Léxico: «piã»

Na pele


      «Fizemos a sensibilização para a campanha de vacinação do Pian (uma doença contagiosa e muito comum nos pigmeus que provoca chagas em todo o corpo)», escreveu uma pessoa que agora não interessa.
      Segundo Nascentes, o vocábulo piã (pian é a grafia francesa) provém de um termo da língua tupi que significa «pele erguida, tumor». Também é conhecida por framboesia, vocábulo ignorado pelo Dicionário Houaiss, que, em contrapartida, regista o sinónimo bouba. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) Em inglês é conhecida por yaws ou frambesia.

[Post 3585]

Léxico: «fanagalo»

Não anda longe


      «O português chegou a ser uma língua de resistência dos negros, reprimida pela colonização holandesa e boer. E ainda hoje há resquícios do fanangalou, o dialecto das minas, que tem, entre outras, uma base na língua de Camões, e que serve para que negros trabalhadores de várias etnias se entendam entre si. Por essas e outras, o português é, com o grego e o alemão, uma das três línguas protegidas pela Constituição. Os sete canais do Supersport terão, durante o Mundial, comentários em quatro línguas, três das quais locais, inglês, zulu, sesuto e uma estrangeira... o português» («Festa, liberdade e futebol», Filipe Luís, Visão, 27.05.2010, p. 98).
      Em lado nenhum leio a grafia «fanangalou», mas sim «fanagalo». Não se terá o jornalista fiado demasiado na memória ou apenas numa fonte?

[Post 3584]

Casamento homossexual

Melhor e pior da semana


      No última emissão de Hotel Babilónia, Pedro Rolo Duarte, na rubrica «O melhor e o pior da semana», escolheu como melhor o casamento homossexual. «Acho muito bem que os homossexuais casem», afirmou. João Gobern, porém, não quis, mais uma vez, ser politicamente correcto: «A mim só me chateia o uso da palavra “casamento”.» Depois, contudo, não se eximiu de usar a palavra «casal» para se referir às duas pessoas — homem + homem, mulher + mulher — dos cônjuges.
      Já aqui tínhamos visto que os dicionários da Porto Editora já não fazem qualquer referência a homem ou mulher na definição de casamento. E, em coerência com essa opção, também um casal, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «conjunto de duas pessoas casadas ou que mantêm uma relação amorosa ou íntima, vivendo ou não juntas». «Conjunto de duas pessoas», não homem e mulher. João Gobern teria, para ser coerente, de ter usado um vocábulo menos conotado, talvez par. Ele e Pedro Rolo Duarte, por exemplo, são um par. Afinal, par é o que não apresenta diferença em relação a outro. Igual. Semelhante. A par com João Gobern, está o candidato a presidente da República Fernando Nobre, que só se incomoda com a palavra «casamento» para designar a nova (?) realidade.

[Post 3583]

«Communauté de castors»

Perde-se sempre algo


      Então os tais «charpentiers, ingénieurs, maçons, conducteurs de travaux, grutiers et couvreurs» construíram, do nada, uma cidade inteira. Tornaram-se construtores. «Ils sont devenus bâtisseurs. Communauté de castors, pionniers d’une terre promise sur laquelle édifier.» Só que em francês tem dois níveis de leitura: comunidade de castores, porque, como é sabido, estes simpáticos mamíferos, para se defenderem dos seus predadores, constroem diques nos rios; mas castors também designa o movimento cooperativo de autoconstrução surgido em França no pós-guerra. Traduzimos (não pode haver notas explicativas) por «comunidade de castores», e vale pela metáfora, ou por «comunidade de autoconstrutores», mais adequado ao contexto e à cultura do leitor da língua de chegada?

[Post 3582]

Léxico: «pan-africanismo»

Não compreendo


      Imperdoável: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, talvez mais presente nos lares portugueses do que a Bíblia, não regista «pan-africanismo». Regista pan-americanismo, pan-eslavismo, pan-helenismo, pan-islamismo... Espero que tal não signifique que não acreditam na existência da doutrina ou movimento que busca o desenvolvimento da unidade e da solidariedade entre os países da África. Kwame Nkrumah (1909–1972), presidente do Gana (e antes, no ano da independência, em 1957, primeiro-ministro), teve uma visão totalizadora de África, como grande paladino do pan-africanismo. Pertencia à geração dos políticos africanos com uma preparação intelectual muito acima da média. (A maioria dos chefes de Estado dos 17 países africanos que proclamaram a independência em 1960 eram professores, e os restantes eram médicos, ou economistas, ou advogados. E actualmente?) Outros, como Léopold Sédar Senghor (1906–2001) e Modibo Keita (1915–1977), não foram tão longe, mas fomentaram uma federação, se bem que efémera.

[Post 3581]

Léxico: «nocionista»

Umas noções


      «O sacerdote», lia-se no artigo, «acrescenta que o regime de Pol Pot ocasionou “uma série de tensões sociais” que impedem ainda hoje, a 35 anos de distância, “a unidade” e que o método de ensino de carácter nocionista “não favorece o nascimento de um espírito crítico”.» Nunca vi tal vocábulo em português, e também não está registado em nenhum dicionário geral da língua. Suponho que provém do inglês notionist, muito usado mas também não registado em muitos dicionários. Pergunto-me se o vocábulo nocional (e a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora parece-me clara: «que expressa um conhecimento superficial ou simples»), registado em todos os dicionários, não significará o mesmo. Aqui, afirma-se que o «enfoque nocionista» é «o das definições já prontas, que não fornecem os instrumentos da experiência».

[Post 3580]

Ilhas Britânicas

Um caso


      Estava aqui a ler (vocês não querem saber onde) que Álbion era a «designação antiga das ilhas Britânicas». E no Guia de Estilo do Centro de Informação Europeia Jacques Delors pode ler-se: «Utilizar “Reino Unido” para designar o Estado-Membro e não “Grã-Bretanha” (constituída pela Inglaterra, Escócia e País de Gales). O Reino Unido, para além destas três entidades, inclui também a Irlanda do Norte. O termo puramente geográfico “ilhas Britânicas” compreende também a Irlanda e as dependências da Coroa (ilha de Man e ilhas anglo-normandas que fazem parte do Reino Unido).»
      Habitualmente, entende-se que a locução é um todo; logo, como topónimo que é, com o vocábulo «ilha» a ser grafado com maiúscula inicial. Afinal, não se vai para as *Britânicas como se vai, por exemplo, para as Seicheles ou para as Maurícias. «Concordámos ambos que Scabius era o cabrão mais sortudo da escola, para não dizer das Ilhas Britânicas» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 46). «Foi assim que no Verão de 1977, surpreendentemente, viajei muito (de autocarro) pelas Ilhas Britânicas na minha capacidade de membro do Círculo de Trabalho — Acção de Trabalho do SPK» (idem, ibidem, p. 401).

[Post 3579]

Sápido/insípido

Acento erótico


      Entre nós, sápido é um termo usado quase exclusivamente pelo crítico gastronómico José Quitério. E quem é que, assim de repente, se lembra logo que o antónimo é insípido? Pois é, o mesmo fenómeno fonético ocorre no par sapiente/insipiente (e este a ser confundido, demasiadas vezes, com incipiente). Umas tinturas de latim, e temos logo os poetas a escreverem in-sápido e in-sapiente. Os poetas, convencionou-se, podem escrever como quiserem. Ainda recentemente, o revisor (e também poeta!) Levi Condinho, na tal conversa na Católica, lembrava que Herberto Helder escrevera «cona» com acento circunflexo. Da fama não se livram eles.

[Post 3578]

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