«Aparentamento de listas»?

Parentes desavindos


      Que o desculpassem se era um termo jurídico, disse anteontem à noite, na Sic Notícias, Henrique Monteiro, director do semanário Expresso, mas que ele não entendia o que é «aparentamento dos partidos». E estava flanqueado por dois constitucionalistas, Bacelar Gouveia e Reis Novais. Mas estes fingiram não ter ouvido, apesar de Henrique Monteiro ter repetido a dúvida e ter assegurado que estava a falar a sério. Confesso que também não sei, mas se se citar fielmente o que parece ser a proposta do PSD, alguma luz se faz. O que se lê e ouve em todos os lados é que, no que respeita à eleição dos deputados, o PSD quer admitir «o aparentamento de listas para efeito de combinação de votos nos círculos locais». Ainda assim, não me atrevo a formular qualquer explicação. É claro que não é termo jurídico. Há-de ter sido inspiração do momento de algum porta-voz daquele partido. Se não foi, como tantas vezes é, resultado de incompreensão dos jornalistas.

[Post 3715]

Léxico: «submersível»

Avance a Marinha


      «A Procuradoria Geral da República (PGR) anunciou ontem a abertura de um inquérito para apurar se a relação pessoal entre a procuradora-adjunta, Carla Dias, e José Felizardo, que foi perito no processo dos submarinos e é presidente da INTELI, prejudicou a investigação à compra dos submersíveis ao German Submarine Consortium (GSC)» («PGR investiga relações pessoais», António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 21.07.2010, p. 52).
      «Adjunto», já aqui o vimos, nunca se liga por hífen a outros elementos de locuções. (O hífen deve ter caído da primeira linha, de «Procuradoria-Geral».) Mas não é disso que quero agora falar. Nem daquela inconcebível pontuação depois de «procuradora adjunta». Antes sobre o vocábulo submersível. Talvez não passe de escusado galicismo, mas vejamos o que registam os dicionários.
       Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o faz equivaler a «submarino» (tal como o Dicionário Houaiss, que acrescenta que é pouco usado), já o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa define assim «submersível»: «Espécie de torpedeiro que, em caso de necessidade, pode navegar submerso.» Em francês, por exemplo, sous-marin e submergible remetem para conceitos diferentes — e, pelo que posso ver, também em português. Logo, optar por um ou por outro vocábulo não é nunca uma questão estilística.

[Post 3714]

Sobre «afectar»

São dúvidas, senhores


      «Os países que afectam uma despesa relativa mais reduzida e que obtêm um retorno educativo mais modesto, casos do Brasil, México e Chile, são os que revelam um maior atraso.»
      Duas observações: os Brasileiros, tanto quanto observo, não usam (e, consequentemente, os dicionários brasileiros não registam) esta acepção de afectar: «destinar a; atribuir a (recursos, verbas)». Mas já os meus qualificados leitores brasileiros me dirão, com outro grau de certeza, se é como suspeito. Na frase acima, temos outro problema: não será um salto muito grande passar de afectar verbas, dinheiro, meios, recursos para afectar despesas?

[Post 3713]

Exónimos e endónimos

Si eis placeret


      «Ao tratar dos nomes de cidades, línguas, grupos humanos, etc.», escreve o linguista e escritor espanhol José Antonio Millán (e eu traduzo), «convém distinguir entre a forma como se chamam a si mesmos e a forma como lhes chamam outros. Os habitantes da cidade de Londres chamam-na London, enquanto os que vivem na Alemanha se referem a ela como Deutschland. Chamamos ao primeiro termo destes exemplos exónimo, do grego ἔξω, éxō, “fora” e ὄνομα, ónoma, “nome”, e ao segundo, endónimo, de ἔνδον, éndon, “dentro”. As diferenças entre uns e outros são uma lição de História.»
      Para quem, em algumas editoras, há alguns anos decidiu que devemos optar pelos endónimos é que a lição será mais completa e exemplar. Em português, é raríssimo encontrar os termos referidos. Encontramo-los aqui, no glossário do portal do Sistema Nacional de Informação Geográfica (SNIG).

[Post 3712]

Redacção

Língua de cão


      «A questão da delimitação entre a limitação e determinação do conteúdo da propriedade pelo legislador e o conceito de expropriação será abordada adiante.» Esta consonância (e assonância) é muito desagradável, e mais ainda quando o texto não é poético, mas jurídico. Nem sempre, porém, conseguimos escapar a esta circunstância. Não é o caso da frase citada, que, além disso, também inclui o que será sempre de evitar: o uso de vocábulos contidos noutros, como em «delimitação» e «limitação». Proponho: «A limitação e determinação do conteúdo da propriedade pelo legislador e o conceito de expropriação será matéria abordada adiante.» Proponham.

[Post 3711]

Subordinada adverbial

Vírgula, em princípio


      Não é o único caso, mas vejam como uma oração subordinada adverbial, apesar de anteposta à principal, não se separa nunca, dada a estrutura que apresenta, por vírgula da subordinante: «Quando começa o jogo é que se vê quem é o favorito.»
      Bem teriam feito Celso Cunha e Lindley Cintra na Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa: Edições João Sá da Costa, pág. 645) se tivessem apresentado uma frase com a mesma estrutura para demonstrar que só em princípio se separam com vírgula. Claro que a tendência, decerto que moldada pela ignorância, é nenhuma oração subordinada adverbial, anteposta ou posposta, ser separada por vírgula, e isto mesmo em livros revistos.

[Post 3710]

Selecção vocabular

Vai passar


      «O teste à integridade do poço de petróleo no golfo do México estava ontem a aproximar-se do fim, mas nem a BP nem as autoridades norte-americanas pareciam dispostas a cantar vitória. “Estamos a sentir-nos mais confortáveis, mas o teste ainda não acabou”, disse o vice-presidente da petrolífera, Kent Wells. A pressão no interior estava a aumentar, mas não a atingir os valores esperados, devendo os peritos esticar para lá das 48 horas a duração do teste» («Poço não apresenta fugas mas teste deve continuar», Susana Salvador, Diário de Notícias, 18.07.2010, p. 32).
      O grande modismo (e má tradução do inglês), já aqui o afirmei diversas vezes, do nosso tempo. Como quase todos, porém, irá passar. E por mim nunca passa.

[Post 3709]

Ortografia: «Kaiser»

Obedeça ao estilo


      «Conta Pedro Falcão que um dia o rei foi visitar oficialmente o kaiser Guilherme II, senhor do império alemão» («Rapsódia em C», Nuno Pacheco, P2/Público, 19.07.2010, p. 3). E assim três vezes: kaiser, kaiser, kaiser. (E nisto é parecido com o mostrengo, que voou três vezes a chiar.)
      Se era para escrever como se não escreve em alemão, então o jornalista poderia ter optado pelo aportuguesamento — cáiser. Em alemão, o título e designação do imperador do Sacro Império Germânico (962–1806), da Áustria (1804–1918) e especialmente da Alemanha (1871–1918), para usar a definição do Dicionário Houaiss, é Kaiser. Sobretudo, o jornalista deveria ter seguido o que recomenda o próprio Livro de Estilo do jornal em que escreve: «Em alemão, os substantivos escrevem-se com maiúscula inicial e não fazem o plural acrescentando s.» Até a consulta do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora resolvia, no que concerne à ortografia, a questão. (Já a definição é, neste dicionário, menos informativa: «imperador da Alemanha Guilherme II, desde a sua coroação, em 1888, até 1918 (fim da Primeira Grande Guerra)».)

[Post 3708]

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