Centavo/cêntimo/centésimo

Era escusado


      «Marcinkus tenta demarcar-se e assegura, em 1975, que “o Vaticano não perdeu um centésimo”» (Vaticano S. A., Gianluigi Nuzzi. Tradução de Ricardo Sequeira. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 23).
      Vamos lá: eu sei perfeitamente que o vocábulo italiano centesimo se pode traduzir por «centésimo» (unidade em que se dividem algumas moedas) — mas quem é que o usa para se referir a uma moeda? Tivemos centavos e agora temos cêntimos (e, sobre a questão, ler este texto de Miguel R. M.); centésimo não deixará de causar alguma estranheza.

[Post 3509]

«Extracto»/«estrato»

Outra vez não


      Uns escrevem «extracto social», outros escrevem «estrato bancário». Há de tudo, neste mundo. «Um interminável arquivo de documentos confidenciais e inéditos (estratos bancários, cartas, relatórios confidenciais, actas do conselho de administração, balanços secretos do IOR [banco do Vaticano], cópias de transferências e referências “codificadas” a contas)» (Vaticano S. A., Gianluigi Nuzzi. Tradução de Ricardo Sequeira. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 11). É, já aqui o vimos, extracto bancário que se diz, porque é a informação, o registo extraído dos movimentos de uma conta bancária. Logo na primeira página do ensaio, é um péssimo cartão-de-visita. É, permitam-me dizê-lo — até porque o étimo é o italiano, língua original deste ensaio, bugiardo, «mentiroso, falso» — uma bojarda.

[Post 3508]

Léxico: «metatexto»

Quem percebe?


      Asdrúbal d’Aguiar lê e relê o ofício do juiz de instrução que ordenava que se realizasse a autópsia ao cadáver de Sidónio Pais. Algo lhe escapava. «Era o que, de facto, estava escrito no metatexto do ofício» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 136).
      De dicionários gerais, só o Dicionário Houaiss regista — e com o verbete a precisar de, pelo menos, mais uma acepção — o vocábulo «metatexto». No romance em apreço, o vocábulo apenas se pode referir a um elemento: a data. A chave do ofício encontrou-a Asdrúbal d’Aguiar na data: «Era a data, descobriu de repente: dezassete de Janeiro» (idem, ibidem, p. 136). A generalidade dos leitores vai ter dificuldade em interpretar o vocábulo. O conceito de metatexto foi definido pelo crítico literário e ensaísta francês Gérard Genette (n. 1930), representante da chamada «nova crítica» (nouvelle critique), como um texto, interno, externo ou misto, que fala ou instrui sobre outro texto.
      (Só um reparo: há agora esta mania de, nos romances, ser tudo escrito por extenso: datas, idades, medidas... Os numerais estão ameaçados de extinção. Se se tratasse de um revisor inexperiente, ainda compreendia.)

[Post 3507]

Léxico: «moxama»

Tira seca do lombo do atum


      Conhece o vocábulo moxama? Se leu a edição de hoje do gratuito Metro, terá visto um semelhante, «muxama»: «O pequeno-almoço na Companhia das Culturas é uma refeição muito especial, um momento de fruição e experimentação gastronómica à base de produtos da casa. Sumos de frutas da época, queijo fresco de cabra, pão cozido em forno de lenha de esteva e azinho, muxama (atum seco), compotas dos frutos da quinta de produção ecológica, iogurte ecológico e, conforme a época, ovos com espargos bravos, tomatada, paté de porco preto e mais não digo» («Em boa companhia», Vanessa Conde, Metro, 26.5.2010, p. 12). Azar o do leitor: era a primeira vez que estava a ler a palavra, e estava mal escrita (o que confirmo no Vocabulário Português de Origem Árabe, de José Pedro Machado. Lisboa: Círculo de Leitores, 1997, p. 108). A etimologia, porém, desculpa a jornalista: o étimo é o árabe muxamma. Talvez devesse escrever-se com u, como em italiano: musciame ou musciamu (embora esta língua também registe mosciamme).

[Post 3506]

«Tenho certeza»?

Ora essa


      Ontem vi na RTP Memória um episódio de Miss Marple. A metediça «detective amadora» hospeda-se no requintado Hotel Bertram e começa a fazer aquilo que melhor sabe fazer: meter-se na vida dos outros. Não gostei muito, mas isso não interessa para aqui. A tradução, de Accra B. Rockley, causou-me, aqui e ali, alguma estranheza, mas nenhuma como esta: o tradutor omitiu sempre — sempre — o artigo antes do substantivo «certeza». E não foram menos de doze vezes! Nada que não tivesse visto e corrigido muitas vezes, pois há tradutores, com nome mais português do que Accra B. Rockley, que fazem precisamente o mesmo. E porquê? Isso é que não sei, mas aconselho-os: ouçam como falam as pessoas.

[Post 3505]

Tempos verbais

Ficha Limpa


      O leitor Paulo Araujo chamou-me a atenção para uma polémica que tem todo o interesse para nós, pois centra-se essencialmente numa questão linguística. Um projecto de lei, de iniciativa popular, chamado Ficha Limpa, pretende impedir a candidatura de políticos condenados em segunda instância judicial. Tudo teve origem em 2008, quando a Associação Brasileira de Magistrados (ABM) tornou pública uma lista com os candidatos com «ficha suja». Mais recentemente, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) desencadeou o processo depois de ter obtido a assinatura de mais de 1,5 milhão de cidadãos. O texto-base do projecto já foi aprovado pelo plenário da Câmara dos Deputados. Entretanto, o senador Francisco Dornelles introduziu umas emendas que podem desvirtuar o sentido da lei. A alteração é de tempos verbais e não de verbos: em vez de se estatuir «os que tenham sido condenados», passou a ser «os que forem condenados».
      Não há gramático ou linguista brasileiro que não tenha sido ouvido pelos meios de comunicação a propósito da questão. De um artigo da jornalista Alessandra Duarte (que podem ler na íntegra clicando na imagem acima), na edição de ontem do jornal O Globo, extraio a opinião de Evanildo Bechara, com a qual concordo inteiramente: «Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo Evanildo Bechara afirma que, enquanto o tempo verbal “tenham sido” é mais claro e aponta para uma só categoria — aqueles que já foram condenados no passado —, a expressão “os que forem condenados” dá margem a duas interpretações: — Uma dessas interpretações abrange só os que vierem a ser condenados. A outra, porém, abrange todos aqueles na condição de condenados, o que, portanto, inclui os que já tiveram condenações. Do meu ponto de vista, essa segunda interpretação é a mais próxima do espírito inicial do projeto pensado pela sociedade. E eu escolho o que está mais próximo do espírito do projeto — analisa Bechara.»
      Devo, no entanto, realçar que me parece um pouco contrafeito — e, em qualquer caso, a denotar uma deficiente técnica legislativa — o uso do futuro do conjuntivo no texto da lei, que, por uma interpretação restrita, significará somente os que vierem a ser condenados, diminuindo assim o alcance da norma.
      Resta agora saber se Lula da Silva vai sancionar ou vetar a lei. O caminho mais sensato seria optar pelo veto, dado o perigo real de subversão do espírito da lei.

[Post 3504]

«Funerais» e «necrópsia»

Barbarismos


      «Ou, dito de outra maneira, se fosse indiferente à regra convencional de não que não se deveriam autopsiar reis, príncipes, presidentes, então teria ordenado a necrópsia quando o cadáver fora embalsamado ou nos dias anteriores aos funerais» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 136).
      Pode ser um desses casos em que prevalece a vontade, mesmo antigramatical, do autor. Correcto é necropsia, e, pelo menos neste caso, os dicionários não se desviam da norma. Quanto a «funerais», é imitação do francês funérailles. Nós só temos um funeral. E, quanto a mim, é mais do que suficiente.

[Post 3503]

«Sherpa»/«xerpa»

Povo do Leste


      «Quem são os guias responsáveis por levar pessoas como o Jordan a seguir os seus sonhos no Evereste? Os xerpas, mais conhecidos por sherpas (shyarpa), são uma etnia da região mais montanhosa do Nepal, nos Himalaias. Na língua xerpa, shyar significa ‘leste’ e pa significa ‘povo’ shyarpa ou xerpa. Tradicionalmente, vivem nas zonas montanhosas situadas na zona oriental do Nepal e ganham a vida não só como guias e carregadores, mas também como comerciantes, fazendeiros e agricultores. A história cultural sherpa tem mais de 500 anos» («Sherpas: senhores do Evereste há 500 anos», Tiago C. Esteves, Metro, 25.5.2010, p. 2).
      «Mais conhecidos por sherpas»! É simplesmente, e mais uma vez, a grafia da língua inglesa a impor-se-nos. Nas traduções, contudo, e já aqui o vimos, o aportuguesamento «xerpa» é há muito usado e está mesmo registado em alguns dicionários, como é o caso do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.  «Um jovem xerpa muito solícito precipitou-se ao nosso encontro e apresentou-se como o nosso sirdar» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 298).

[Post 3502]

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