Predicativo do complemento directo

Já que perguntam


      Em relação às provas nacionais, este ano só me perguntaram (e foi uma professora) qual a resposta à questão 4.1. do Grupo II da prova de Língua Portuguesa do 9.º ano, sobre a função sintáctica da expressão destacada na frase: «Os ornitólogos consideram a garça-vermelha uma ave sensível.» «Predicativo do complemento directo», respondi. Considerar, a par de outros verbos, como achar, declarar, nomear, ter por (e como), é um verbo triádico ou de três lugares: alguém considera algo alguma coisa. Ou seja, sujeito, complemento directo e predicativo do complemento directo. Neste caso, o predicativo do complemento directo é um substantivo + um adjectivo, mas podia ser só um substantivo ou só um adjectivo. A frase é passível de ser substituída por uma frase subordinada finita: «Os ornitólogos consideram que a garça-vermelha é uma ave sensível.» Tenho sérias dúvidas que a maioria dos jovens professores de Português domine estas questões gramaticais da predicação complexa.

[Post 3625]

Sobre «enviesamento»

Pense nisso


      «No entanto, alguns investigadores mostraram-se cépticos e sugeriram que a oferta de comida por parte dos investigadores poderia ter alterado o comportamento dos animais. E a questão ficou em aberto. Até agora. No estudo que desenvolveu nos últimos dez anos nas florestas do Uganda, o grupo de investigadores coordenado pelo primatólogo John Mitani, da Universidade de Michigan, nos EUA, não utilizou comida para se aproximar dos animais, o que elimina essa hipótese de enviesamento» («Chimpanzés matam por território», Filomena Naves, Diário de Notícias, 23.06.2010, p. 23).
      Já aqui falámos deste enviesamento, tradução do inglês bias. Só pergunto uma coisa: assim, secamente, quantos leitores é que a jornalista pensa que compreenderão o termo? Para agravar, nem sequer aparece registado nos dicionários gerais.

[Post 3624]

Ortografia: «cubo-americano»

Por mim


      «“Não há solução para o problema de Cuba sem diálogo”, disse na capital cubana ao diário espanhol El País um académico cubo-americano, Carmelo Mesa-Lago, que ali foi para participar na X Semana Social Católica.» Não, não se trata de um sólido limitado por seis faces quadradas e iguais entre si. É a forma reduzida, truncada, do adjectivo «cubano». O último caso que aqui vimos, lembrar-se-ão, foi o do adjectivo «sovieto-moçambicano». «Cubo-americano» aparece poucas vezes, dizem? Adivinhem porquê.

[Post 3623]

Sobre «produtividade»

Ai isso é que não


      «Ironicamente, o dicionário define ‘produtividade’ como a “qualidade do produto” — a ironia não explica como é que Portugal tem uma das taxas de produtividade mais baixas da Europa mas faz sucesso nos têxteis, no vestuário, na maquinaria e no calçado — o top das exportações nacionais» («Por que é que produzimos pouco?», M. M. S., Domingo/Correio da Manhã, 9.05.2010, p. 68).
      Ironicamente, nenhum dicionário regista tal, e ninguém na redacção estranhou. «Produtividade» é a qualidade daquilo que é produtivo.

[Post 3622]

«Portas antagónicas»

Agora já sabemos


      «O FlexDoors, um sistema composto por portas traseiras antagónicas, que facilita muito o acesso aos bancos posteriores» («Remodelação radical», Jorge Flores, Domingo/Correio da Manhã, 9.05.2010, p. 60).
      Trata-se do novo monovolume Opel Meriva. É mesmo a marca que lhes chama «portas antagónicas».

[Post 3621]

Sobre «puericultural»

Vá, agradeçam ao senhor


      «Fui logo buscar uma tesoura, cortei o quadradinho consolador e enviei o resto do jornal para o lixo. Na minha mão, em 2x2 cm de papel impresso, estava a prova de que há no mundo uma outra alma que não só partilha a minha filosofia puericultural (acabei de inventar a palavra) como a professa publicamente. Desculpe começar o texto desta maneira, caro leitor, sem indicar o quem, o quê e o porquê. Mas eu explico» («Eu, os bebés e a Inês Pedrosa», João Miguel Tavares, Domingo/Correio da Manhã, 9.05.2010, p. 18).
      O título de um texto de 1939 assinado por J. Costa Lima na revista Brotéria (vol. 30, fasc. 5, Novembro de 1939, pp. 409-420) é precisamente «Revolução puericultural». Mas não faltam ocorrências do vocábulo na língua portuguesa. Já tivemos sorte em não reivindicar a invenção do termo «puericultura», normalmente atribuído ao suíço Jacques Ballexserd, que o terá cunhado em 1762.

[Post 3620]

«Borboleta» ‘vs.’ «mariposa»

Zoologia


      Posso estar enganado, mas creio que em Portugal, com excepção dos zoólogos, se usa o termo «mariposa» quase exclusivamente para designar o estilo de natação. Quanto ao resto, até os dicionários nos querem fazer crer que mariposas são borboletas. A começar pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que na respectiva entrada remete para o verbete «borboleta». E são erros que se perpetuam, porque os dicionários se copiam uns aos outros. E são eles que fazem crer à generalidade dos falantes que, quando alguém usa a palavra «mariposa», está a falar num português espanholado.

[Post 3619]

«Rectificar» ‘vs.’ «ratificar»

Sempre os mesmos


      «Até ao século XX eram comuns relatos que davam conta da existência do lobo em Portugal. Mas na década de 70, o mapa mudou: a progressiva humanização do interior do País (mais casas, mais estradas, mais caçadores...), começou a ameaçar seriamente o canis lupus signatus (lobo ibérico). A situação piorou até 1988, quando Portugal rectificou a Convenção de Berna e com ela a protecção — pelo menos oficial — do lobo ibérico» («Ibérico ainda no livro vermelho da extinção», Metro, 23.06.2010, p. 2).
      O jornalista queria escrever Canis lupus signatus. Escrevo eu. «Rectificou» por «ratificou» é um erro, e erro crassíssimo, em todas as latitudes. Finalmente, se na mesma página, e com muito mais destaque, se escreve «lobo-cinzento», não se deveria ter escrito neste texto «lobo-ibérico» (que é subespécie daquele)?

[Post 3618]

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