Sobre «pop-up book»

Saltam à vista


      Estou a traduzir um livro especial. Um desses livros-objecto que servem tanto para ler como para ver. Apenas contemplar. Melhor: o que os Ingleses chamam pop-up book. Tradução? Bem, só se for de book, porque quanto a pop-up... Neste blogue, leio que *livros objecto são «livros que ao abrirem se desdobram e apresentam sucessivamente imagens em relevo narrando uma história ou várias situações». Contudo, quando penso em livros-objecto, a imagem mental não é necessariamente a de um pop-up. E vocês? É um termo intraduzível, parece-me. No caso da minha tradução, ainda por cima, há um jogo de palavras com o próprio título e o conceito.

[Post 3569]

Selecção vocabular

A palavra anelada


      «Sentei-me a uma das longas mesas comuns da biblioteca. Puxei para mim o fio anelado do candeeiro de mesa» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 66).
      Gosto do adjectivo escolhido: anelado. Semelhante a anel; que se apresenta em anéis. Qual a alternativa? «Encaracolado»?
      E a propósito de biblioteca e de candeeiro, outro termo bem adequado: «Norman Wyngold estava sentado numa poltrona de couro, junto dum candeeiro de leitura» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 41).

[Post 3568]

Termos do direito

Revisão jurídica


      Há erros que vêm desde que se traduz e a que não escapam nem os melhores tradutores, pelo menos no início da sua actividade. Norman Wyngold é banqueiro. Fernanda Pinto Rodrigues não tem dúvidas sobre o começo de vida do magnata: «Começara a sua vida como solicitador e, por isso, o aposento estava cheio de volumes tratando de assuntos legais» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 21). Solicitor, ou seja, advogado. E mais à frente: «— Meu amor, mas eu conto-te tudo... tudo quanto sei — prometeu Lady Varleigh, lutando com certa relutância. — Quando aqui cheguei já sabia que qualquer coisa não corria bem, pois Sir Philip ouvira certos rumores acerca do Banco. Alguém espalhara que não estava solvente... mas agora soubemos o pior: o Banco de teu pai fechou esta tarde e... aqueles homens... vinham com um... mandato de captura!» (idem, ibidem, p. 91). E para terminar ainda com uma questão relativa ao direito, um termo rarissimamente usado: «— Temo que seja essa a situação exacta — concordou o legista, fazendo uma vénia profunda. — Por outro lado, o dinheiro que passou para seu nome no dia da sua maioridade é, suponho, claramente seu, embora deva haver qualquer coisa com os direitos de transmissão. Esse dinheiro estava separado de todo o resto e não tinha relação alguma... bem... não tinha relação alguma com as infelizes transacções recentes» (idem, ibidem, p. 119).

[Post 3567]

Tradução: «checkup»

Doctor, doctor


      «— Talvez deva ir ao doutor para um exame geral» (Este Homem e Esta Mulher, James T. Farrell. Tradução de Tomaz Ribas e revisão de Correia de Pinho. Lisboa: Círculo de Leitores, 1974, p. 56).
      Exame geral para traduzir checkup (ou check-up, segundo alguns dicionários) é perfeito. O Dicionário Houaiss regista o aportuguesamento checape. O que é espantoso é que se continue a usar o anglicismo.
      Doutor por médico deve ter sido deslize do tradutor. Afinal, Tomaz Emídio Leopoldo de Carvalho Cavalcanti de Albuquerque Schiappa Pectra Sousa Ribas (1918―1999) era alentejano. No Brasil, sim, é vulgar, pelo menos na boca do povo, tratar-se o médico por doutor.

[Post 3566]

«Aquando de»

Eu evito


      «Também se lembrava do choque sofrido aquando da morte da mãe» (Este Homem e Esta Mulher, James T. Farrell. Tradução de Tomaz Ribas e revisão de Correia de Pinho. Lisboa: Círculo de Leitores, 1974, p. 51).
      Aquando de é uma locução prepositiva de que já aqui falámos. Apesar de usada por alguns, poucos, escritores, e de estar registada no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, sempre que posso evito-a.

[Post 3565]

Acordo Ortográfico

Uns esperam, outros avançam


      Outubro de 1974. A reforma ortográfica de 1973 («Artigo único. São eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente e com os sufixos iniciados por z.») está quase a fazer dois anos. É publicada, pelo Círculo de Leitores, a tradução (de Tomaz Ribas e revisão de Correia de Pinho) de This man and this woman, de James Thomas Farrell (1904–1979). Dois excertos: «Walt estava confortàvelmente sentado numa cadeira, acalmado pela música do aparelho de rádio» (p. 15). «Entregava-se-lhe com tanta atenção que era quase como se não estivesse ali, sentado na sala, mas sòzinho em qualquer outro lugar» (p. 21). E assim em toda a obra, e a reforma ortográfica fora mínima. Imagine-se agora com o Acordo Ortográfico de 1990. Hoje o grupo editorial Impresa começa a aplicar o acordo ortográfico, mesmo sem vocabulário comum, ao passo que o Estado vai esperar.

[Post 3564]

Sobre preposições

Não sobre, mas no


      «Então notei que ela — o simulacro — tinha rugas finas sobre o rosto. Pequenos pés-de-galinha, e não apenas quando sorria, uma vez que eu os estava a distinguir sem ela sorrir» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 47).
      Embora sobre também signifique «ao longo de; na superfície de», não é a preposição que esperamos ver no contexto. Se fosse uma teia de aranha, sim, poderia estar sobre o rosto. Rugas, pés-de-galinha, estarão no (em + o) rosto. Não me interessa saber como está no original.

[Post 3563]

Ortografia: «noz-pecã»

Ainda não chegou cá


      «Talvez estivesse a descascar nozes-pecãs» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 46).
      O Dicionário Houaiss regista noz-da-índia, noz-de-areca, noz-de-bancul, noz-de-cola, noz-do-pará, noz-moscada, noz-moscada-do-brasil e noz-vómica. Não regista noz-pecã (que, por analogia, assim se deve grafar), e compreende-se porquê: é o fruto de uma árvore (Carya illinoinensis) que existe apenas em certas áreas dos Estados Unidos da América e no México. Em inglês diz-se pecan. O Diccionario de la Real Academia Española regista pacana e dá como étimo um vocábulo nauatle, e em português há alguns vocábulos provenientes desta língua: abacate, cacau, chocolate, tomate, xícara, etc. Em uso no espanhol, porém, há mais variantes: nuez (de) pecana, nuez pacana, nuez pecán e nuez de la isla.

[Post 3562]

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