Tradução: «senior officials»

No Exército inglês, talvez


      «No encontro, para além da cimeira, terá estado em cima da mesa o futuro do comando, na mesma semana em que o grupo de senior officials que a NATO constituiu para discutir a reforma da estrutura de comandos concluiu os seus trabalhos» («Comando da NATO sem decisão», Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 15).
      Senior officials — e isto não se pode dizer em português? Altos oficiais até em textos de origem castrense se lê.

[Post 3932]

Léxico: «picograma»

Mais uma falha


      «“Cinquenta picogramas é uma quantidade tão pequena que não serve para nada”, garantiu o triplo vencedor da Volta a França agora sob investigação da Agência Mundial Antidopagem» («Dos bifes contaminados ao sangue de tartaruga», Cipriano Lucas, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 45).
      Alberto Contador poderia ter dito o equivalente a caganifância — mas isso não seria nada científico. Picograma, que é a unidade de massa igual a um milionésimo de micrograma (com o símbolo pg), não está registado nem no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Post 3931]

«Taco-a-taco/taco a taco»

Mais uma escorregadela


      «Um caminho que tem dado bons resultados a Murdoch, que viu o canal passar de 17 milhões de assinantes, em 1996, para ser a rede com maior número de telespectadores regulares, lutando taco-a-taco com a CNN» («Guerra entre Obama e Murdoch sem fim à vista», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 58).
      Nem pensar. Trata-se de uma locução adverbial, logo, não tem hífenes. Se fosse substantivo, então sim, por analogia, deveria tê-los. Claro que, para tal, é preciso que quem escreve saiba distinguir entre substantivo e locução...

[Post 3930]

Plural: «ravióis/raviolos»

Como graffiti


      Era a mulher mais bonita que eu vi nos últimos anos. Quis comprovar que falava, e o facto de ela estar num hipermercado a promover certos produtos possibilitou o desiderato. Não precisei de lhe perguntar nada, pois duas senhoras idosas anteciparam-se. «São raviolis da Buitoni.» Contudo, o plural é ravióis ou raviolos. Ravioli, o étimo italiano, já é um plural, o singular é raviolo.

[Post 3929]

Ortografia: «farmacoeconomia»

Já basta a estranheza


      «Afecta milhares de portugueses — um em cada cinco —, mata 1200 por ano e custa 118 mil milhões de euros à Europa. Ontem falou-se da depressão, uma doença que, segundo Jorge Félix, especialista em fármaco-economia, “é o principal factor de risco para o suicídio”» («Depressão mata mais de mil portugueses todos os anos», Carla Marina Mendes, Destak, 1.10.2010, p. 7).
      Não devia escrever-se farmacoeconomia? Claro que sim. Não vejo, porém, o vocábulo registado em nenhum dicionário. O revisor antibrasileiro tem uma teoria em relação a estas lacunas: quando é difícil, os dicionários evitam tomar posição. Nós, não. Juntem este: farmacoepidemiologia.

[Post 3928]

Ortografia: «desatarraxar»

Pobre diabo


      «O socialista Paulo Barradas acaba de inventar uma nova profissão liberal: “deputado”. É assim, pelo menos, que ele se apregoa na tabuleta que mandou pendurar à porta do seu escritório, em Lamego. O pior vai ser quando tiver de desatarrachá-la da parede...» («Profissão», O Diabo, 28.09.2010, p. 24).
      Será a irreverência incompatível com a ortografia? Não existe nenhum verbo *desatarrachar, mas sim desatarraxar. E, pelo que vejo em alguns dicionários, ignora-se que a tarraxa também é uma ferramenta usada pelos canalizadores para fazer roscas machas nos tubos. Neste caso, o pior é o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que precisa mesmo de redigir urgentemente um novo verbete. No trecho do artigo de O Diabo, desatarraxar é sinónimo de desaparafusar.

[Post 3927]

Regência: «desfrutar»

Camilo diz como é


      «Deixava uma avultada esmola a uma criada, por nome Eugénia, com a condição de recolher-se a um convento, como criada, onde desfrutaria, e só aí, os rendimentos dessa esmola, que por sua morte seria aplicada em missas por alma dela» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 302).
      Embora modernamente se aceite a preposição, tratando-se de um verbo transitivo directo, também prefiro usá-lo sem preposição.

[Post 3926]

Ortografia: «terra natal»

Pecha hodierna


      «Jesus faleceu poucas horas depois de orientar o clube da terra-natal, o Sporting de Espinho, num jogo da Zona Centro da II Divisão, contra o Boavista (1-1)» («O guardião que fica na história do V. Guimarães e da selecção», R. M. S., Diário de Notícias, 28.09.2010, p. 47).
      O revisor antibrasileiro iria grunhir de espanto e dor: ele não admite (!) hífen nem sequer em casa-mãe ou em factor-chave. Engana-se, contudo, em relação a estes últimos.

[Post 3925]

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