«Acastelagem» ou «castelo»?

São mesmo sinónimos?


      «O barco era um iate moderno que tinha de ser entregue em Antígua. Mas os donos tinham sobrecarregado as suas obras mortas com uma luxuosa acastelagem» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 20).
      Obras mortas e obras vivas, sim, mas o problema está na «acastelagem». Poucos dicionários registam o termo. O Aulete Digital, que o faz, dá a seguinte definição: «O conjunto dos castelos da proa e popa dos navios de guerra antigos.» Não deveria antes ser «castelo»?

[Post 3461]

Aportuguesamento: «clíper»

Destoa


      «Nos anos vinte e trinta, o meu avô, advogado em Birmingham, era dono de um barco de uma beleza lendária. Era um caíque, com proa de clipper, construído em Fowey, na Cornualha, em 1898, e outrora aparelhado como um cúter» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 19).
      Nem sempre se percebe o critério dos tradutores. Ao lado de caíque e cúter, os dicionários gerais da língua registam igualmente clíper, tão afeiçoável ao português como «cúter».

[Post 3460]

Escravista/escravagista/esclavagista

Felizmente


      «A vedeta não se parecia nada com um escravista brasileiro, lembrando mais uma matrona europeia, velha e rabugenta» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 14).
      Houve um tempo em que, decerto por medo de ser-se diferente, só se escrevia «esclavagista», ainda que se tivesse consciência de que era um galicismo (de esclavagiste). Além destes dois termos, o Dicionário Houaiss regista ainda escravagista, o que parece um meio-termo. Há ainda um sinónimo menos usado: escravocrata.

[Post 3459]

Ortografia: «sovieto-moçambicano»

Atentado ou acidente?


      Esta capa apócrifa, que aparece, por exemplo, na Wook, é que era a correcta. Há menos de meia hora, estive numa livraria e o que se pode ler na capa é «Páginas desconhecidas das relações soviético-moçambicanas». Correcto aparece ainda no blogue do autor, José Milhazes («O livro sobre “páginas desconhecidas das relações sovieto-moçambicanas” vai ser publicado pela editora Aletheia [sic], a quem agradeço desde já o apoio concedido.») e no convite para o lançamento. Já aqui referimos casos semelhantes, ficando o primeiro adjectivo truncado: sino-japonês, dano-chinês, nigero-congolês... Sovieto-moçambicano, pois. Percebo que no convite figure já a correcção, mas não na Wook. E talvez não se possa culpar o revisor, Helder Marques, pois não poucas vezes os editores — pelo menos até aparecer algum reparo numa recensão ou mensagens de correio electrónico de leitores indignados — não dão as capas a rever.

[Post 3458]


Actualização em 13.11.2010

      «E imagina-se mal que as rádios e as televisões concorrentes da RTP, e até os demais media, possam continuar a ser clientes da Lusa. Até porque o País viveria então num quase-regime sovieto-chinês!» («Uma absurda “agregação”», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 66).

Tradução: «beignets»


Não engulo isto


      «Durante quase uma semana, não cozinhei nem comprei mercearias. Em vez disso, todas as nossas várias famílias levaram-nos, a mim e ao Eric, a comer comida mexicana, churrasco e beignets» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 162). E a tradutora entendeu fazer uma nota a beignets: «Uma variedade francesa de donuts
      Duvido. O contexto não autoriza a tradutora a dizer que são beignets aux pommes: «Entremets composé uniquement de pâte à chou ou à brioche, gonflée dans la friture chaude» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée). Donuts... Até parece que não há entre os nossos doces regionais nada parecido com os beignets aux pommes. Mas enfim, são sinais dos tempos. O que Julie e Eric comeram terá sido mesmo beignets: «Mets ou entremets composé de viandes, légumes, fruits, poissons, enrobés de pâte à frire et passés ensuite à la friture chaude» (idem).
      Nota final: eu não escreveria o plural «mercearias», pois «mercearia» é um colectivo: conjunto de géneros alimentícios. (E sim, sei o que regista o Dicionário Houaiss.)

[Post 3457]

Nome das castas de uvas

Com o tempo maduram as uvas


      «O que também ajuda é um vinho australiano barato, desde que não se importe de acordar com a boca seca às três da manhã, com o último jarro de água Poland Spring a acabar e a amaldiçoar o nome shiraz» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 192). E a tradutora entendeu fazer uma nota «ao nome shiraz»: «Casta de uva muito utilizada na Austrália.»
      Três notas. Primeira: os nomes das castas de uva grafam-se com maiúscula inicial (e com hífen se o nome for composto: Antão-Vaz, Fernão-Pires, Ferro-Pau, Gonçalo-Pires...). Segunda: os nomes das castas de uva não se grafam em itálico. Terceira: «Casta de uva muito utilizada na Austrália»? Bem, é mais utilizada na Europa, onde tem as suas origens sob o nome Syrah.

[Post 3456]

Léxico: «bicurioso»

Moda ou talvez não


      Tinha de chegar cá através das traduções: «Ainda bem que para mim, embora talvez seja mau para a Gwen, que não passo de uma secretária solitária, que mora nos subúrbios e gosta de vodka e de cigarros, em vez de ser... sei lá, uma stripper bicuriosa e ligeiramente viciada em cocaína — fico com a sensação de que, com tamanho potencial para o desastre, a Gwen faria valer os seus dotes como uma espécie de personagem shakespeariana corruptora da inocência» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 137). Numa nota de rodapé, a tradutora explica o neologismo, do inglês bi-curious: «Termo usado em relação a alguém que não se identifica como bissexual ou homossexual, mas mostra alguma curiosidade numa relação com alguém do mesmo sexo.»
      Será que o Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa (São Paulo: Editora Nova Geração, 2010), com 2088 páginas e 200 mil verbetes actualizados, acolhe o neologismo?

[Post 3455]

Letras k, w, y

Ora, ora


      «Nesta tradução, a transcrição fonética das letras russas foi feita para ser lida à portuguesa, não utilizando as letras w e y. A utilização da letra k justifica-se não só por não causar dificuldades de leitura, como também por ser indispensável em sons que exigem aspiração (kh). (N. do T.)» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 9).
      E a letra y oferecerá, acaso, dificuldades de leitura? A minha filha, agora com 3 anos e 2 meses, conhece há um ano todo o alfabeto «reformado» (já com o k, w e y incluídos com o Acordo Ortográfico de 1990), e ao y chama, conforme lhe ensinei por ser mais fácil para ela, i grego. Não sabe de cor, evidentemente, todo o alfabeto — mas também adolescentes no Ensino Secundário não o conhecem de cor, e por isso não sabem consultar um dicionário. Mas concordo com a opção do tradutor (que grafou Puchkine, Kerenski, etc.), não com a justificação. Em rigor, só a letra w poderá oferecer dificuldades ao falante da língua portuguesa, pois ora é consoante, ora é vogal, consoante a língua de origem do vocábulo de que faz parte.

[Post 3454]

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