Léxico: «baleação»

Algo novo


      Na edição de ontem dos Dias do Futuro, na Antena 1, ouvi um vocábulo novo para mim: baleação. Mas não somente para mim: nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário Houaiss o registam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por sua vez, indica que é a «pesca da baleia». Descortino dois problemas na definição. Primeiro: é caça e não pesca. Segundo: todas as pesquisas indicam que se trata da caça de baleias e de cachalotes. Mas o último aspecto tem menos importância, porque, afinal, o cachalote (e o termo deriva do gascão cachau, «grandes dentes») é uma espécie de baleia. Mas tem a sua importância, pois nos Açores, como esta era a espécie alvo da baleação, «a designação “baleia” era-lhe exclusivamente aplicada, enquanto outras baleias recebiam outros nomes, normalmente derivados dos nomes aplicados por baleeiros norte-americanos» (ver aqui).

[Post 3601]

Sol/sol

Minudências gráficas


      «A exposição descuidada ao sol danifica seriamente a pele» («O sol na cidade», Vera Saldanha, Notícias Magazine, 6.06.2010, p. 74). «Contudo, neste dia, tendo em conta que era sábado de manhã e estava um dia de Sol, ele não estava tão bem arranjado» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 66).
      É somente um pormenorzinho da língua, mas como é triste comprovar que, por vezes, se escreve melhor nas publicações periódicas do que nos livros.

[Post 3600]

Léxico: «cão assilvestrado»

Há muitos


      «Não é de agora que os caçadores, os gestores de zonas de caça e os criadores de gado utilizam venenos para controlo dos predadores das espécies cinegéticas e pecuárias, mas esta prática tem graves impactes sobre os abutres, grifos, Milhafres-reais [sic], cães assilvestrados, lobos ibéricos e mamíferos de pequeno e médio porte.» («Veneno contra os animais», Carla Amaro, Notícias Magazine, 6.06.2010, p. 66).
      Nunca tinha ouvido falar de cães assilvestrados, mas que os há, não há dúvida.

[Post 3599]

Ascendência/descendência

Esta já é velha


      Susana Salvador entrevistou os Black Eyed Peas para a revista Notícias Magazine (6.06.2010, pp. 40-45). Uma das perguntas, era inevitável, era se «vão torcer por Portugal ou pelos EUA o Mundial». Respondeu Taboo, que na verdade se chama Jamie Gomez e é, ao que todas as fontes asseveram, méxico-americano: «Pelo México, por causa da minha descendência mexicana. O meu padrasto é do México e vai ao Mundial, por isso disse-me que eu tinha de torcer pela equipa.» Jornalistas e tradutores estão todos os dias a cair neste erro infeliz, e só por falta de reflexão. Aqui até era possível, mas, mesmo quando se trata de uma criança, falam da sua «descendência». Quanto a Taboo, coitado, também confunde um pouco as coisas. Mesmo que tenha amor (quase) filial ao padrasto, que é mexicano (nasceu em Morelia, capital do Michoacão), nunca poderá afirmar, sem mentir, que tem ascendência mexicana.

[Post 3598]

Tradução: «vegetables»

Noutro país


      «— É sobre o Pavel — disse Bruno. — Tu conhece-lo, não conheces? O homem que vem descascar os vegetais e que depois serve à mesa» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 114).
      Às vezes, pergunto-me se vivemos no mesmo país, eu e alguns tradutores e revisores. Desde quando é que dizemos «vegetais» querendo referir-nos à hortaliça, aos legumes, às verduras? É claro que não falamos a mesma língua.

[Post 3597]

Entre (os) dentes/entredentes

Fico com a do meio


      José Pedro Machado, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, regista «entredentes». O Dicionário Houaiss, por sua vez, regista «entre os dentes». Há, porém, uma terceira variante, provavelmente a mais usada, que fica, em termos de evolução, entre aquelas: «entre dentes». Ou seja, ter-se-á começado por dizer «entre os dentes», depois, «entre dentes» e, finalmente, por analogia com outros vocábulos, «entredentes». O que convém sempre, é claro, é não usar duas ou três formas no mesmo texto: «— Sim, pai — disse Bruno entredentes» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 102). «Bruno disse qualquer coisa entre dentes, tipo “Claro que havia”, mas não muito alto para Shmuel não ouvir» (idem, ibidem, p. 110). Outros exemplos: «Murmurei entredentes alguns lugares-comuns — Oxford, college eminente, enorme privilégio, a honra — mas ele interrompeu-me logo» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 39). «— Vai-te lixar! — dizia-lhe então entredentes e atacava-lhe os tornozelos, decidido a fazer-lhe cócegas até ela se render de cansaço» (O Jardim de Cimento, Ian McEwan. Tradução de Cristina Ferreira de Almeida e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Gradiva, 4.ª ed., 2005, p. 28). «— Adoro “lagartixas”... — murmurou o Chico entredentes» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 22). «— Ah, a aranha santimonial — retorquiu ela, e toda a gente se riu entre dentes, menos eu. Mrs. Woolf olhou-me de alto a baixo. — Vejo que o perturbei. Provavelmente venera-o» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 100). «Pôs o pé no primeiro degrau e resmungou entre dentes: “A quinta que se foda.” Tinha sido a sua mantar quando entrava em acção desde que fugira de casa aos doze anos de idade» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 218).

[Post 3596]

Ortografia: «bom senso»

Ainda não é assim


      «— E matar de preocupação o seu pai e a sua mãe? — perguntou Maria. — Menino Bruno, se tiver um pingo de bom-senso, vai ficar quietinho e concentrado no estudo e a fazer o que o seu pai lhe disser. Nós só temos de nos manter a salvo até tudo isto acabar. Pelo menos é isso que eu tenciono fazer. Afinal, que mais podemos nós fazer? Não nos cabe a nós mudar as coisas» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 60).
      Boa parte dos falantes continua a crer, se é que pensam nisso, que se trata de uma unidade lexicalizada. A convicção (se o é) não é recente. «Bem, mas como o rejeitara como apaixonado, talvez decidisse mostrar mais bom-senso como mero amigo!» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 202).
      Entretanto, em jornais e revistas, com muito menos tempo para reflexão e revisão, escreve-se correctamente: «É um documento no qual o bom senso, justiça e progresso — a declaração da liberdade de culto, por exemplo — se cruzam com medidas duras e aparentemente gratuitas como a da proibição de símbolos religiosos no exterior de qualquer edifício, mesmo privado, que não reservado ao culto, e do uso de vestes talares pelos sacerdotes no espaço público» («A religião do reino», Fernanda Câncio, Notícias Magazine, 6.06.2010, p. 16).

[Post 3595]

Ortografia: «primeiros socorros»

Nem pensar


      «Bruno observava-o à medida que ele andava pela cozinha, pegava na caixa de primeiros-socorros, enchia uma bacia com água e a experimentava com o dedo para ver se não estava muito fria» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 71).
      Não são poucas as vezes que se vê esta grafia, felizmente não dicionarizada e claramente injustificada.

[Post 3594]

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