«Sir», «lady», etc.

Falemos de Krishna Bhanji


      Ao que parece, Ben Kingsley exige que o título sir apareça em tudo o que lhe diga respeito: anúncios, cartazes, créditos dos filmes. A estragar um pouco a festa (e talvez o sonho de infância) está o facto de se chamar, de facto, Krishna Bhanji. Mas estou a desviar-me um pouco... Ao inspeccionar breve mas atentamente a sala da sua casa de campo, Poirot dirige a atenção para o lintel da lareira, onde vê um sobrescrito. Vira-se para a Sra. Sims, que lhe trata da casa, e diz-lhe que não esperava receber correio naquela morada. «Foi a dama Angkatell. Vive lá em cima, na Hollow.» Na realidade, esta «dama» é sempre lady no original. Na tradução, de João Domingos (Crime na Mansão Hollow, RTP Memória, 27.5.2010), ora é «dama», ora «Sra.», ora «Madame». O marido, sir Angkatell, é sempre o «Sr. Angkatell». No caso, porém, não seria a mera forma respeitosa de tratamento, pois Henry Angkatell tinha sido alto-comissário em Bagdade, onde privara com Poirot.

[Post 3513]

Pronúncia: «cromossoma»

Zoma e segue


      Na emissão de ontem do programa Dias do Avesso, o psicólogo Eduardo Sá usou a palavra «cromossoma», mas pronunciou-a como se tivesse apenas um s: /cromozoma/. «Não, a tristeza não é uma espécie de cromossoma que nós andamos aqui a trabalhar todos, porque, de facto, se calhar, foi enganador foi esta ideia de que nós, enfim, lá nos encantámos com o fado.» Pode ter sido, mas não creio, lapso, mas a verdade é que já por diversas vezes ouvi o mesmo erro.

[Post 3512]

Sobre «psicodrama»

Mais que duvidoso


      Estamos no início de 1919. Azevedo Neves, director da Morgue de Lisboa desde 1911, está a conversar com Asdrúbal d’Aguiar sobre o homicídio de Sidónio Pais. «— Todo este psicodrama é uma trágica metáfora da justiça. Aconteceu em França com o caso Dreyfuss e, agora, de maneira mais intensa, acontece em Portugal» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 235).
      Só em 21 de Abril de 1921 se realizou a primeira sessão pública de psicodrama, no Komödienhaus, em Viena de Áustria. O criador do psicodrama, e quem cunhou o termo, foi o psiquiatra e psicossociólogo vienense Jacob L. Moreno. Mesmo supondo, e talvez não seja supor mal, pois Azevedo Neves especializara-se com Virchow e Von Hansermann em Berlim no início do século e conheceria provavelmente a língua alemã, que conhecia o trabalho de Jacob L. Moreno, não é muito provável que usasse o termo. De resto, embora envolto numa certa imprecisão, algumas fontes indicam o ano de 1922 como a data em que o termo foi criado. Tudo leva a crer, pois, que é mais um anacronismo neste romance histórico.
      Ah, sim: escreve-se Dreyfus e não Dreyfuss. Os adjectivos derivados do nome Dreyfus são dreyfusista e antidreyfusista.

[Post 3511]

Uso das aspas

Para rir


      «Alguns dias depois, estava a examinar um dos sinistrados do descarrilamento de um “americano” quando um servente o interrompeu» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 135).
      A regra, para quem usa as aspas nestas circunstâncias, parece ser a de que, a partir da primeira acepção de qualquer vocábulo, se tem de grafar sempre os vocábulos entre aspas. Neste caso, as aspas em «americano» (carro que se desloca sobre carris de ferro, movido por tracção animal ou eléctrica) são como que os pára-choques do veículo. (Mas se estivermos a reproduzir um diálogo de dois bêbados que falam dos pára-choques de uma mulher, já se tem de usar as aspas.) É assim? Não sejam ridículos.

[Post 3510]

Centavo/cêntimo/centésimo

Era escusado


      «Marcinkus tenta demarcar-se e assegura, em 1975, que “o Vaticano não perdeu um centésimo”» (Vaticano S. A., Gianluigi Nuzzi. Tradução de Ricardo Sequeira. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 23).
      Vamos lá: eu sei perfeitamente que o vocábulo italiano centesimo se pode traduzir por «centésimo» (unidade em que se dividem algumas moedas) — mas quem é que o usa para se referir a uma moeda? Tivemos centavos e agora temos cêntimos (e, sobre a questão, ler este texto de Miguel R. M.); centésimo não deixará de causar alguma estranheza.

[Post 3509]

«Extracto»/«estrato»

Outra vez não


      Uns escrevem «extracto social», outros escrevem «estrato bancário». Há de tudo, neste mundo. «Um interminável arquivo de documentos confidenciais e inéditos (estratos bancários, cartas, relatórios confidenciais, actas do conselho de administração, balanços secretos do IOR [banco do Vaticano], cópias de transferências e referências “codificadas” a contas)» (Vaticano S. A., Gianluigi Nuzzi. Tradução de Ricardo Sequeira. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 11). É, já aqui o vimos, extracto bancário que se diz, porque é a informação, o registo extraído dos movimentos de uma conta bancária. Logo na primeira página do ensaio, é um péssimo cartão-de-visita. É, permitam-me dizê-lo — até porque o étimo é o italiano, língua original deste ensaio, bugiardo, «mentiroso, falso» — uma bojarda.

[Post 3508]

Léxico: «metatexto»

Quem percebe?


      Asdrúbal d’Aguiar lê e relê o ofício do juiz de instrução que ordenava que se realizasse a autópsia ao cadáver de Sidónio Pais. Algo lhe escapava. «Era o que, de facto, estava escrito no metatexto do ofício» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 136).
      De dicionários gerais, só o Dicionário Houaiss regista — e com o verbete a precisar de, pelo menos, mais uma acepção — o vocábulo «metatexto». No romance em apreço, o vocábulo apenas se pode referir a um elemento: a data. A chave do ofício encontrou-a Asdrúbal d’Aguiar na data: «Era a data, descobriu de repente: dezassete de Janeiro» (idem, ibidem, p. 136). A generalidade dos leitores vai ter dificuldade em interpretar o vocábulo. O conceito de metatexto foi definido pelo crítico literário e ensaísta francês Gérard Genette (n. 1930), representante da chamada «nova crítica» (nouvelle critique), como um texto, interno, externo ou misto, que fala ou instrui sobre outro texto.
      (Só um reparo: há agora esta mania de, nos romances, ser tudo escrito por extenso: datas, idades, medidas... Os numerais estão ameaçados de extinção. Se se tratasse de um revisor inexperiente, ainda compreendia.)

[Post 3507]

Léxico: «moxama»

Tira seca do lombo do atum


      Conhece o vocábulo moxama? Se leu a edição de hoje do gratuito Metro, terá visto um semelhante, «muxama»: «O pequeno-almoço na Companhia das Culturas é uma refeição muito especial, um momento de fruição e experimentação gastronómica à base de produtos da casa. Sumos de frutas da época, queijo fresco de cabra, pão cozido em forno de lenha de esteva e azinho, muxama (atum seco), compotas dos frutos da quinta de produção ecológica, iogurte ecológico e, conforme a época, ovos com espargos bravos, tomatada, paté de porco preto e mais não digo» («Em boa companhia», Vanessa Conde, Metro, 26.5.2010, p. 12). Azar o do leitor: era a primeira vez que estava a ler a palavra, e estava mal escrita (o que confirmo no Vocabulário Português de Origem Árabe, de José Pedro Machado. Lisboa: Círculo de Leitores, 1997, p. 108). A etimologia, porém, desculpa a jornalista: o étimo é o árabe muxamma. Talvez devesse escrever-se com u, como em italiano: musciame ou musciamu (embora esta língua também registe mosciamme).

[Post 3506]

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