Léxico: «advocacionalmente»

Tinha de ser


      «Se o objectivo fosse aconselhar de modo advocacionalmente persuasivo, uma dose muito pequena de troça teria sido mais eficaz» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 95).
      Não temos o adjectivo «advocacional» nem, naturalmente, o advérbio «advocacionalmente» — mas traduzir também é inventar. Haveria alternativa a este «advocacionalmente»? Não estou a ver.

[Post 3531]

Actualização em 2.06.2010

      Paulo Araujo encontrou uma abonação para o advérbio «advocacionalmente»: no tomo XXII do Boletim de Filologia e pela mão de, nada menos, Pedro Cunha Serra (1919–2002), o grande estudioso da toponímia portuguesa, que, numa recensão da obra Arabic, the source of all the language (Lahore, 1963), de Muhammad Ahmad Mazhar, escreveu: «O Autor do presente trabalho, investigador, poeta e advogado, mostra-se totalmente impreparado para estudos com carácter científico. […] E assim, muito advocacionalmente, se elimina aquela discutível tese da unidade de origem de línguas semíticas e indo-europeias que apenas verifica ou pretende verificar uma relação de parentesco, sem estabelecer qualquer hierarquia ou linhagem.»



Tradução: «destigmatized»

Desaprovado


      «É capaz de pensar como muitas mulheres têm pensado desde que o acto de gerar um bastardo foi destigmatizado por Jim Morrison e pelos Doors» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 92).
      Pois é, mas com o prefixo des-, teríamos desestigmatizado, ou não? Estabilizado/desestabilizado; estatizado/desestatizado; estruturado/desestruturado... A tradução de Fernanda Pinto Rodrigues está servil e desnecessariamente próxima do inglês destigmatized.

[Post 3530]

Tradução: «racoon»

Racum com espaguete


      «Os problemas com Les Farley começaram mais tarde, nessa noite, quando Coleman ouviu qualquer coisa mexer nos arbustos, no exterior, achou que não se tratava de um gamo ou de um racoon, levantou-se da mesa da cozinha onde ele e Faunia tinham acabado de comer o espaguete do jantar e, da porta da cozinha e à meia-luz estival do anoitecer, distinguiu um homem a correr pelo campo das traseiras da casa, na direcção da casa» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 65).
      Fernanda Pinto Rodrigues não é dessas tradutoras fundamentalistas que levam tudo a eito, sem concessões a estrangeirismos, mas, neste caso, não compreendo porque não traduziu racoon. Sempre o vi traduzido por «guaxinim» (Procyon lotor). O Dicionário Houaiss regista o aportuguesamento racum. O problema com a tradução de nomes de animais é muito simples: muitas vezes, por não se ter identificado bem o nome científico, a tradução está errada.
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista espaguete (único aportuguesamento, foneticamente mais próximo do étimo, usado pelos Brasileiros), que eu nunca usei nem usarei.

[Post 3529]

Dano-islandês

Eis um exemplo


      «Fosse o que fosse, seria visível para ela em virtude de ser uma loura dano-islandesa descendente de uma longa linhagem de islandeses e dinamarqueses louros, criada num meio escandinavo em casa, na escola, na igreja, toda a sua vida na companhia apenas de...» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 128).
      Já aqui tínhamos visto um leitor a perguntar qual se devia escrever dano-chinesa ou dinamarco-chinesa.

[Post 3528]

Léxico: «adrenalínico»

Pode dar jeito


      «O adrenalínico Aquiles, o mais altamente inflamável dos explosivos homens violentos que escritor algum jamais teve o prazer de retratar, sobretudo quando estão em causa o seu prestígio e o seu apetite; a máquina de matar mais hipersensível da história da guerra» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 17).
      É daqueles aportuguesamentos quase inevitáveis e que não descaracterizam a língua.

[Post 3527]

«Amassar fortuna»?

Falso amigo


      O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, já passou aqui por este blogue e nunca por boas razões. Ontem vimo-lo na televisão a defender que «é preciso romper este círculo vicioso» de alternância PS-PSD. E mais: «Enquanto continuar este rotativismo entre PS e PSD, com a bengala do CDS, a banca e os heróis do PSI20 continuarão a encher os bolsos e a amassar fortunas à custa do povo e do país», lamentou o líder comunista.
      Já o tinha ouvido mais de uma vez falar dos que «amassam fortunas», mas distraí-me sempre e não disse aqui nada. De hoje não passa: amassar fortunas não é português, e só estranho que ninguém tenha advertido o líder. (Caro Ruben de Carvalho, dê uma palavrinha a Jerónimo de Sousa.) Amasar fortuna (ou bienes) é espanhol e significa reunir, acumular fortuna (ou bens).

[Post 3526]

A Haia/Haia

Norma e desvio


      Consigo demonstrar, de uma penada, que ninguém (o que inclui, naturalmente, a leitora Virgínia Joaquim) escreve sempre sem desvio da norma. Ora vejamos só com um exemplo. Quem é que hoje em dia usa a forma «dize» do imperativo? Apenas crianças (a minha filha, com 3 anos, fá-lo) e estrangeiros que estejam a aprender a língua portuguesa. Ora, o que justifica que se tenha abandonado totalmente — há muito que as gramáticas não referem sequer estas formas, faze, dize, etc. — esta grafia? Foi publicada alguma lei a determiná-lo? Algo com a força, em certas circunstâncias, da lei: o uso. Houve, há quase sempre, uma fase intermédia: perante o uso avassalador das novas formas, as gramáticas registavam as duas variantes. Posteriormente, deixaram de registar as formas antigas.
      Por vezes, pergunto-me o que entenderão os falantes, mesmo alguns que por aqui andam a deixar comentários que advogam o relativismo linguístico, por norma. Se há língua, há norma — e há sempre norma, mesmo com a evolução da língua. É sintomático que um autor criterioso como José Manuel de Castro Pinto não anteponha o artigo ao topónimo Haia. Nem, já agora, ao topónimo Havana. Por acaso, acho totalmente improcedente o argumento de que noutras línguas tem artigo. Por outro lado, e para terminar, o artigo nos topónimos Porto e Haia nunca foram usados da mesma forma, são casos diferentes.

[Post 3525]

Léxico: «sexador»

Sexador de cloaca


      «Não conhecia a profissão nem o termo», escreve-me o leitor Paulo Araujo, «mas deu ontem no Estadão; consta em Houaiss e em Aurélio; o Aulete tem ‘sexagem’, a atividade.» Eu também não conhecia. E estou fascinado. Lê-se no Dicionário Houaiss: «que ou quem executa a classificação e separação dos pintos por sexo, utilizando os métodos de exame das características da cloaca ou da tonalidade e conformação das asas, para destiná-los à postura ou ao corte». Em Portugal há-de existir também a profissão, mas não o nome. No Brasil, é profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

[Post 3524]

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