Léxico: «teremim»

Uma revelação


      A nossa ignorância não tem fim. Só ontem fiquei a saber que existe um instrumento — e singular, único, pois não é preciso ter contacto físico com ele para ser tocado — chamado teremim. Conhecem? Embora o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registe o vocábulo, prefiro a definição do Dicionário Houaiss: «Instrumento electromagnético monofónico, inventado na Rússia, em 1920, por Leon Theremin [1896―1993] e executado por movimentos da mão que, sem tocar no instrumento, se aproxima ou se afasta dele, produzindo desse modo sons, respectivamente, agudos ou graves.» À semelhança de muitos outros vocábulos, de nome próprio passou a nome comum. «— Está a ligar-nos por causa do cão? — soprou uma voz trémula, quase com som de teremim» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 125).

[Post 3617]

Léxico: «enogastronomia»

Vinho e culinária


      «No mundo anglo-saxão, existe a mais influente imprensa nos domínios da enogastronomia, embora o Reino Unido e os Estados Unidos da América não tenham uma culinária que nos desperte grandes apetites e emoções. O inglês tornou-se no idioma global e a petisqueira foi baptizada, não há muitos anos, como finger food, daí o “na ponta dos dedos”» («Os petiscos “na ponta dos dedos”», David Lopes Ramos, Pública, 30.05.2010, p. 86).
      É tudo inglês, também o vocábulo enogastronomia é tradução do inglês. Talvez nunca venha a estar registado nos dicionários gerais da língua, mas já é objecto de cursos universitários no estrangeiro.

[Post 3616]

Iliteracia

Não diga isso


      Entrevistado por João Ramalhinho, repórter da Antena 1, para o programa Portugal em Directo, Nuno Franco, vice-presidente da direcção da associação Renovar a Mouraria, falou da 1.ª edição do Rosa Maria, o jornal da Mouraria publicado por aquela associação. Um dos objectivos, afirmou, é «fazer com que as pessoas sintam cada vez mais auto-estima pelo bairro». «Auto-estima»? Então não é pelo bairro... Prometo, ainda assim, que vou ler o jornal, logo que apanhar um exemplar.

[Post 3615]

Acontecimentos históricos

Invencionice


       «O “Domingo Sangrento” que incendiou a Irlanda do Norte foi há 38 anos. Mas, ontem, as emoções foram vividas como se o tempo tivesse parado» («Acções do Exército no “Domingo Sangrento” foram “injustificadas” e “injustificáveis”», Ana Fonseca Pereira, Público, 16.06.2010, p. 24).
      Desde quando é que o nome de acontecimentos históricos é grafado entre aspas? Nunca, é pura invencionice da jornalista e desmazelo dos copidesques.

[Post 3614]

Sobre «chofer»

Muito raro já


      Outra palavra que está a cair em desuso é «chofer». Vejam como há uns anos (anos 60?) ainda era grafada nos livros: «— Bem, ainda foi uma grande coisa que o chófer desligasse o motor! — disse Mrs. Ammer, depois de passado muito tempo. — Havia de ter custado bom dinheiro!» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 299). Agora, na escrita, aparece rarissimamente: «As senhoras ricas mandavam o chofer parar o carro, para irem comprar tecidos» («O baile que trouxe a vida à “aldeia das mansardas”», Paulo Moura, Público, 10.06.2010, p. 7).

[Post 3613]

Léxico: «sorraia»

Mais uma falha


      «As 23 fêmeas, onze poldros e um macho retomaram a sua refeição e concentraram-se de novo no pasto da Herdade Font’Alva, situada a norte de Elvas, no Alentejo. Juntos, formam a maior população de sorraias no mundo, a raça de cavalos portugueses mais ameaçada, que conta com cerca de 200 indivíduos» («Os cavalos do Sorraia», Nicolau Ferreira, P2/Público, 10.06.2010, p. 9).
      Experimentem agora consultar um dicionário. Pode ser o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não regista o vocábulo «sorraia» — mas regista «alter», também uma raça portuguesa de cavalos, e obtido pelo mesmo processo linguístico. E a propósito de cavalos: este dicionário afiança que o vocábulo «garrano», o cavalo pequeno mas robusto, é de origem obscura. O Dicionário Houaiss, porém, indica como étimo o inglês garron, «a small sturdy workhorse», o que parece muito provável.

[Post 3612]

Léxico: «camisola-tipo-vestido»

Mais curto


      «Andreia criou uma página no Facebook e desatou a divulgá-la entre os amigos da rapariga. Carina, a amiga de infância que recuperara havia pouco, vestia umas legging pretas e uma camisola-tipo-vestido preta; calçava uns sapatos de salto, pretos; e trazia o cabelo, castanho, entrançado» («Corpo de Carina foi encontrado com o cinto de segurança posto», Ana Cristina Pereira, Público, 7.06.2010, p. 38).
      Gosto da solução: camisola-tipo-vestido. Claro que desconfiamos logo de que em inglês seja mais curto, mais fácil, mais sugestivo. Porque não «camisola-vestido»? Ou, porque me parece indiferente, «vestido-camisola».

[Post 3611]

Conversor ortográfico «Lince»

Depois falamos


      «É um programa informático, grátis, que tem por missão converter todos os ficheiros de texto que lhe sejam submetidos à nova grafia, sem que o utilizador tenha sequer o trabalho de perceber como e porquê. Ou seja, há uma máquina de tirar consoantes da qual o utilizador não tirará prazer nem glória mas que se presume venha substituir a tarefa de entender a utilidade do acordo» («Um lince que não precisa de ser salvo», Público, 7.06.2010, p. 38).
      Quando, um dia, o Público aplicar as regras do Acordo Ortográfico de 1990, ver-se-á que uma mera «máquina de tirar consoantes», esta ou outra, não impedirá que os seus jornalistas errem todos os dias. Apesar de tudo, o alcance das novas regras é um tudo-nada mais extenso.

[Post 3610]

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