Tradução: «racoon»

Racum com espaguete


      «Os problemas com Les Farley começaram mais tarde, nessa noite, quando Coleman ouviu qualquer coisa mexer nos arbustos, no exterior, achou que não se tratava de um gamo ou de um racoon, levantou-se da mesa da cozinha onde ele e Faunia tinham acabado de comer o espaguete do jantar e, da porta da cozinha e à meia-luz estival do anoitecer, distinguiu um homem a correr pelo campo das traseiras da casa, na direcção da casa» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 65).
      Fernanda Pinto Rodrigues não é dessas tradutoras fundamentalistas que levam tudo a eito, sem concessões a estrangeirismos, mas, neste caso, não compreendo porque não traduziu racoon. Sempre o vi traduzido por «guaxinim» (Procyon lotor). O Dicionário Houaiss regista o aportuguesamento racum. O problema com a tradução de nomes de animais é muito simples: muitas vezes, por não se ter identificado bem o nome científico, a tradução está errada.
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista espaguete (único aportuguesamento, foneticamente mais próximo do étimo, usado pelos Brasileiros), que eu nunca usei nem usarei.

[Post 3529]

Dano-islandês

Eis um exemplo


      «Fosse o que fosse, seria visível para ela em virtude de ser uma loura dano-islandesa descendente de uma longa linhagem de islandeses e dinamarqueses louros, criada num meio escandinavo em casa, na escola, na igreja, toda a sua vida na companhia apenas de...» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 128).
      Já aqui tínhamos visto um leitor a perguntar qual se devia escrever dano-chinesa ou dinamarco-chinesa.

[Post 3528]

Léxico: «adrenalínico»

Pode dar jeito


      «O adrenalínico Aquiles, o mais altamente inflamável dos explosivos homens violentos que escritor algum jamais teve o prazer de retratar, sobretudo quando estão em causa o seu prestígio e o seu apetite; a máquina de matar mais hipersensível da história da guerra» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 17).
      É daqueles aportuguesamentos quase inevitáveis e que não descaracterizam a língua.

[Post 3527]

«Amassar fortuna»?

Falso amigo


      O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, já passou aqui por este blogue e nunca por boas razões. Ontem vimo-lo na televisão a defender que «é preciso romper este círculo vicioso» de alternância PS-PSD. E mais: «Enquanto continuar este rotativismo entre PS e PSD, com a bengala do CDS, a banca e os heróis do PSI20 continuarão a encher os bolsos e a amassar fortunas à custa do povo e do país», lamentou o líder comunista.
      Já o tinha ouvido mais de uma vez falar dos que «amassam fortunas», mas distraí-me sempre e não disse aqui nada. De hoje não passa: amassar fortunas não é português, e só estranho que ninguém tenha advertido o líder. (Caro Ruben de Carvalho, dê uma palavrinha a Jerónimo de Sousa.) Amasar fortuna (ou bienes) é espanhol e significa reunir, acumular fortuna (ou bens).

[Post 3526]

A Haia/Haia

Norma e desvio


      Consigo demonstrar, de uma penada, que ninguém (o que inclui, naturalmente, a leitora Virgínia Joaquim) escreve sempre sem desvio da norma. Ora vejamos só com um exemplo. Quem é que hoje em dia usa a forma «dize» do imperativo? Apenas crianças (a minha filha, com 3 anos, fá-lo) e estrangeiros que estejam a aprender a língua portuguesa. Ora, o que justifica que se tenha abandonado totalmente — há muito que as gramáticas não referem sequer estas formas, faze, dize, etc. — esta grafia? Foi publicada alguma lei a determiná-lo? Algo com a força, em certas circunstâncias, da lei: o uso. Houve, há quase sempre, uma fase intermédia: perante o uso avassalador das novas formas, as gramáticas registavam as duas variantes. Posteriormente, deixaram de registar as formas antigas.
      Por vezes, pergunto-me o que entenderão os falantes, mesmo alguns que por aqui andam a deixar comentários que advogam o relativismo linguístico, por norma. Se há língua, há norma — e há sempre norma, mesmo com a evolução da língua. É sintomático que um autor criterioso como José Manuel de Castro Pinto não anteponha o artigo ao topónimo Haia. Nem, já agora, ao topónimo Havana. Por acaso, acho totalmente improcedente o argumento de que noutras línguas tem artigo. Por outro lado, e para terminar, o artigo nos topónimos Porto e Haia nunca foram usados da mesma forma, são casos diferentes.

[Post 3525]

Léxico: «sexador»

Sexador de cloaca


      «Não conhecia a profissão nem o termo», escreve-me o leitor Paulo Araujo, «mas deu ontem no Estadão; consta em Houaiss e em Aurélio; o Aulete tem ‘sexagem’, a atividade.» Eu também não conhecia. E estou fascinado. Lê-se no Dicionário Houaiss: «que ou quem executa a classificação e separação dos pintos por sexo, utilizando os métodos de exame das características da cloaca ou da tonalidade e conformação das asas, para destiná-los à postura ou ao corte». Em Portugal há-de existir também a profissão, mas não o nome. No Brasil, é profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

[Post 3524]

Tradução

Sobremodo obscuro


      «Os sons de fundo ecoavam na cabeça de Hannibal. O chilreio, o dialéctico Báltico da sombria» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 244).
      Eu explico o contexto para ajudar o leitor. Vladis Grutas, um dos sequestradores de lady Murasaki, telefona a Hannibal Lecter e diz-lhe que a tem e faz-lhe uma proposta. Grutas é dono do Café de L’Est, um restaurante que tem à porta uma gaiola de sombrias (Anthus lutescens), donde telefona. Depois do telefonema, Hannibal senta-se na cama a pensar e o que lhe vem à mente é aquele chilreio, o dialecto báltico da sombria. Agora digam-me: quantos serão os leitores que conseguem ultrapassar a barreira de erros até à compreensão da frase? Já percebemos porque é que «báltico» está indevidamente grafado com maiúscula inicial. O pior, contudo, é que poucos dicionários registam «dialéctico» como sinónimo de «dialectal» — e também percebemos porquê. Como é que uma frase mais que arrevesada como esta não chama a atenção da revisora?

[Post 3523]

«Sobremaneira»

Sobremodo irritante


      «O Dr. Dumas, cuja alegria constante irritava de sobremaneira Popil, entregou uma opinião entusiástica de Hannibal e explicou que o Centro Médico Johns Hopkins em Baltimore, na América, lhe estava a oferecer um estágio, após examinar as suas ilustrações para o novo manual de anatomia» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 262).
      Também a mim me irrita sobremaneira este erro, só visível, como todos, para quem sabe que o é, de antepor a preposição «de» ao advérbio «sobremaneira». Para quê? A revisora, que não viu nem reviu, achou naturalíssimo.

[Post 3522]

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