Sobre «inteligente»

Em terra de cegos


      «O director de corrida é quem manda no espectáculo tauromáquico. É o representante do Estado através do IGAC, Inspecção-Geral das Actividades Culturais. Em Portugal, são 18 e rodam pelas mais diversas praças de touro do país. São profissionais da tourada na reforma: bandarilheiros, na sua maioria, matadores e forcados. O director de corrida é também conhecido como “o inteligente”. Diz a história secular que os “inteligentes” eram os toureiros fora de actividade mais evoluídos, numa sociedade analfabeta. Mas o nome técnico é director de corrida» («Na corrida de touros», Elisabete Pato, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 35). Quase todos os dicionários registam a acepção.
[Post 3907]

Sobre «embocadura»

Lacuna?


      «E não se pense que os cuidados são apenas com o instrumento. Dois dias antes de uma corrida de touros, José Henriques [cornetim tauromáquico] não come azeitonas porque tira a embocadura (calo nos lábios devido à pressão do bocal de ferro do instrumento). O calo amolece com o óleo das azeitonas» («Na corrida de touros», Elisabete Pato, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 35).
      Os dicionários, contudo, não registam esta acepção — não fará parte do idiolecto deste profissional?

[Post 3906]

Léxico: «pressóstato»

Só os melhores


      Neste caso, nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam este vocábulo: «A máquina não tem termóstato mas pressóstato, e por isso não mede a temperatura, antes a pressão da água dentro da caldeira» («Os mestres do café», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 48). Regista-o, era de esperar, o Dicionário Houaiss, remetendo para manóstato: «mecanismo de tipo manométrico, invertido e com fluido em seu interior, utilizado para manter constante a pressão dentro de um recinto; pressóstato».

[Post 3905]

Actualização em 25.09.2010


      Creio que é de toda a conveniência não deixar nos bastidores um comentário que ajuda a destrinçar por entre a confusão:
      «Eis uma típica calinada demonstrativa da iliteracia científica de muitos dos nossos jornalistas.
      «Um termóstato não tem como função medir a temperatura. Essa é a função de um termómetro. Um termóstato tem como função manter a temperatura constante.
      Da mesma forma, um pressóstato não mede a pressão. Essa a é função de um barómetro. O pressóstato, como é fácil perceber pela maneira como a palavra é formada, tem como função manter a pressão constante.»

Neologismo: «barista»

Imagem tirada daqui

Mestres do café


      Se se trata de neologismo, é muito mais provável estar registado no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa do que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É o caso: «Ser barista é uma especialidade nova em Portugal, o que até é estranho num país que gosta e bebe tanto café [sic]. Eles conhecem todos os mistérios do grão de café e fazem malabarismos com uma simples bica» («Os mestres do café», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 46). Barista é então o «empregado de bar que serve ao balcão as bebidas que prepara» ou o «especialista na preparação de cafés e de bebidas à base de café». (Mas o FLIP 7 não reconhece o vocábulo, sugerindo-me, complacente e solícito, barrista, basista, arista, balista e barrita.)

[Post 3904]

Ensino

Fo..., ca...., co...


      «As escolas que recomendaram a compra de um dicionário com palavrões aos alunos do 1.º ciclo admitem ter-se tratado de um “lapso” na indicação da cor da capa da obra da Porto Editora. Escolheram a capa azul, com a designação de Dicionário de Língua Portuguesa, mas deveriam antes ter sugerido o Dicionário Básico de Língua Portuguesa cor de laranja, que a editora garante ter elaborado “especificamente” para o 1.° e 2.º ciclos do básico. Apesar disso, as crianças dos seis aos dez anos vão continuar a usá-lo» («Dicionário com palavrões foi “lapso”», Roberto Dores, Diário de Notícias, 23.09.2010, p. 14).
      Não sabia que os dicionários eram recomendados por cores. Faz lembrar os idosos, a quem se recomenda que tomem o comprimido azul de manhã, o vermelho à tarde e o amarelo à noite. Não por acaso os comprimidos não têm todos a mesma cor. Isto é que é menorizar os alunos. Que tristeza. Bem, e que palavrões são aqueles? O habitual: «Em causa está a consulta por crianças de palavras como “fo...” (acto sexual), “ca...” (órgão sexual masculino) ou “co...” (órgão sexual feminino). Este dicionário é recomendado pela editora apenas a partir do 3.º ciclo.»
      Ainda hoje uma professora me disse que pedira a uma aluna para ler o verbete de um vocábulo no dicionário e a aluna, depois de ter lido algumas palavras, parou. Porquê? Na definição estava uma palavra «que não era para a idade dela». E que palavra era essa? «Sexual».

[Post 3903]

Selecção vocabular

Não se percebe


      «Mais de metade das espécies de plantas até hoje conhecidas foram retiradas do “dicionário da vida” após um aprofundado estudo levado a cabo por uma equipa de cientistas do Reino Unido e dos EUA durante os últimos três anos. Ao longo dos séculos, recolhas e identificações que os botânicos de todo o mundo julgavam ser de novas espécies, eram, afinal, meras duplicações de espécies já conhecidas. As repetições são tantas que o tomate comum, por exemplo, tem 790 nomes diferentes, existindo 600 apelidos distintos para o de carvalho e suas variedades» («Era um milhão de espécies e agora são só 400 mil», Helder Robalo, Diário de Notícias, 21.09.2010, p. 28).
      Não é fenómeno inteiramente novo, este uso inadequado do vocábulo «apelido». No artigo citado, trata-se de um nome de família ou sobrenome? Não. Trata-se de um cognome? Não. Trata-se de uma alcunha? Não. Trata-se do nome especial? Não.

[Post 3902]

Regência: «desinteressar-se»

Mais devagar


      Acabo de ler que alguém, chegado a Coimbra, «depressa se desinteressou pelo Direito». Isto de tomar a regência de um verbo pela de seu antónimo é um erro muito mais comum do que, à primeira vista, se possa crer. E mais comum na escrita que na oralidade. Interessamo-nos por uma coisa e desinteressamo-nos dela. A tendência (tendência, não regra geral) dos verbos iniciados pelo prefixo de negação des- é reger a preposição de. Outra vez: «depressa se desinteressou do Direito».

[Post 3901]

«Atajadores de la costa»

Torre usada pelos atajadores de la costa. Tirada daqui

Na costa espanhola


      «Atajadores de la costa traduzido em português numa só palavra?» Ahn, hum, bem, não me parece, cara Luísa Pinto. São muito referidos por Cervantes, no D. Quixote e não só. Eram também conhecidos por gínetes de la costa, atalayas e caballería de la costa. Estavam encarregados de velar pela segurança das costas contra os desembarques e pilhagens turcos. Relacionado, mas a designar algo diferente, temos em português o vocábulo costão, que era o nome que se dava ao soldado de vigia a presídio nas costas de mar, como o castelão nos castelos.

[Post 3900]

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