Sobre «puericultural»

Vá, agradeçam ao senhor


      «Fui logo buscar uma tesoura, cortei o quadradinho consolador e enviei o resto do jornal para o lixo. Na minha mão, em 2x2 cm de papel impresso, estava a prova de que há no mundo uma outra alma que não só partilha a minha filosofia puericultural (acabei de inventar a palavra) como a professa publicamente. Desculpe começar o texto desta maneira, caro leitor, sem indicar o quem, o quê e o porquê. Mas eu explico» («Eu, os bebés e a Inês Pedrosa», João Miguel Tavares, Domingo/Correio da Manhã, 9.05.2010, p. 18).
      O título de um texto de 1939 assinado por J. Costa Lima na revista Brotéria (vol. 30, fasc. 5, Novembro de 1939, pp. 409-420) é precisamente «Revolução puericultural». Mas não faltam ocorrências do vocábulo na língua portuguesa. Já tivemos sorte em não reivindicar a invenção do termo «puericultura», normalmente atribuído ao suíço Jacques Ballexserd, que o terá cunhado em 1762.

[Post 3620]

«Borboleta» ‘vs.’ «mariposa»

Zoologia


      Posso estar enganado, mas creio que em Portugal, com excepção dos zoólogos, se usa o termo «mariposa» quase exclusivamente para designar o estilo de natação. Quanto ao resto, até os dicionários nos querem fazer crer que mariposas são borboletas. A começar pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que na respectiva entrada remete para o verbete «borboleta». E são erros que se perpetuam, porque os dicionários se copiam uns aos outros. E são eles que fazem crer à generalidade dos falantes que, quando alguém usa a palavra «mariposa», está a falar num português espanholado.

[Post 3619]

«Rectificar» ‘vs.’ «ratificar»

Sempre os mesmos


      «Até ao século XX eram comuns relatos que davam conta da existência do lobo em Portugal. Mas na década de 70, o mapa mudou: a progressiva humanização do interior do País (mais casas, mais estradas, mais caçadores...), começou a ameaçar seriamente o canis lupus signatus (lobo ibérico). A situação piorou até 1988, quando Portugal rectificou a Convenção de Berna e com ela a protecção — pelo menos oficial — do lobo ibérico» («Ibérico ainda no livro vermelho da extinção», Metro, 23.06.2010, p. 2).
      O jornalista queria escrever Canis lupus signatus. Escrevo eu. «Rectificou» por «ratificou» é um erro, e erro crassíssimo, em todas as latitudes. Finalmente, se na mesma página, e com muito mais destaque, se escreve «lobo-cinzento», não se deveria ter escrito neste texto «lobo-ibérico» (que é subespécie daquele)?

[Post 3618]

Léxico: «teremim»

Uma revelação


      A nossa ignorância não tem fim. Só ontem fiquei a saber que existe um instrumento — e singular, único, pois não é preciso ter contacto físico com ele para ser tocado — chamado teremim. Conhecem? Embora o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registe o vocábulo, prefiro a definição do Dicionário Houaiss: «Instrumento electromagnético monofónico, inventado na Rússia, em 1920, por Leon Theremin [1896―1993] e executado por movimentos da mão que, sem tocar no instrumento, se aproxima ou se afasta dele, produzindo desse modo sons, respectivamente, agudos ou graves.» À semelhança de muitos outros vocábulos, de nome próprio passou a nome comum. «— Está a ligar-nos por causa do cão? — soprou uma voz trémula, quase com som de teremim» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 125).

[Post 3617]

Léxico: «enogastronomia»

Vinho e culinária


      «No mundo anglo-saxão, existe a mais influente imprensa nos domínios da enogastronomia, embora o Reino Unido e os Estados Unidos da América não tenham uma culinária que nos desperte grandes apetites e emoções. O inglês tornou-se no idioma global e a petisqueira foi baptizada, não há muitos anos, como finger food, daí o “na ponta dos dedos”» («Os petiscos “na ponta dos dedos”», David Lopes Ramos, Pública, 30.05.2010, p. 86).
      É tudo inglês, também o vocábulo enogastronomia é tradução do inglês. Talvez nunca venha a estar registado nos dicionários gerais da língua, mas já é objecto de cursos universitários no estrangeiro.

[Post 3616]

Iliteracia

Não diga isso


      Entrevistado por João Ramalhinho, repórter da Antena 1, para o programa Portugal em Directo, Nuno Franco, vice-presidente da direcção da associação Renovar a Mouraria, falou da 1.ª edição do Rosa Maria, o jornal da Mouraria publicado por aquela associação. Um dos objectivos, afirmou, é «fazer com que as pessoas sintam cada vez mais auto-estima pelo bairro». «Auto-estima»? Então não é pelo bairro... Prometo, ainda assim, que vou ler o jornal, logo que apanhar um exemplar.

[Post 3615]

Acontecimentos históricos

Invencionice


       «O “Domingo Sangrento” que incendiou a Irlanda do Norte foi há 38 anos. Mas, ontem, as emoções foram vividas como se o tempo tivesse parado» («Acções do Exército no “Domingo Sangrento” foram “injustificadas” e “injustificáveis”», Ana Fonseca Pereira, Público, 16.06.2010, p. 24).
      Desde quando é que o nome de acontecimentos históricos é grafado entre aspas? Nunca, é pura invencionice da jornalista e desmazelo dos copidesques.

[Post 3614]

Sobre «chofer»

Muito raro já


      Outra palavra que está a cair em desuso é «chofer». Vejam como há uns anos (anos 60?) ainda era grafada nos livros: «— Bem, ainda foi uma grande coisa que o chófer desligasse o motor! — disse Mrs. Ammer, depois de passado muito tempo. — Havia de ter custado bom dinheiro!» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 299). Agora, na escrita, aparece rarissimamente: «As senhoras ricas mandavam o chofer parar o carro, para irem comprar tecidos» («O baile que trouxe a vida à “aldeia das mansardas”», Paulo Moura, Público, 10.06.2010, p. 7).

[Post 3613]

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