Concordância verbal

Gostos e desgostos


      «O homem que nunca muda de opinião é como água estagnada e gera répteis da mente», William Blake. Mas ainda é cedo para mudar de opinião. Só quero dizer isto (e, estranhamente, os leitores estranham sempre que me pronuncio sobre os meus gostos): detesto a palavra «pedaço» para me referir ao tempo. «Durante um bom pedaço cada um disse e repetiu as loucuras que lhe vinha à mente sem que nada lhe parecesse asneira» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 122). «Valia mais que dissesse alguma coisa de substancial sobre a frase», estarão a murmurar alguns leitores mais exigentes. É para já: o verbo tem de estar no plural: «as loucuras que lhe vinham à mente».

[Post 3577]

Léxico: «puxada»

Outra


      «A eléctrica Escom, que dispensou os seus quadros brancos e deixou de investir na renovação tecnológica, tem agora uma gigantesca campanha contra as “puxadas” de electricidade, que se tornaram praga nacional» («Festa, liberdade e futebol», Filipe Luís, Visão, 27.05.2010, p. 94).
      Mais uma acepção ignorada pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Temos de consultar o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa para a encontrar: «Desvio ou prolongamento de um ponto de fornecimento de água, electricidade, telefone, etc.»
      E nenhum dicionário ainda regista, é um neologismo, o substantivo eléctrica para designar a empresa produtora de energia eléctrica. Ultimamente, a EDP é apresentada como a «eléctrica nacional».

[Post 3576]

Léxico: «tijolo»

E porquê?


      «Lá de fora, chegam-me os acordes da banda de King Jury a tocar o clássico de jazz da township, Emsengeni, através de um “tijolo” rouco com duas colunas incorporadas» («Festa, liberdade e futebol», Filipe Luís, Visão, 27.05.2010, p. 87).
      O vocábulo tijolo, nesta acepção — radiogravador com duas colunas incorporadas, a pilhas, do tamanho de um tijolo — continua ausente dos dicionários gerais da língua. E não sei porquê. Consultemos o respectivo verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Regista um sentido figurado: «livro muito volumoso». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa julga resolver tudo de outra forma: «Infrm. Objecto quadrangular pesado.»

[Post 3575]

Léxico: «badana da tenda»

Acampados


      «A gritaria acordou toda a gente, ressoaram vozes estremunhadas, acenderam-se lanternas aqui e além. A badana da tenda que pertencia à Ísis abriu-se de repelão e perante o grupo atónito surgiu Rosalita» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 56).
      Nunca tinha lido ou ouvido, mas parece-me bem. No plural, badanas são as partes compridas e estreitas que pendem de uma roupa. Logo, por extensão de sentido também pode designar as abas das entradas das tendas de campismo.

[Post 3574]

Léxico: «terruço»

Agora em mirandês


      Ainda Uma Aventura no Egipto. Ema Lagarto, arqueóloga, encontrara nas escavações do Vale das Rainhas, na margem ocidental do rio Nilo, um gato de madeira com aplicações de ouro. Guardara-o no cofre, mas agora tinha sido furtado. Explica agora à filha e às outras pessoas: «— Um gato envolto em terruço, compreendem? Fiquei louca de alegria, trouxe-o aqui para casa, retirei a terra e limpei a peça com mil cuidados» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 58).
      Conhecia «terriço», registado em todos os dicionários e que julgo corresponder exactamente ao mesmo: «Terra formada pela decomposição de substâncias animais e vegetais misturadas com o solo ordinário» (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Terruço, pelo contrário, só vejo registado no Dicionário Mirandês-Português de Amadeu Ferreira e José Pedro Cardona Ferreira: «terruço s. m. (dim. de tierra) Terra de fraca qualidade, nomeadamente aquela que aparece quando se abre uma cova para plantar: al scabar solo me salie a modo un ~ i you lhougo bi que l’oulibeira nun me iba a pegar

[Post 3573]

Tradução: «conducteur de travaux»

A língua no estaleiro


      «Charpentiers, ingénieurs, maçons, conducteurs de travaux, grutiers et couvreurs…» Como traduzir conducteurs de travaux? Responsável de obra? Demasiado amorfo, demasiado neutro. Num texto brasileiro, ao conducteur de travaux fazem corresponder a designação, que a nós não nos diz nada, de «tecnólogo». Para grutier, temos operador de grua e gruista, este ainda não registado nos dicionários gerais da língua. Para couvreur temos também tradução inequívoca: telhador (e a melhor definição é a do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Não é director de obra, porque, em francês, o conducteur de travaux depende daquele. Preparador de obra traduzirá bem o conceito?

[Post 3572]

Actualização em 13.06.2010

      A tradução/sugestão do leitor Francisco é a mais adequada: encarregado de obras. Ver, por exemplo, aqui.



Revisão

Uma grande aventura

      Estou a ler, porque me pediram, a obra Uma Aventura no Egipto, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Tirei algumas notas, como é meu hábito. Vejamos. Os miúdos estão a ser perseguidos por ladrões egípcios, mas Chico resolveu a situação: «Escolhera como alvo as canelas dos inimigos e acertava-lhes em cheio com a ponta da picareta» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 175). Pouco depois, «os homens jaziam por terra agarrados às pernas que sangravam de um furo redondo» (idem, ibidem, p. 175). Deve ser reminiscência dos desenhos animados, este furo redondo causado por uma picaretada. Pouco depois, apareceu a polícia. «O arqueólogo, que já estava pálido, ficou branco como a cal. Não lhe bastava a experiência terrível porque acabara de passar, e ainda vinham agora dizer-lhe que os homens das escavações eram membros de uma quadrilha?» (idem, ibidem, pp. 176-77) «Por que acabara de passar», deveriam ter escrito, e, indo já na 4.ª edição, é imperdoável continuar ali o erro. Enquanto o chefe da polícia tenta esclarecer tudo, ao lado acontece qualquer coisa: «Quanto ao Gaspar, retido na cama por altos febrões, desatara aos vómitos e eles ouviam os arranques aflitivos» (idem, ibidem, p. 178). «Arranques» dir-se-ia do jipe da polícia. Ânsias são arrancos. Lá que seja um livro para miúdos, não implica que se tenha de escrever como os miúdos, mas por vezes acontece: «— A acusação é muito grave — afirmou Mike franzindo o sobrolho. — Portanto agradecia que obrigasse o prisioneiro a indicar o nome da pessoa e apresentar provas de que fala verdade» (idem, ibidem, p. 180). Prisioneiros, só de guerra. E de novo a linguagem onomatopaica dos desenhos animados: «— Sou uma estúpida! Uma idiota instável, uma inconsciente... Snif... Snif...» (idem, ibidem, p. 187). «— Eu sei, eu sei que não procedi bem, mas o efeito passa ao fim de umas horas... não me prendam! Mereço castigo, mas não quero ir para a cadeia. Arranjem outro castigo qualquer, buá!» (idem, ibidem, p. 191). Uma personagem patética causou um desmoronamento... ou terá sido uma avalancha? «— Tive a triste ideia de raspar nas rochas e sem querer provoquei um desmoronamento que vos entaipou no túnel dos nichos!» (idem, ibidem, p. 192). «— Enquanto uns me batiam, os outros foram lá abaixo e viram que não podiam passar para o túnel dos nichos por causa da avalancha» (idem, ibidem, p. 192). A pontuação também claudica: «As pessoas que se espalhavam pela rua, chegaram-se quanto puderam, alguns jornalistas tomavam notas por escrito, outros tentavam captar a conversa de gravador erguido porque aquelas notícias eram sensacionais e tinham muitas pontas por onde pegar» (idem, ibidem, p. 193). «O enigma que tinham tido tanto trabalho para decifrar, era apenas brincadeira de mau gosto de uma chanfrada?» (idem, ibidem, p. 194). E confunde-se substantivos com locuções: «Incluía-se na aventura sem-cerimónia, fazia-se íntimo, sobretudo de Rosalita, a quem procurava consolar do grande desgosto de amor com elogios e promessas» (idem, ibidem, p. 196). Confunde-se a interjeição ó, reservada para uma função de invocação, da interjeição oh, que, mesmo junto de um nome, traduz sempre surpresa, desejo, repugnância, tristeza, dor, repreensão: «— Ó Chico!» (idem, ibidem, p. 198). Cada um sabe de si, mas eu não usaria o açorianismo (termo desconhecido do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora!) «toleira» (e corrigia a pontuação e tirava as aspas de «inchado» e...): «De coração leve, conversavam, riam, diziam, toleiras, um pouco “inchados” ainda por causa da aventura e do sucesso, felizes por estarem ali, radiantes por poderem gozar mais uns dias de férias que forçosamente seriam excitantes, pois as propostas eram mais que muitas» (idem, ibidem, p. 199). E agora chega, que tenho de ir tomar o pequeno-almoço.

[Post 3571]

Ainda sobre «solicitor»

Bem arreigado


      Cartas na Mesa, o episódio de anteontem de Poirot na RTP Memória. O major Despard vai visitar Anne Meredith a Wendon Cottage, Wallingford. Diz o major à frágil Anne: «Tomei a liberdade de mencionar o seu nome ao meu solicitador.» Quer dizer, a tradutora, Mafalda Eliseu, é que o faz dizer isto, porque no original o que se ouve é solicitor, isto é, advogado. Escassos minutos depois, que a visita foi curta, Despard ainda afirma: «If so you are perfectly within your rights in refusing to answer any questions Battle may ask unless your solicitor is present.» Mas na tradução: «Se assim for, está no seu direito recusar responder a qualquer pergunta sem ser na presença do seu solicitador.» Para que é que Anne Meredith ia precisar de um solicitador quando fosse ser interrogada pela polícia? A tradutora não pensou nisso.

[Post 3570]

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