A Haia/Haia

Norma e desvio


      Consigo demonstrar, de uma penada, que ninguém (o que inclui, naturalmente, a leitora Virgínia Joaquim) escreve sempre sem desvio da norma. Ora vejamos só com um exemplo. Quem é que hoje em dia usa a forma «dize» do imperativo? Apenas crianças (a minha filha, com 3 anos, fá-lo) e estrangeiros que estejam a aprender a língua portuguesa. Ora, o que justifica que se tenha abandonado totalmente — há muito que as gramáticas não referem sequer estas formas, faze, dize, etc. — esta grafia? Foi publicada alguma lei a determiná-lo? Algo com a força, em certas circunstâncias, da lei: o uso. Houve, há quase sempre, uma fase intermédia: perante o uso avassalador das novas formas, as gramáticas registavam as duas variantes. Posteriormente, deixaram de registar as formas antigas.
      Por vezes, pergunto-me o que entenderão os falantes, mesmo alguns que por aqui andam a deixar comentários que advogam o relativismo linguístico, por norma. Se há língua, há norma — e há sempre norma, mesmo com a evolução da língua. É sintomático que um autor criterioso como José Manuel de Castro Pinto não anteponha o artigo ao topónimo Haia. Nem, já agora, ao topónimo Havana. Por acaso, acho totalmente improcedente o argumento de que noutras línguas tem artigo. Por outro lado, e para terminar, o artigo nos topónimos Porto e Haia nunca foram usados da mesma forma, são casos diferentes.

[Post 3525]

Léxico: «sexador»

Sexador de cloaca


      «Não conhecia a profissão nem o termo», escreve-me o leitor Paulo Araujo, «mas deu ontem no Estadão; consta em Houaiss e em Aurélio; o Aulete tem ‘sexagem’, a atividade.» Eu também não conhecia. E estou fascinado. Lê-se no Dicionário Houaiss: «que ou quem executa a classificação e separação dos pintos por sexo, utilizando os métodos de exame das características da cloaca ou da tonalidade e conformação das asas, para destiná-los à postura ou ao corte». Em Portugal há-de existir também a profissão, mas não o nome. No Brasil, é profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

[Post 3524]

Tradução

Sobremodo obscuro


      «Os sons de fundo ecoavam na cabeça de Hannibal. O chilreio, o dialéctico Báltico da sombria» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 244).
      Eu explico o contexto para ajudar o leitor. Vladis Grutas, um dos sequestradores de lady Murasaki, telefona a Hannibal Lecter e diz-lhe que a tem e faz-lhe uma proposta. Grutas é dono do Café de L’Est, um restaurante que tem à porta uma gaiola de sombrias (Anthus lutescens), donde telefona. Depois do telefonema, Hannibal senta-se na cama a pensar e o que lhe vem à mente é aquele chilreio, o dialecto báltico da sombria. Agora digam-me: quantos serão os leitores que conseguem ultrapassar a barreira de erros até à compreensão da frase? Já percebemos porque é que «báltico» está indevidamente grafado com maiúscula inicial. O pior, contudo, é que poucos dicionários registam «dialéctico» como sinónimo de «dialectal» — e também percebemos porquê. Como é que uma frase mais que arrevesada como esta não chama a atenção da revisora?

[Post 3523]

«Sobremaneira»

Sobremodo irritante


      «O Dr. Dumas, cuja alegria constante irritava de sobremaneira Popil, entregou uma opinião entusiástica de Hannibal e explicou que o Centro Médico Johns Hopkins em Baltimore, na América, lhe estava a oferecer um estágio, após examinar as suas ilustrações para o novo manual de anatomia» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 262).
      Também a mim me irrita sobremaneira este erro, só visível, como todos, para quem sabe que o é, de antepor a preposição «de» ao advérbio «sobremaneira». Para quê? A revisora, que não viu nem reviu, achou naturalíssimo.

[Post 3522]

Léxico: «defensa»

Protegem


      «Na popa, Gassmann tirou as defensas para fora e preparou o cabo» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 253).
      As defensas são almofadas de sola ou de corda de forma cilíndrica, penduradas à altura do verdugo, para protecção do costado de uma embarcação durante as atracações. Nem sempre são tão luxuosas como a da imagem: já todos vimos defensas feitas de pneus velhos.

[Post 3521]

Género: «mantra»

Má decisão


      «Pôs o pé no primeiro degrau e resmungou entre dentes: “A quinta que se foda.” Tinha sido a sua mantra quando entrava em acção desde que fugira de casa aos doze anos de idade» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 218).
      Não conheço nenhum dicionário que atribua o género feminino à palavra «mantra». Tradutora e revisora deviam ter tido o cuidado de consultar pelo menos um dicionário. Afinal, não é palavra que se use todos os dias.

[Post 3520]

Topónimos

Den Haag, então


      «— Podia fazê-lo em seu nome de acordo com a Convenção de Hague de 1907, permita-me que lhe explique...
      — Sim, de acordo com o Artigo Quarenta e Seis, já conversámos sobre isso — disse Hannibal, olhando para Lady Murasaki e lambendo os lábios para parecer ávido» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 130).
      É espantoso como a tradutora não atinou com a versão portuguesa do topónimo. Então não é Haia? Nunca ouviu falar das célebres Convenções de Haia? Esta de 1907 chama-se, oficialmente, Convenção sobre a Resolução Pacífica de Controvérsias Internacionais. Hague, Copenhague...

[Post 3519]

Sobre «foxing»


Castanho-raposa


      «A tela estava manchada num pequeno padrão de pintinhas castanhas no canto superior esquerdo. Quando era pequeno, tinha ouvido os pais dizerem que as manchas eram foxing e tinha passado vários minutos a olhar para elas, tentando descobrir a imagem de uma raposa ou da impressão de uma pata de raposa» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 122).
      Não temos em português uma palavra que traduza, especificamente, foxing. Temos de recorrer à palavra «mancha». A tradutora viu-se obrigada a redigir uma nota de rodapé: «Trocadilho com o significado de fox (raposa) e o significado de foxing (manchas amarelas ou castanhas que se manifestam no papel ou na tela). (N. da T.)» (idem, ibidem, p. 122). Trocadilho, está bem, mas a designação não é inteiramente arbitrária: dá-se este nome às manchas na tela e no papel porque o castanho é semelhante à cor das raposas. E quem percebe mais de raposas do que os Ingleses?

[Post 3518]

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