Léxico: «dragomano»

Coisas do Oriente


      «At once he led his Arab dragoman over to John.» Traduziram: «Imediatamente levou o seu intérprete árabe para junto de John.» É uma opção, sim senhor, mas nós temos o vocábulo e variantes: dragomano, drogomano, turgimão, turgimão e turquimão. Designa o intérprete de consulados ou legações nos países do Oriente, especialmente aquele que serve nos postos de países europeus.

[Post 3914]

Dupla negativa

Lá vamos cantando e rindo


      «Não houve algum incidente desagradável» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 109).
      O revisor antibrasileiro ia exultar se visse esta frase de Camilo: em vez de «nenhum», «algum». Tenho para mim, contudo, que ele só conhecerá o Solitário de Seide de nome. Surpreendeu-me há dias, isso sim, ao cantar o hino da Mocidade Portuguesa de cabo a rabo. («Locução própria do nível de língua informal. Pondere o emprego de uma expressão alternativa.» Fico a ponderar.)

[Post 3913]

«Hóspeda»

Flipou


      «D. Antónia, tartamudeando, satisfez assim os primeiros assomos de curiosidade às suas hóspedas, mas evitou-lhes os segundos, que deviam ser-lhes atribulados...» (Mistérios de Lisboa, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 49).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, embora registe «hóspede», dizendo que é nome e adjectivo de dois géneros, não deixa de registar o feminino, «hóspeda». Também o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, mas o FLIP 7 acha que eu quero escrever a forma verbal de hospedar.

[Post 3912]

Dois-pontos repetidos

Bom exemplo, e talvez a tempo


      Já uma vez me perguntaram se podia haver dois sinais de dois-pontos seguidos. Respondi que sim, mas não tinha à mão uma citação de um autor credível. Ei-la agora: «Esta fisionomia fez-me corar. Olhei a fisionomia dele: era sempre a mesma fisionomia: severa e fria, triste e um não sei quê de desprezadora» (Mistérios de Lisboa, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 37).
      Podia perguntar-se se a 1.ª edição já apresentava esta pontuação, mas esta edição da Parceria A. M. Pereira, com fixação de texto de Laura Arminda Bandeira Ferreira, dá-nos algumas garantias. Passados quarenta e um anos, só poria hífenes, porque é um substantivo, em «não-sei-quê»: coisa indefinida, incerta ou duvidosa.

[Post 3911]

Cultura espanhola

Bandeira da cidade autónoma de Ceuta

História e presuntos


      De forma muito menos simbólica do que se possa crer, o facto de hoje em dia haver 440 milhões de falantes de espanhol deve-se a um homem — Blas de Lezo, el Mediohombre (1689–1741). Pena é que os Portugueses, em geral, ignorem esta parte da História. Algo que nos diga mais respeito, pedem? Procurem saber porque é que a bandeira da cidade autónoma de Ceuta é tão parecida com a bandeira da cidade de Lisboa. Algo ainda mais próximo, exigem? Porque é que num país onde se come tanto presunto não se vêem à venda cuchillos jamoneros?

[Post 3910]

Léxico: «cutita»

Mais uma caída em desuso


      Square jaw. Quando penso num rosto com maxilar quadrado, lembro-me logo de norte-americanos. Terá o inglês uma palavra para designar a saliência lateral que certas pessoas apresentam de cada lado da face provocada pela largura exagerada do maxilar inferior? Sei que em português existe, mas não é usada — cutita. Assim como à pessoa que apresenta cutitas se dá o nome de cutitão ou cutituda.

[Post 3909]

Termos da heráldica

Os animais da heráldica


Contra-emergente adj. Diz-se dos animais unidos costas com costas, saindo as cabeças e mãos fora do escudo.
Dragonete m. Símbolo heráldico que figura uma cabeça de dragão com a boca aberta.
Grifo m. Figura fantástica, representada de rampante e de perfil, com a parte anterior de águia e a posterior de leão e as asas abertas com as pontas voltadas para o chefe.
Grilhetado adj. Diz-se da ave de rapina quando leva cascavéis nos pés.
Guarnecido adj. Diz-se que o açor, o falcão, etc., estão guarnecidos de tal esmalte quando têm pioz, cascavéis, caparão e alcandora desse esmalte.
Guivra m. Serpente fantástica que se representa na acção de engolir uma criança de que se vêem os braços e a cabeça.
Lampassado adj. Designação do animal (leão, leopardo e outros quadrúpedes heráldicos) representado no escudo com a língua de fora, ou da língua de um animal assim representado.
Linguado adj. Em heráldica, diz-se do animal que apresenta a língua de esmalte diferente.
Meia-águia f. Metade de águia bicéfala.
Melusina f. Sereia, com cauda de serpente a banhar-se e a pentear-se em uma lagoa.
Membrado adj. Diz-se das aves representadas nos escudos com pernas de qualquer esmalte.
Pascente adj. Diz-se dos animais representados a pastar.
Passante adj. Diz-se do animal que figura no escudo na atitude de andar; é a postura habitual do leopardo.
Preando adj. Particípio de prear empregado em relação à ave de rapina que traz caça nas garras e assim é representada o escudo.
Rampante adj. Diz-se do quadrúpede, sobretudo do leão, firmado nas patas traseiras, tendo as dianteiras levantadas.
Unhado adj. Diz-se do boi, do touro ou da vaca que tem as patas de outro esmalte.

[Post 3908]

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Sobre «inteligente»

Em terra de cegos


      «O director de corrida é quem manda no espectáculo tauromáquico. É o representante do Estado através do IGAC, Inspecção-Geral das Actividades Culturais. Em Portugal, são 18 e rodam pelas mais diversas praças de touro do país. São profissionais da tourada na reforma: bandarilheiros, na sua maioria, matadores e forcados. O director de corrida é também conhecido como “o inteligente”. Diz a história secular que os “inteligentes” eram os toureiros fora de actividade mais evoluídos, numa sociedade analfabeta. Mas o nome técnico é director de corrida» («Na corrida de touros», Elisabete Pato, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 35). Quase todos os dicionários registam a acepção.
[Post 3907]

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