lado, que regista romanche, é no verbete rético que fornece mais informação: «Língua românica, também chamada romanche, falada em três pequenas regiões distintas: nos Grisões (Suíça), no Tirol (Áustria) e no Friul (Nordeste de Itália).» O Flip 7 não reconhece nenhuma das duas palavras.

[Post 3937]

«Implementação da República»

Impudica, como a representação


      Quando estava a ouvir na Antena 1 a cobertura das comemorações do centenário da implantação da República, com a repórter Maria Flor Pedroso a falar das «quatro pontas da Praça do Município» e, graças ao forçado convívio com políticos, a falar dos «cidadãs e cidadãos» que ali se encontram, eis que um leitor me mandou esta hiperligação para um texto de José Medeiros Ferreira que denuncia o uso da ignorante expressão «implementação da República». Que absoluta miséria intelectual. E anda esta gente a discursar na ilusão de grande orador...

[Post 3936]

«Conscientização/consciencialização»

Que pobreza


      «O rinoceronte é um narrador, sou eu [escritora e filósofa francesa Catherine Clément]. Foi um animal que existiu, sei tudo sobre ele, o ano em que nasceu e como viveu em Portugal e em Praga. Era um tipo de prenda habitual trocada entre chefes de Estado, e, em França, foi Mitterrand o último presidente a receber animais vivos. Foi-lhe oferecido um elefante com seis meses numa cerimónia peculiar, no primeiro andar da Torre Eiffel, e foi o cabo dos trabalhos para o fazer subir no elevador. A conscientização das questões ecológicas acabaram [sic] com essas trocas de presentes» («Afinal D. Sebastião não morreu», João Céu e Silva, «DN Gente»/Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 16).
      No Ciberdúvidas, um leitor queria conhecer a posição dos consultores sobre os termos conscientização e consciencialização, mas a resposta da consultora está quase inteiramente centrada na própria: «não há dúvida de que não conhecia o termo», «é mais uma palavra para acrescentar ao meu vocabulário». Francamente, isto até o dono do quiosque onde compro o jornal me saberia dizer. Posição, opinião. O termo parece ter sido criado pelo pedagogo brasileiro Paulo Freire (1921―1997), e é um conceito central na filosofia da educação daquele pedagogo. «Conscientização» está tão bem formado como «consciencialização», mas este último é quase exclusivamente o único que se usa e conhece em Portugal.

[Post 3935]

Hífen em apelidos

Rejeitado pelo hífen


      «Em privado, o nome do ex-reitor da Universidade de Lisboa circulava como sendo o provável candidato dos comunistas às próximas eleições para Belém. O partido, no entanto, terá preterido o intelectual em favor do proletário. José Barata-Moura, que sempre a manteve o hífen no nome, não é o candidato. Mas está na luta, no papel de mandatário nacional de Francisco Lopes à Presidência da República, candidatura apoiada pelo PCP» («O filósofo que ajudava os meninos a comer a papa», Francisco Mangas, «DN Gente»/Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 2).
      Dito assim, até parece que o hífen, e o que significa, é o argumento oculto do PCP para não o ter escolhido para candidato. E quanto a manter o hífen, parece ser uma determinação dele, pois na imprensa o nome aparece quase sempre sem hífen. Por outro lado, e, na verdade, o único aspecto (para além, obviamente, do sociolinguístico) que interessa, tem o ex-reitor da Universidade de Lisboa direito a usar o hífen no nome? Herdou-o ou acrescentou-o? Todos conhecemos casos de pura pretensão. Imaginem uma mulher portuguesa de apelido Maria Silva que casou com um Sr. Adlersflügel. Pode assinar Maria Silva-Adlersflügel? É claro que sim. Pode exigir que os outros o façam? É claro que não.


[Post 3934]

Léxico: «oitiva»

Parece-me claro


      «Confrontada com a possibilidade de o documento não ser explícito, quanto à qualidade em que o jurista iria ser ouvido, a polícia brasileira explica que “foi solicitada a oitiva de Duarte Lima e não o seu interrogatório.” Segundo esta fonte ligada à investigação, no jargão judicial brasileiro “oitiva” é um conceito que apenas é utilizado quando a qualidade do inquirido é a de testemunha» («MP encerra caso Duarte Lima mas polícia brasileira vai insistir», Carlos Diogo Santos e Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 21).
      Bem, não sei quem poderia ter dúvidas sobre a questão, se o jornalista, habitualmente demasiados preguiçosos em procurarem a informação, se o advogado português de Duarte Lima.
      Os dicionários da língua portuguesa editados em Portugal registam a variante outiva, que não significa mais que «audição», usado exclusivamente na locução falar de outiva, ou seja, dizer o que se ouviu dizer. O certo é que nem sequer o Dicionário Houaiss regista o vocábulo como pertencendo à linguagem jurídica, e devia, na minha opinião.

[Post 3933]

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