Tradução: «suceso»

Ler e contar


      Sabiam que Cervantes usou 157 vezes a palavra suceso no D. Quixote? E sabiam que o tradutor José Bento só duas — duas, tomem nota — verteu como «sucesso»? Claro que não sabiam, que estas são contas que só eu faço, e não tenho formação em engenharia, como Jorge de Sena. Fê-la corresponder aos nossos vocábulos «acontecimento» (a maioria das vezes, como é fácil de imaginar), a «êxito», a «história», a «vitória», mas também a «suceder», «sucedido», «resultado», «lance», «fim», «desgraça» (mal suceso), «mau bocado» (mal suceso), «o que acontecia», «o que se passou», «caso», «desenlace», «episódio», «final [feliz]» (buen suceso), «[feliz] desfecho» (buen suceso), «[feliz] resultado» (buen suceso), «triunfo» (buen suceso), «procedimento», «conhecimento»...

[Post 3827]

Como se escreve nos jornais

Do espanador para o rato


      Pelo menos três pessoas deviam ter lido o artigo, mas saiu isto: «Renato Pedro é um dos 1436 portugueses que tiveram de ser internados devido ao vírus H1N1, mas a sua história é única, tanto em Portugal como, provavelmente, a nível internacional. Porque passou meses em coma, fez choques cépticos, teve uma pneumonia bilateral extensa, entrou em falência renal e, por várias vezes, foi resgatado de paragens cardio-respiratórias» («Doente com gripe A teve alta após luta de um ano pela vida», Helena Norte, Jornal de Notícias, 27.08.2010, p. 6). E, no fim, o leitor ainda foi brindado com uma «musculatura orofaringea». Talvez a senhora da limpeza, romena ou ucraniana, andasse por ali a espanejar e tivesse decidido fazer a revisão do texto. Reparem como aos erros se junta o jargão médico: «fez choques». Chocado fico eu com este psitacismo jornalístico.

[Post 3826]

Aportuguesamento: «placar»

Entrou nos hábitos


      «O edifício ficou assim excluído de uma iniciativa que ontem concedeu a Times Square — a praça onde confluem algumas das maiores avenidas da cidade — uma aura azulada, proveniente das luzes de edifícios e placares» («Católicos celebram os cem anos do nascimento da ‘santa dos pobres’», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 29).
      Embora seja um estrangeirismo para o qual temos vocábulos correspondentes, entrou em força na nossa língua. Ultimamente, está a consolidar-se o aportuguesamento placar. Ao lado do verbo «placar», o mesmo que «aplacar», e do também francesismo «placar», o termo do râguebi. A língua aguenta. E nós também.

[Post 3825]

Léxico: «mocktail»

Uma imitação, sem moca


      «Foi este espaço que o DN foi visitar. Não para falar sobre cocktails, mas sobre uma versão sem álcool destas bebidas: os chamados mocktails» («Já provou ‘mocktails’?», Catarina Reis da Fonseca, «DN Verão»/Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 10).

[Post 3824]

Colectivo de tubarão

Peixe seláquio, de grande porte


      «Quando zarparam do porto de pesca de Portimão, com destino a águas de Sagres, o objectivo era o de todos os dias: pescar cavala, sardinha e carapau. Não esperavam, por isso, deparar-se com um cardume de tubarões» («Dezenas de tubarões invadem costa algarvia», Miguel Ferreira, Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 13).
      Sim, senhor, que tubarão é peixe, tão peixe como um carapau. Só não estamos habituados a ouvir e a ler este colectivo referido a tubarões.

[Post 3823]

Estrangeirismos e itálico

Imagem tirada daqui

Isso é que é pensar


      «Mehlman foi responsável do Partido Republicano de 2005 a 2007, precisamente quando se radicalizavam as posições anti-gay da direita americana» («Ex-director de campanha de Bush assume-se como homossexual, L. R., Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 29).
      Já aqui tinha abordado esta questão — mas já foi há muitos anos. Reparem no preciosismo gráfico: metade em redondo, metade em itálico. Que porcaria é esta? A língua inglesa não tem, porventura, a palavra «anti-gay»?
      Para rirmos até ao fim (desmentindo assim o aforismo), lemos isto umas páginas à frente: «Este foi um ponto de forte discórdia entre a FIFA e a Agência Mundial Antidopagem (AMA), pois a FIFA resistiu a alterar os seus estatutos e permitir que a AMA, as agências antidoping nacionais e a própria FIFA pudessem recorrer para o TAS [Tribunal Arbitral do Desporto] de decisões sobre doping» («Queiroz não pode recorrer para a FIFA», Cipriano Lucas e Duarte Ladeiras, Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 44). Pois é, mas se em inglês é «anti-doping», porque não grafam anti-doping, hã?

[Post 3822]

Nomenclatura científica

E eles aprendem?


      «Foi a bactéria helicobacter pylori que provocou o cancro de estômago que matou no dia 20 de Julho o judoca internacional português Tiago Alves, de 18 anos» («Você pode estar infectado», Mariana Correia de Barros, Sábado, n.º 326, 29.07.2010, p. 88).
      Já há muito tempo que não abordava aqui a nomenclatura científica, e nunca ninguém terá falado tanto desta questão como eu, não porque tenha deixado de ver erros na imprensa, mas porque cruzei os braços. Nova investida, agora, e para me repetir, até para, descomplexadamente, me autocitar: nos jornais ainda compreendo (a pressa, a falta de revisores, etc.), não nas revistas e nos livros. É, nada de paninhos quentes, intolerável tanto amadorismo, e estou a referir-me, desta vez, aos revisores.

[Post 3821]

«Suite»/«suíte»

Há muitos anos


      «Foram três dias difíceis, de grande sacrifício pessoal. O repórter Ricardo Dias Felner entrou no motel D’lirius Azuis, entre Rio de Mouro e Sintra, às 13h. Saiu às 18h, depois de uma longa e detalhada bateria de testes à suíte principal» («O teste aos motéis», Miguel Pinheiro, Sábado, n.º 326, 29.07.2010, p. 6).
      Como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo «suíte», seja o quarto de hotel, seja o termo do léxico musical, sem acento agudo, temos mais de metade da população a escrever dessa forma. Faz-me lembrar o que acontece em certo jornal: dois revisores grafam sempre a palavra «míster» com acento, outros dois grafam sempre sem acento, e o quinto grafa ora de uma ora de outra forma em função de com quem está acompanhado. Um critério de conveniência... Ah, sim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo aportuguesado, com acento: «míster».

[Post 3820]

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