Comunista/socialista

Lá é diferente


      «Conforme noticia o “Correio da Manhã”, Sócrates assustou o público ao intitular-se “socialista”, pois que “nos EUA, a palavra é sinónimo de comunista”, o que o levou a ter que “clarificar que um socialista, na Europa, é o que nos Estados Unidos se chama liberal democrata”» («Falsos amigos», Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 27.09.2010, p. 56). Manuel António Pina diz ainda que tomar Sócrates «por comunista (e, fazendo fé nos programas de Governo e Orçamentos desde 2005, por socialista também) é a maior das injustiças que um “faux-ami” poderia fazer a um falante estrangeiro como ele, incluindo Mário Soares dizendo-se, em França e em francês, “un condecoré de la France”». Nestes casos, não há assessores que valham.

[Post 3916]

«A ponto de»

No ponto


      Ando a reparar neste erro há muito tempo, mas acho que não pode passar de hoje alertar os meus leitores. Exemplifico com um excerto de um artigo jornalístico, mas tenho-o visto em inúmeros livros revistos. Agora mesmo, só me lembrei dele porque numa revisão me apareceu um to the point traduzido dessa forma. «O Aviso n.º 4/2009 obriga as instituições a prestar diversas informações numa ficha de informação normalizada num momento anterior ao do depósito e, para evitar as tão mal-afamadas “letras pequenas”, a entidade presidida por Vítor Constâncio vai ao ponto de definir que o tamanho da letra não poderá ser inferior a corpo 9» («Maior rigor nos depósitos bancários», Diogo Lopes Pereira, «DN Bolsa»/Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 11).
      É a ponto de que se escreve, e tem, segundo o Dicionário Houaiss, os seguintes valores: chegando mesmo a, chegando até a (Era agressivo a ponto de descompor publicamente a esposa.»); prestes a («Estava triste a ponto de chorar.»); usado como locução preposicional expletiva enfática, equivalente à preposição a («Chegou a ponto de desistir do seu curso.»).

[Post 3915]

Léxico: «dragomano»

Coisas do Oriente


      «At once he led his Arab dragoman over to John.» Traduziram: «Imediatamente levou o seu intérprete árabe para junto de John.» É uma opção, sim senhor, mas nós temos o vocábulo e variantes: dragomano, drogomano, turgimão, turgimão e turquimão. Designa o intérprete de consulados ou legações nos países do Oriente, especialmente aquele que serve nos postos de países europeus.

[Post 3914]

Dupla negativa

Lá vamos cantando e rindo


      «Não houve algum incidente desagradável» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 109).
      O revisor antibrasileiro ia exultar se visse esta frase de Camilo: em vez de «nenhum», «algum». Tenho para mim, contudo, que ele só conhecerá o Solitário de Seide de nome. Surpreendeu-me há dias, isso sim, ao cantar o hino da Mocidade Portuguesa de cabo a rabo. («Locução própria do nível de língua informal. Pondere o emprego de uma expressão alternativa.» Fico a ponderar.)

[Post 3913]

«Hóspeda»

Flipou


      «D. Antónia, tartamudeando, satisfez assim os primeiros assomos de curiosidade às suas hóspedas, mas evitou-lhes os segundos, que deviam ser-lhes atribulados...» (Mistérios de Lisboa, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 49).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, embora registe «hóspede», dizendo que é nome e adjectivo de dois géneros, não deixa de registar o feminino, «hóspeda». Também o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, mas o FLIP 7 acha que eu quero escrever a forma verbal de hospedar.

[Post 3912]

Dois-pontos repetidos

Bom exemplo, e talvez a tempo


      Já uma vez me perguntaram se podia haver dois sinais de dois-pontos seguidos. Respondi que sim, mas não tinha à mão uma citação de um autor credível. Ei-la agora: «Esta fisionomia fez-me corar. Olhei a fisionomia dele: era sempre a mesma fisionomia: severa e fria, triste e um não sei quê de desprezadora» (Mistérios de Lisboa, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 37).
      Podia perguntar-se se a 1.ª edição já apresentava esta pontuação, mas esta edição da Parceria A. M. Pereira, com fixação de texto de Laura Arminda Bandeira Ferreira, dá-nos algumas garantias. Passados quarenta e um anos, só poria hífenes, porque é um substantivo, em «não-sei-quê»: coisa indefinida, incerta ou duvidosa.

[Post 3911]

Cultura espanhola

Bandeira da cidade autónoma de Ceuta

História e presuntos


      De forma muito menos simbólica do que se possa crer, o facto de hoje em dia haver 440 milhões de falantes de espanhol deve-se a um homem — Blas de Lezo, el Mediohombre (1689–1741). Pena é que os Portugueses, em geral, ignorem esta parte da História. Algo que nos diga mais respeito, pedem? Procurem saber porque é que a bandeira da cidade autónoma de Ceuta é tão parecida com a bandeira da cidade de Lisboa. Algo ainda mais próximo, exigem? Porque é que num país onde se come tanto presunto não se vêem à venda cuchillos jamoneros?

[Post 3910]

Léxico: «cutita»

Mais uma caída em desuso


      Square jaw. Quando penso num rosto com maxilar quadrado, lembro-me logo de norte-americanos. Terá o inglês uma palavra para designar a saliência lateral que certas pessoas apresentam de cada lado da face provocada pela largura exagerada do maxilar inferior? Sei que em português existe, mas não é usada — cutita. Assim como à pessoa que apresenta cutitas se dá o nome de cutitão ou cutituda.

[Post 3909]

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