«Tenho certeza»?

Ora essa


      Ontem vi na RTP Memória um episódio de Miss Marple. A metediça «detective amadora» hospeda-se no requintado Hotel Bertram e começa a fazer aquilo que melhor sabe fazer: meter-se na vida dos outros. Não gostei muito, mas isso não interessa para aqui. A tradução, de Accra B. Rockley, causou-me, aqui e ali, alguma estranheza, mas nenhuma como esta: o tradutor omitiu sempre — sempre — o artigo antes do substantivo «certeza». E não foram menos de doze vezes! Nada que não tivesse visto e corrigido muitas vezes, pois há tradutores, com nome mais português do que Accra B. Rockley, que fazem precisamente o mesmo. E porquê? Isso é que não sei, mas aconselho-os: ouçam como falam as pessoas.

[Post 3505]

Tempos verbais

Ficha Limpa


      O leitor Paulo Araujo chamou-me a atenção para uma polémica que tem todo o interesse para nós, pois centra-se essencialmente numa questão linguística. Um projecto de lei, de iniciativa popular, chamado Ficha Limpa, pretende impedir a candidatura de políticos condenados em segunda instância judicial. Tudo teve origem em 2008, quando a Associação Brasileira de Magistrados (ABM) tornou pública uma lista com os candidatos com «ficha suja». Mais recentemente, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) desencadeou o processo depois de ter obtido a assinatura de mais de 1,5 milhão de cidadãos. O texto-base do projecto já foi aprovado pelo plenário da Câmara dos Deputados. Entretanto, o senador Francisco Dornelles introduziu umas emendas que podem desvirtuar o sentido da lei. A alteração é de tempos verbais e não de verbos: em vez de se estatuir «os que tenham sido condenados», passou a ser «os que forem condenados».
      Não há gramático ou linguista brasileiro que não tenha sido ouvido pelos meios de comunicação a propósito da questão. De um artigo da jornalista Alessandra Duarte (que podem ler na íntegra clicando na imagem acima), na edição de ontem do jornal O Globo, extraio a opinião de Evanildo Bechara, com a qual concordo inteiramente: «Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo Evanildo Bechara afirma que, enquanto o tempo verbal “tenham sido” é mais claro e aponta para uma só categoria — aqueles que já foram condenados no passado —, a expressão “os que forem condenados” dá margem a duas interpretações: — Uma dessas interpretações abrange só os que vierem a ser condenados. A outra, porém, abrange todos aqueles na condição de condenados, o que, portanto, inclui os que já tiveram condenações. Do meu ponto de vista, essa segunda interpretação é a mais próxima do espírito inicial do projeto pensado pela sociedade. E eu escolho o que está mais próximo do espírito do projeto — analisa Bechara.»
      Devo, no entanto, realçar que me parece um pouco contrafeito — e, em qualquer caso, a denotar uma deficiente técnica legislativa — o uso do futuro do conjuntivo no texto da lei, que, por uma interpretação restrita, significará somente os que vierem a ser condenados, diminuindo assim o alcance da norma.
      Resta agora saber se Lula da Silva vai sancionar ou vetar a lei. O caminho mais sensato seria optar pelo veto, dado o perigo real de subversão do espírito da lei.

[Post 3504]

«Funerais» e «necrópsia»

Barbarismos


      «Ou, dito de outra maneira, se fosse indiferente à regra convencional de não que não se deveriam autopsiar reis, príncipes, presidentes, então teria ordenado a necrópsia quando o cadáver fora embalsamado ou nos dias anteriores aos funerais» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 136).
      Pode ser um desses casos em que prevalece a vontade, mesmo antigramatical, do autor. Correcto é necropsia, e, pelo menos neste caso, os dicionários não se desviam da norma. Quanto a «funerais», é imitação do francês funérailles. Nós só temos um funeral. E, quanto a mim, é mais do que suficiente.

[Post 3503]

«Sherpa»/«xerpa»

Povo do Leste


      «Quem são os guias responsáveis por levar pessoas como o Jordan a seguir os seus sonhos no Evereste? Os xerpas, mais conhecidos por sherpas (shyarpa), são uma etnia da região mais montanhosa do Nepal, nos Himalaias. Na língua xerpa, shyar significa ‘leste’ e pa significa ‘povo’ shyarpa ou xerpa. Tradicionalmente, vivem nas zonas montanhosas situadas na zona oriental do Nepal e ganham a vida não só como guias e carregadores, mas também como comerciantes, fazendeiros e agricultores. A história cultural sherpa tem mais de 500 anos» («Sherpas: senhores do Evereste há 500 anos», Tiago C. Esteves, Metro, 25.5.2010, p. 2).
      «Mais conhecidos por sherpas»! É simplesmente, e mais uma vez, a grafia da língua inglesa a impor-se-nos. Nas traduções, contudo, e já aqui o vimos, o aportuguesamento «xerpa» é há muito usado e está mesmo registado em alguns dicionários, como é o caso do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.  «Um jovem xerpa muito solícito precipitou-se ao nosso encontro e apresentou-se como o nosso sirdar» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 298).

[Post 3502]

Pronúncia de «desportos»

Fala um locutor


      José Serra pronunciou fâ-shish-tâ e não fâsh-sish-tâ (nem fásh-sish-tâ, que era o que, primeiramente, estava em causa), não articulando, portanto, o grupo sc normativamente. Contudo, agora a minha atenção vai para outra questão: repararam como Mário Meunier, da Emissora Nacional, pronuncia a palavra «desportos»? Pois é, manteve (por lapso?) o timbre fechado do o tónico do singular, quando neste vocábulo se realiza sempre a metafonia, isto é, a alternância ô/ó do singular para o plural. É uma regra crivada de excepções, isso é verdade, e por isso também há muitas trapalhadas. Em relação a coros e acordos, por exemplo, verifica-se que a generalidade dos falantes não está a par da norma. Pior ainda: há quem confunda tudo isto com as pronúncias regionais e a sua legitimidade, e nessa altura a conversa descamba inevitavelmente.

[Post 3501]

Pronúncia de «fascista»

Fala um comunista


      Na emissão de hoje do programa 27.000 Dias de Rádio, de José Nuno Martins, na Antena 1, recordou-se o primeiro comício do Partido Comunista Português no pós-25 de Abril. Estava-se a 24 de Maio de 1974. No Pavilhão dos Desportos, com cerca de 7000 pessoas a assistirem, um dos oradores foi José Serra (Álvaro Cunhal não estava presente), que usou, o que esperavam?, o vocábulo «fascista». Com a fechado ou aberto? Fechado. É verdade que a blesidade de José Serra não ajuda nada, mas o a é mesmo fechado: «regime fâscista». Ouçam-no aqui.

[Post 3500]

Ortografia: «magnicídio»

Mataram a ortografia!


       «E se o juiz desrespeitara a tradição de não autopsiar magnocídios, a esta distância temporal só poderia ser por razões bem ponderosas» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 136).
      Se se tratasse do homicídio do imperador Carlos Magno (747―814), talvez. Mas não: escreve-se magnicídio e é o «assassínio de pessoa ilustre, eminente», como se pode ler na definição do Dicionário Houaiss. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista nem «magnicida» nem «magnicídio» (então, meus senhores, distraídos?). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por sua vez, só regista «magnicida». Em espanhol também se escreve magnicidio.
      Claro que escrever «autopsiar magnicídios» é uma forma audaciosamente elíptica, e pode haver leitores que não compreendam.

[Post 3499]

«Fase de negação»

Mataram a cronologia!


      «— Ainda me lembrei de te desafiar, mas estavas na fase da negação — ironizou Brites. — Além de que a polícia corria connosco ou prendia-nos» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 167).
      Mais um romance histórico, mais um anacronismo. Que é isto de «fase da negação»? A psiquiatra de origem suíça Elisabeth Kübler-Ross (1926–2004) definiu cinco fases pelas quais os indivíduos passam após qualquer perda pessoal, como a aproximação da própria morte, morte de um ente querido ou mesmo divórcio. Uma dessas fases é a fase de negação. Vejam: a psiquiatra estabeleceu esta teoria em 1969 e o diálogo passa-se no início de 1919, um mês e uma semana depois do homicídio do Presidente-Rei (1872―1918). Só sete anos depois do diálogo ficcionado nasceria a autora, e apenas meio século depois estabeleceria a teoria. O nosso Geraldino Brites, chefe do Serviço de Tanatologia da Morgue de Lisboa, podia ser excepcional, mas não era, mesmo atenuado, um Rasputine. No blogue da editora pode ler-se que Moita Flores é «considerado um dos mestres da técnica de diálogo», mas mestria é não pôr diálogos inverosímeis (rebuscadamente inverosímeis, admito) na boca das personagens, e isso não acontece nesta fala.

[Post 3498]

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