«Carnaval/carnaval»

É um carnaval


      «Com esta precisa distinção dialéctica, ela equipara a roupa daquele costureiro a trajes de carnaval» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 104).
      No Brasil é que se grafa com inicial minúscula o vocábulo quando se refere à quadra festiva. A propósito desta questão, escreve o Prof. Sacconi no seu blogue: «Sempre com inicial minúscula: carnaval. Não há necessidade nenhuma desta palavra vir com inicial maiúscula. A mídia, no entanto, continua usando-a com inicial maiúscula. Explicar por quê, ninguém sabe.» De facto, o Formulário Ortográfico de 1943 estatui que se deve grafar com inicial minúscula o nome de festas pagãs e populares. Em Portugal, a Base XXXIX do Acordo Ortográfico de 1945 manda grafar com maiúscula inicial o nome de todas as festas públicas tradicionais, e até exemplifica com Carnaval. Com o Acordo Ortográfico de 1990, continua a ser assim, embora, única diferença, já não se exemplifique com o nome desta festa (vide Base XIX, 2.º, e)).

[Post 3468]

Plural dos apelidos

Estava quem interessa


      Bruce Chatwin convidou Howard Hodgkin e Cary Welch e as mulheres destes para um jantar em sua casa. «Uma noite, os Hodgkins e os Welches vieram jantar e lembro-me de Howard às voltas na sala e a arrastar os pés, registando tudo o que via na memória com aquele olhar fixo que agora tão bem conheço» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 90). Muito bem: estavam lá os Hodgkins e os Welches. E só não estavam os Chatwins, anfitriões, porque Bruce era solteiro. Felizmente, não foram convidados os tradutores e os revisores que não pluralizam os apelidos, essas melgas. Ficaram lá fora, a planar por Hyde Park Corner.

[Post 3467]

«Liberacionista»?

Não consta


      «Madeleine Vionnet foi uma liberacionista e reivindica o mérito de ter sido a primeira costureira a desembaraçar-se do corpete em 1907, altura em que trabalhava para Jacques Doucet» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 103).
      Nenhum dicionário que consultei regista «liberacionista», que, é verdade, cheira a anglicismo: liberationist.

[Post 3466]

«Voos de e para estes destinos»?

É uma maneira de dizer


      Maria de São José, no noticiário das 13 horas na Antena 1: «A nuvem de cinzas vulcânicas causou hoje o cancelamento de 32 voos nos aeroportos de Lisboa, Faro e do Funchal. Os aeroportos ingleses e irlandeses tiveram que ser novamente encerrados, por isso os voos de e para estes destinos foram cancelados.»
      É uma forma prática de dizer, usada todos os dias. Mas vejamos. Como destino é o lugar para o qual alguém ou alguma coisa se dirige (e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa está a precisar de dar outra redacção ao verbete), «voos para estes destinos» é o correcto, mas não «voos destes destinos», pois já estaremos a falar de partidas. Solução? Substituir pelo vocábulo «cidades»: «por isso os voos de e para estas cidades foram cancelados».

[Post 3465]

Plural: «liberais-democratas»

Outra vez

      «Um dia depois de se afirmar disposto a tentar formar governo, o primeiro-ministro cessante e líder trabalhista, Gordon Brown, cedeu às críticas da oposição e admitiu ontem ser mais correcto abrir a porta a negociações entre David Cameron, líder dos rivais conservadores, mais votados nas legislativas de quinta-feira, e os liberal-democratas, terceira força política» («Cameron tenta formar governo», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 8.5.2010, p. 33). «O novo primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse ontem que o governo de coligação com os liberal-democratas (Lib-Dems) será “unido e vai promover uma liderança estável e forte”» («“C” faz magia no Reino Unido», Tiago da Cunha Esteves, Metro, 13.5.2010, p. 5).
      No Público, como já aqui vimos, o desnorte ortográfico é estonteante, mas estes dois jornais também não andam bem, e reeditaram a questão mais ou menos ultrapassada dos sociais-democratas/social-democratas. Se sustento que se deve escrever sociais-democratas, não posso deixar de defender que se deve também escrever liberais-democratas.

[Post 3464]

«Hydrofoil»?

Não é o que vejo


      «No dia em que foi lançado, os controladores aéreos franceses entraram em greve e eu tive de atravessar a Mancha em hydrofoil» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 77).
      Intraduzível? Talvez, mas aportuguesável. O Dicionário Inglês-Português Michaelis regista no respectivo verbete: «1. plano em casco de lancha que a ergue fora d’água para maior velocidade. 2. barco que se movimenta acima da superfície da água por meio de hidrofólios». O Dicionário Houaiss faz algo semelhante: depois de definir o hidrofólio como «cada uma das aletas presas no casco de algumas embarcações e que as fazem planar na superfície da água quando alcançam certa velocidade», regista a acepção que nos interessa: «nome genérico de embarcação que dispõe dessa aleta».

[Post 3463]

Ortografia: «microssensor» e «microelectrónica»

E os dicionários?


      «A ideia é embeber um conjunto de micro-sensores num acelerador vulgar, na fase de construção do automóvel, e ligar esses elementos à centralina do automóvel, através de um sistema sem fios. […] Este sistema utiliza tecnologias standard, na área da micro-electrónica, pelo que um sistema destes terá custos marginais, muito baixos» («Amortecedor inteligente», Ana Isabel Pereira, Tabu/Sol, 7.5.2010, p. 51).
      Errado: não é nem vai ser assim. Com este sufixo nunca se usa hífen, como já aqui vimos mais de uma vez. Quando o segundo elemento começa por r ou s, estas consoantes duplicam-se: microssensor e microelectrónica.
      A centralina, também conhecida por electronic control unit (ECU), é um dispositivo electrónico utilizado no controlo de uma grande variedade de dispositivos mecânicos e eléctricos e electrónicos dos automóveis. O étimo é o italiano centralina: «congegno elettronico che regola il funzionamento di un impianto, di una macchina» (in Dicionário de Italiano Sabatino Coletti). Não vejo o vocábulo registado em nenhum dicionário de português.

[Post 3462]

«Acastelagem» ou «castelo»?

São mesmo sinónimos?


      «O barco era um iate moderno que tinha de ser entregue em Antígua. Mas os donos tinham sobrecarregado as suas obras mortas com uma luxuosa acastelagem» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 20).
      Obras mortas e obras vivas, sim, mas o problema está na «acastelagem». Poucos dicionários registam o termo. O Aulete Digital, que o faz, dá a seguinte definição: «O conjunto dos castelos da proa e popa dos navios de guerra antigos.» Não deveria antes ser «castelo»?

[Post 3461]

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