English Channel

Manchas e mangas


      «If he could go back twenty years, he wondered, would he have jumped overboard as the ship passed through the English Channel or would he have come anyway and faced what was to come?» E como é que o tradutor verteu English Channel, adivinham? Pois é: Canal Inglês. Um erro incrível. Até preferia que fosse um desses lunáticos que querem corrigir a História e dissesse que era o Canal da Manga. Como os Alemães, ÄrmelKanal, os Franceses, La Manche, e os Italianos, La Manica.

[Post 3891]

Ensino do Espanhol

¡Pepe!
     


      Finalmente, o espanhol está a ter no nosso país a importância que merece. No ano passado, havia 585 escolas que ofereciam o espanhol como língua estrangeira. A procura é tanta, na verdade, que faltam professores, problema que o Governo resolveu de uma penada, aprovando um regime transitório através do qual os candidatos com uma qualificação profissional numa língua estrangeira e/ou Português pudessem também dar aulas de Espanhol se tiverem na sua formação a variante Espanhol ou, em alternativa, o DELE (Diploma de Espanhol como Língua Estrangeira), nível C2 do Instituto Cervantes. (Pelo Real Decreto 264/2008, de 22 de Fevereiro, passou a haver, por imposição do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas, seis níveis: A1, A2, B1, B2, C1, C2.) Claro que a Associação Portuguesa de Professores de Espanhol como Língua Estrangeira (APPELE) protestou.
      Para amenizar, um facto curioso. O hipocorístico espanhol Pepe é tão comum que até se diz como un pepe para dizer toda a gente. Pepe, como se saberá, é hipocorístico de José e há quem o faça provir da abreviatura P. P., pater putativus, que era o que S. José era em relação a Cristo. A determinada altura, para simplificar, os copistas passaram a adoptar a abreviatura JHS PP e, depois, PP. Há pelo menos outra versão de como terá surgido Pepe, mas é infinitamente mais prosaica e não vale a pena referi-la.

[Post 3890]

Topónimos

Oporto


      Se é o archbishop, o arcebispo, digo, quase todos admitem que possa ser — a tradição obriga — de Cantuária. Se for um casal que compra uma delightful country house, uma encantadora casa de campo, quer eu dizer, na localidade, já tem de ser em Canterbury. Bunk! Raios! Aw, go on! Ah, vá lá!  Hold on, mate. Aguenta-te, amigo.

[Post 3889]

Contracção

Descontracção e bom senso


      «Os mais simples pensam que este era só aquele que marcava golos inacreditáveis. Mas ele representava, sobretudo, o facto do futebol não ter explicação» («O Sobrenatural de Almeida», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 16.09.2010, p. 52).
      Se não tivesse mais nada para dizer, faria um grande escarcéu à volta de a construção «o facto do futebol não ter explicação» ser agramatical, porque a contracção da preposição com o artigo só é possível em sintagmas nominais. Faria, mas apenas se não me lembrasse de que esta é uma ideia muito recente e não sancionada por estudiosos da língua como Vasco Botelho de Amaral, como já tive oportunidade de aqui escrever um dia. Contudo, continuem a desfazer a contracção — pelo menos quando o tiverem de fazer, porque já vi muitos aprendizes de feiticeiro a desfazerem as contracções quando o não devem fazer.

[Post 3888]

Léxico: «downday»

Dispensamos


      Como os jornalistas continuam embevecidos com estrangeirismos, e de preferência anglicismos, tenho de ir dando aqui conta de alguns. Downday é o último: «A Autoeuropa não vai utilizar mais nenhum “downday” (instrumento que permite parar a produção, sem que a fábrica tenha de pagar um dia normal de salário) até ao final do ano, cancelando já o próximo previsto para 4 de Outubro, segundo a comissão de trabalhadores» («Autoeuropa cancela “downdays”», Jornal de Notícias, 16.09.2010, p. 44).
      Em Junho, o mesmo jornal já tinha explicado melhor, dizendo que downday era a «dispensa de dias de trabalho».

[Post 3887]

Desconcentração/descentralização

Ciganos e consultores


      «Assinalando que a Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) autorizou a criação desta turma especial, o ODH [Observatório dos Direitos Humanos] rejeita a argumentação aduzida pela estrutura desconcentrada do Ministério da Educação, segundo a qual a medida “responde à especificação de um grupo de jovens”, para além de ser também uma forma de combater o abandono escolar e elevado de insucesso dos alunos abrangidos”» («Observatório condena turma cigana», Jornal de Notícias, 16.09.2010, p. 49).
      «Estrutura desconcentrada do Ministério da Educação» — não tem nada, em termos jurídicos, que se lhe diga. O único problema é que a esmagadora maioria dos leitores não faz a mínima ideia de que se trata. E os jornalistas também não. O pior, porém, e é disto que quero falar, os dicionário não ajudam nada. Mais do que isso: confundem os conceitos. Consultemos, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. No verbete do verbo «desconcentrar», podemos ler: «proceder à descentralização de». Está, creio, tudo dito. Pela descentralização, que é um processo político, visa-se transferir atribuições da Administração Central do Estado para outras entidades territorialmente delimitadas, como, por exemplo, as autarquias locais. Através da desconcentração, que é um processo administrativo, atribuem-se competências a outras entidades, territorialmente delimitadas, da Administração Central do Estado. São conceitos assim tão esotéricos ou confundíveis que os consultores da Porto Editora não saibam redigir uma definição correcta e compreensível?

[Post 3886]

Léxico: «citoesponja»

Menos doloroso


      «E que, quando compararam os resultados do seu novo teste com o das endoscopias realizadas em paralelo nos participantes, constataram que a “citoesponja” detectava 90 por cento dos casos de esófago de Barrett» («Uma esponja para despistar o cancro», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 13.09.2010, p. 3).
      É mera adaptação do inglês cytosponge. E está correcto, pois também temos citoesqueleto. Como também podia grafar-se citosponja, já que também temos citostático.

[Post 3885]

Léxico: «intercurso»

Férias no País das Túlipas


      O cronista do Público Pedro Lomba andou a viajar pela Holanda este Verão. E quem fala da Holanda não pode deixar de referir, não as tulipas, mas o sexo. Não na Holanda mas no Times, o cronista aprendeu, pela boca de um adolescente holandês, que «o sexo anal dói no princípio mas se persistirmos pode ser bastante agradável». O cronista também aproveitou para usar vocábulos raros, como intercurso: «As holandesas marcam na agenda os dias da semana em que têm intercurso com os maridos» («Repressão sexual», Pedro Lomba, Público, 14.9.2010, p. 44). Parece anglicismo disfarçado, sexual intercourse, não é? Mas não. Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o ignora, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário Houaiss registam-no: «comunicação, trato; relacionamento». E este último dicionário exemplifica: «intercurso sexual».

[Post 3884]

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