Regência do verbo «preferir»

Não pode ser


      «“Prefiro morrer no meio daquelas magníficas montanhas do que sozinho na cama de um hospital sinistro”» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 233). «Os Nakhis são gente apaixonada e, ainda hoje, jovens amantes preferem envenenar-se, afogar-se ou saltar de um abismo, do que sujeitarem-se a um casamento indesejado» (idem, ibidem, p. 235).
      Uma tradução não é o texto adequado para a exibição de semelhantes relativismos linguísticos. A norma culta portuguesa manda usar-se a construção «preferir uma coisa a outra», e o tradutor e o revisor não podem ignorá-la.

[Post 3476]

Regência do verbo «consistir»

E a decência sintáctica?


      «Além do barrete, o traje das mulheres consiste de um corpete azul, avental branco plissado e uma capa direita acolchoada, presa por cordões entrecruzados» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 229).
      Já aqui vimos uma citação do Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre a regência do verbo consistir. Este estudioso, se se lembram, atribuía esta regência espúria à influência do inglês consisted of. E, no caso, trata-se mesmo de uma tradução do inglês.

[Post 3475]

Léxico: «cúmis»

Conversa de Revisores


      «O cúmis é uma bebida de leite de égua fermentado, alimento básico dos nómadas da estepe e remédio para todas as doenças» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 192).
      Salvo erro, é a primeira vez que leio este termo assim aportuguesado. De todos os dicionários consultados, apenas o Aulete Digital o regista: «bebida feita com leite de égua fermentado em odres, de que usam certos povos da Rússia e da Ásia Central». Poucas vezes a opção pelo estrangeirismo é mais adequada do que o correspondente termo português. E a justificação de que não se usa um vocábulo aportuguesado ou um termo português alternativo porque ainda não está generalizado é, em si, um contra-senso. É isto mesmo, entre outros aspectos que o desenrolar da conversa propiciar, que amanhã direi na sessão do curso de Formação Avançada em Revisão e Edição de Texto da Universidade Católica (UCP) para que fui convidado.

[Post 3474]

Uso da maiúscula

Pequeno


      «Depois da guerra, foi sugerido que se deixassem as ruínas de Estalinegrado tal como estavam, como um eterno monumento à derrota do Fascismo» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 208).
      Mas os nomes de movimentos estéticos, filosóficos, políticos, doutrinários grafam-se com minúscula inicial: classicismo, comunismo, fascismo, marxismo, nazismo, romantismo...
      A propósito: como pronunciam os meus leitores a palavra? Com o a fechado (â) ou aberto?

[Post 3473]

Léxico: «piquenicar»

Delicioso


      «O sol brilhava: gente a piquenicar acenava-nos da margem e lanchas velozes subiam e desciam o rio, a abarrotar de excursionistas» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 205).
      Nenhum dicionário regista o verbo piquenicar. Ainda assim, considero correcto o seu uso, tanto mais que na oralidade é muito usado. (A propósito, é chocante que a cadeia de supermercados Modelo persista na grafia abstrusa *mega pic-nic.)

[Post 3472]

Ortografia: «gaullista»




      «A carreira de André Malraux [1901–1976] tem espantado, divertido e, por vezes, alarmado os Franceses. Como arqueólogo, autor de romances revolucionários, viajante e conversador inveterado, herói da guerra, esteta e ministro gaulista, é o seu único aventureiro de primeira classe ainda vivo» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 130).
      Mas os termos derivados de nomes estrangeiros não mantêm as características da grafia original? E este não tem dois ll? Apesar do contexto, o leitor é naturalmente levado a pronunciar mal o vocábulo. Assim, pouco falta para se escrever «galista», o criador e treinador de galos de briga.

[Post 3471]

«Pampa»: masculino ou feminino?

De evitar


      «Andou aos pulos toda a manhã, debaixo de um sol escaldante, passando de uma linha para a outra sem nunca pisar a superfície castanha do pampa» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 116). «Demorámos mais de uma hora a procurar o pampa devido» (idem, ibidem, p. 117).
      Nem tudo o que está certo está bem: lembremo-nos, só a título de exemplo, do caso do topónimo Pompeia, que alguns querem que se escreva Pompeios. No caso de hoje, o Dicionário Houaiss regista, e julgo que é o único (mas o Aulete Digital di-lo unicamente masculino), que o vocábulo «pampa» tem dois géneros, mas optar pelo género masculino vai contra toda a tradição. Ganha-se alguma coisa com essa opção? Nada.

[Post 3470]

Ortografia: «preênsil»

Agarra-te


      «Um macaco-aranha da Amazónia com uma cauda prênsil enrolada para cima numa espiral» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 110).
      Os revisores têm de apreender esta verdade simples: com palavras raras, só de dicionário na mão. Se ainda por cima não têm sequer umas tinturas de latim e grego, cuidado redobrado. Há duas semanas fui ao Jardim Zoológico e, em frente à jaula de um qualquer símio pendurado pela longa cauda negra, usei essa palavra, tendo articulado bem os dois ee para ser bem percebido.

[Post 3469]

Arquivo do blogue