Léxico: «defensa»

Protegem


      «Na popa, Gassmann tirou as defensas para fora e preparou o cabo» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 253).
      As defensas são almofadas de sola ou de corda de forma cilíndrica, penduradas à altura do verdugo, para protecção do costado de uma embarcação durante as atracações. Nem sempre são tão luxuosas como a da imagem: já todos vimos defensas feitas de pneus velhos.

[Post 3521]

Género: «mantra»

Má decisão


      «Pôs o pé no primeiro degrau e resmungou entre dentes: “A quinta que se foda.” Tinha sido a sua mantra quando entrava em acção desde que fugira de casa aos doze anos de idade» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 218).
      Não conheço nenhum dicionário que atribua o género feminino à palavra «mantra». Tradutora e revisora deviam ter tido o cuidado de consultar pelo menos um dicionário. Afinal, não é palavra que se use todos os dias.

[Post 3520]

Topónimos

Den Haag, então


      «— Podia fazê-lo em seu nome de acordo com a Convenção de Hague de 1907, permita-me que lhe explique...
      — Sim, de acordo com o Artigo Quarenta e Seis, já conversámos sobre isso — disse Hannibal, olhando para Lady Murasaki e lambendo os lábios para parecer ávido» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 130).
      É espantoso como a tradutora não atinou com a versão portuguesa do topónimo. Então não é Haia? Nunca ouviu falar das célebres Convenções de Haia? Esta de 1907 chama-se, oficialmente, Convenção sobre a Resolução Pacífica de Controvérsias Internacionais. Hague, Copenhague...

[Post 3519]

Sobre «foxing»


Castanho-raposa


      «A tela estava manchada num pequeno padrão de pintinhas castanhas no canto superior esquerdo. Quando era pequeno, tinha ouvido os pais dizerem que as manchas eram foxing e tinha passado vários minutos a olhar para elas, tentando descobrir a imagem de uma raposa ou da impressão de uma pata de raposa» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 122).
      Não temos em português uma palavra que traduza, especificamente, foxing. Temos de recorrer à palavra «mancha». A tradutora viu-se obrigada a redigir uma nota de rodapé: «Trocadilho com o significado de fox (raposa) e o significado de foxing (manchas amarelas ou castanhas que se manifestam no papel ou na tela). (N. da T.)» (idem, ibidem, p. 122). Trocadilho, está bem, mas a designação não é inteiramente arbitrária: dá-se este nome às manchas na tela e no papel porque o castanho é semelhante à cor das raposas. E quem percebe mais de raposas do que os Ingleses?

[Post 3518]

Pronúncia: «nogado»


A escorrer mel


      «O tocador de realejo e o seu macaco, libertados depois do pequeno-almoço das suas instalações frequentes na prisão, arranhavam incansavelmente Sous Les Ponts de Paris até que alguém lhes ofereceu um copo de vinho e um bocado de nogado de amendoim, respectivamente» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 83).
      Não se trata de um erro de tradução — ou, pelo menos, não é isso que me preocupa agora, embora quando um inglês pensa em nougat não veja o mesmo que eu quando penso em nogado. Quando leio ou ouço a palavra, vem-me sempre à mente os nogados, brilhantes da calda de mel em que eram mergulhados, que a minha tia Joana fazia, iguaizinhos aos da imagem (tirada daqui). Todos os dicionários registam «nogado», mas durante quase toda a vida ouvi /nógado/, talvez, considero agora, por influência do espanhol nuégado.

[Post 3517]

Tradução: «mantelpiece»

Evite-se o eco


      «Um relógio pintado com os signos do Zodíaco e querubins fazia tiquetaque na prateleira da lareira» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 75). Já aqui tínhamos visto qual a melhor tradução do vocábulo inglês mantelpiece. «Prateleira da lareira» tem, é óbvio, um problema: o eco eira/eira. Melhor será, então, lintel da lareira.

[Post 3516]

Léxico: «oliveiral»


No Brasil


      Ontem à tarde fui à Gare do Oriente despedir-me de um amigo que ia viajar no Sud Express. Num dos elevadores, um brasileiro perguntou-nos em que linha parava o comboio que ia para a Guarda. Depois de lhe termos dado a informação que pretendia, perguntámos-lhe o que fazia. Acabara de vir da Moita com o patrão, localidade onde andara, sobretudo com indianos, na apanha de morangos. Ia agora para Viseu, trabalhar em «oliveirais». Nunca tinha ouvido a palavra «oliveiral», porventura mais usada no Brasil.

[Post 3515]

Advérbios de interrogação

José Maria Relvas sabia


      Comprei, ontem de manhã, na Feira das Oportunidades, organizada pela Paróquia do Campo Grande, por 50 cêntimos, um exemplar da 29.ª edição da Gramática Portuguesa de José Maria Relvas (Porto: Machado & Ribeiro, Limitada). O revisor antibrasileiro de vez em quando falava (e com que orgulho!) desta gramática, pela qual, dizia, tinha estudado. Na página 167, sobre os advérbios, lá está: «Advérbios de interrogação — como? onde? quando? porque? qual?» Daí o encarniçamento dele quando via por que quando devia estar porque. Nas décadas que se seguiram à publicação desta gramática, pela qual aprenderam várias gerações, a maioria das gramáticas evitou incluir entre os advérbios interrogativos o «porque», lançando um véu de ignorância para cima dos leitores. Ainda recentemente, a tradutora Helena Pitta me pedia, numa mensagem de correio electrónico, que desse o meu contributo para esta questão. A verdade é que nunca evitei esclarecer, neste blogue, na formação que dou e mesmo em publicações, esta (inexplicavelmente) controversa questão.

[Post 3514]

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