«Passar a pente fino»

Andam trocados


      «Restauração passada a pente-fino» (Correio da Manhã, 27.07.2010, p. 22). Se os jornalistas escrevem assim e se os revisores deixam passar, imagine-se o resto. Então não é passar a pente fino que se escreve? Não é o que fazem, e este erro é recorrente. Hífenes. Agora também lhes deu para não grafarem com hífen o vocábulo nadador-salvador: «Marco saía com familiares de dentro de água, quando os nadadores salvadores já não estavam ao serviço, e, a poucos metros da areia, numa zona de fundão, desapareceu quando uma onda rebentou. O pânico instalou-se junto da família e dos banhistas que ainda estavam no local. Alguns nadadores salvadores que ainda estavam por perto lançaram-se ao mar, mas não conseguiram encontrar o jovem» («Mar esconde corpo de jovem banhista», João Tavares, Correio da Manhã, 27.07.2010, p. 11).

[Post 3733]

Sobre «vectorial»

Assim se vê a diferença


      «José Robalo, subdirector-geral da DGS, revelou ao CM que foram reforçadas as medidas de combate ao vírus do Nilo Ocidental: “Foi reforçada a rede de vigilância vectorial, coordenada pelo Instituto Nacional de Saúde [Dr.] Ricardo Jorge, que recebe mosquitos de todo o País. Nesta medida, decidimos aumentar o número de insectos recolhidos em Lisboa e Vale do Tejo para análises laboratoriais”, explicou o responsável» («Reforçadas medidas contra vírus do Nilo», André Pereira, Correio da Manhã, 27.07.2010, p. 17).
      Uma sondagem dir-nos-ia quantos leitores do Correio da Manhã perceberiam aquele vectorial. Assim sem qualquer explicação, é um mau trabalho. No Público, creio que ainda é pior: «“Foram encontradas 11 espécies diferentes de mosquitos na zona de residência do doente, mas, até agora, nenhum caso positivo da presença de vectores do vírus do Nilo Ocidental”, refere José Malheiros, especialista dedicado a esta rede de vigilância do INSA que já funciona há alguns anos» («Caso de infecção por vírus do Nilo Ocidental em Portugal está “praticamente confirmado”», Andrea Cunha Freitas, Público, 27.07.2010, p. 6).
      No Diário de Notícias, a palavra começa por nem sequer estar na peça principal (de resto, o artigo é muito mais informativo do que os dos outros jornais), mas num texto de apoio: «Desde 2008 que o INSA tem uma rede de vigilância de vectores (veículos de transmissão como os mosquitos) no Continente e na Madeira» («Mosquitos e mamíferos estão a ser investigados para detectar vírus do Nilo», Diana Mendes, 27.07.2010, p. 12).
      Agora quanto a vectorial. Se tivéssemos dicionários realmente bons, talvez não fosse tão grave que os jornalistas escrevessem assim. Não é o caso. Qualquer dicionário remete sempre para vector. Este vem do latim vector, -ōris, «que conduz». Em termos genéricos, é o agente que transporta algo de um lugar para outro. Especificamente em termos médicos, é o ser vivo que pode transmitir ou propagar uma doença. Nenhum dicionário da língua portuguesa, porém, apresenta esta simplicidade.

[Post 3732]

Fases da Lua

Vamos lá alunar


      «Com a maré a subir e depois de uma noite de Lua cheia, os aliados [sic] desembarcaram nas várias praias que bordejam as costas da Normandia. Foi no dia 6 de Junho de 1944, entre as 06.30 e as 07.30, que 135 mil soldados e vinte mil veículos entraram na França ocupada pelos nazis para libertar a Europa de um dos mais terríveis episódios da sua história» («Em Arromanches, na Normandia», Maria de Lurdesvale, Diário de Notícias, 25.07.2010, p. 9).
      É um erro que tenho visto também em livros revistos. A Lua, como poucas vezes se pensará, tem muitas mais fases, mas apenas se atribui nome — pelo menos na língua portuguesa, que em algumas outras não é assim — a quatro: lua cheia (ou plenilúnio), lua nova (ou novilúnio), quarto minguante (ou decrescente) e quarto crescente. E é assim como eu acabei de escrever que se devem grafar, porque então já não estamos a referir-nos ao astro, esse sim com maiúscula inicial, mas a fases do astro. Ou Maria de Lurdesvale também escreve «Plenilúnio»?

[Post 3731]

Sobre «promitente-comprador»

Não me convence


      Abunda a grafia promitente-comprador e promitente-vendedor — tal como abunda a grafia promitente comprador e promitente vendedor. Nos acórdãos que tenho lido, ia jurar que se usa mais esta última. Quando, há uns anos, alguém perguntou ao Ciberdúvidas qual a grafia correcta, o consultor Miguel Faria de Bastos não teve dúvidas: «A primeira fórmula, promitente-comprador, é a mais correcta. O promitente-comprador é promitente de uma compra; ainda não é um comprador. O termo promitente-comprador constitui uma unidade conceitual com um sentido técnico-jurídico próprio e, daí, a obrigatoriedade do hífen.»
      Não vejo em que é que o facto de se tratar de uma «unidade conceitual» obriga ao uso do hífen. Não faltam «unidades conceituais» no Direito e noutras ciências veiculadas por locuções e não por vocábulos compostos. Direi, ao melhor estilo jurídico, que se me afigura, pois, duvidoso o bem fundado da explicação.

[Post 3730]

Actualização em 27.07.2010

      Então agora vejam noutro jornal: «No tribunal de Loulé, contudo, já foram registadas sete acções de promitentes compradores, a reclamar a anulação dos contratos e pedindo o dobro do sinal, alegando incumprimento contratual» («Apartamentos vendidos por milhões de euros no Algarve chegam a tribunal», Idálio Revez, Público, 27.07.2010, p. 20).


Léxico: «crono»

Coisas dos tempos


      E a propósito de contra-relógio, lembro-me agora que a imprensa começou a usar, com ou sem aspas, a redução crono. A origem há-de estar na redução francesa (e os Franceses, já aqui o vimos, têm uma louvável inclinação para as reduções vocabulares), chrono. «O espanhol, que venceu já em 2007 e 2009, partiu com oito segundos de vantagem para o luxemburguês Andy Schleck (Saxo Bank), segundo classificado, conseguiu defender-se dos ataques e até ganhou mais alguns segundos ao seu principal rival, acabando o crono com 39 segundos de vantagem na geral. Precisamente o tempo conquistado na polémica e decisiva 15.ª etapa, que lhe deu a liderança, após a qual foi vaiado e acusado de falta de fair play por não esperar pelo luxemburguês quando este viu a corrente da sua bicicleta saltar» («Contador resiste no crono e assegura terceiro triunfo», Cipriano Lucas, Diário de Notícias, 25.07.2010, p. 44).

[Post 3729]

Léxico: «bicavalista»

Falemos de cavalos


      Nem é preciso ler a palavra «contra-relogista» (e na semana passada li-a em dois jornais) para me lembrar da copidesque do Público. Basta algo semelhante, e ontem foi a palavra «bicavalista». Perguntou o jornalista do Diário de Notícias: «O que é um bicavalista?» O entrevistado não era de poucas palavras: «É um adepto dos automóveis 2 cavalos; o termo deriva de bicavalaria. É um apaixonado por este carro simples, mas que é uma grande máquina. Somos amantes e fãs destes veículos — que procuramos manter, conduzir, conservar, divulgar —: o 2 cavalos original, como é o meu caso, mas também da Dyane, do AMI8 e do Mehari. Todos estes carros fazem parte da bicavalaria» («Trabalhei na fábrica da ‘Citroën e apaixonei-me pelo 2 cavalos”», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 25.07.2010, p. 68).
      O processo de formação é um tudo-nada mais engenhoso, mas o que está em causa é justamente o mesmo. Será que a copidesque cortava a palavra? E substituía-a por quê? Só pode ser para rir.

[Post 3728]

Léxico: «modelito»

Sabrina Sato num modelito ousadíssimo ©

Diminutivo pleno


      Aqui leio que Sandra Bullock surgiu com um modelito criativo na estreia de um filme; ali tomo conhecimento de que Roberto Cavalli foi o responsável pelo modelito que Shakira usou na final do Campeonato do Mundo de Futebol; acolá fico a saber que Paris Hilton mostrou um modelito ousado numa festa regada a champanhe... E a palavra já está bem presente em alguma da nossa imprensa. Tanto quanto sei, só o Dicionário Aulete Digital regista o termo: «Pop. Vest. Roupa, traje: “Longos na cor preta dominaram a festa, mas um ou outro modelito exibiu plumas cor-de-rosa...” (Folha de S. Paulo, 14.09.1999).»

[Post 3727]

Léxico: «supraordinado»

Os nossos hierarcas


      É um sentido figurado, sim senhor, mas quando pretendemos usar um antónimo de subordinado, por que palavra optamos? «Superior», pois claro. Mas no mundo académico usa-se há muito supraordinado. Então agora imaginem que um autor topava com um orientador como aquele de que falei aqui. Este perguntava logo, numa grande nota a vermelho, se «supraordinado» existe. É que, se sim, não tinha nada a opor... Claro que, temos de o dizer, não são apenas os índices de frequência a ditar a inclusão de um vocábulo nos dicionários. Quantas lacunas clamorosas, indefensáveis, absurdas, aqui tenho denunciado ao longo dos anos.
      Agora podia dizer alguma coisa sobre a relação hierárquica supraordinado/subordinado, começando por convidar o leitor a recuarmos ao sentido etimológico de «hierarquia», que remete para uma comunidade governada por uma autoridade sagrada cuja origem é divina. Mas não digo mais.

[Post 3726]

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