«Voos de e para estes destinos»?

É uma maneira de dizer


      Maria de São José, no noticiário das 13 horas na Antena 1: «A nuvem de cinzas vulcânicas causou hoje o cancelamento de 32 voos nos aeroportos de Lisboa, Faro e do Funchal. Os aeroportos ingleses e irlandeses tiveram que ser novamente encerrados, por isso os voos de e para estes destinos foram cancelados.»
      É uma forma prática de dizer, usada todos os dias. Mas vejamos. Como destino é o lugar para o qual alguém ou alguma coisa se dirige (e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa está a precisar de dar outra redacção ao verbete), «voos para estes destinos» é o correcto, mas não «voos destes destinos», pois já estaremos a falar de partidas. Solução? Substituir pelo vocábulo «cidades»: «por isso os voos de e para estas cidades foram cancelados».

[Post 3465]

Plural: «liberais-democratas»

Outra vez

      «Um dia depois de se afirmar disposto a tentar formar governo, o primeiro-ministro cessante e líder trabalhista, Gordon Brown, cedeu às críticas da oposição e admitiu ontem ser mais correcto abrir a porta a negociações entre David Cameron, líder dos rivais conservadores, mais votados nas legislativas de quinta-feira, e os liberal-democratas, terceira força política» («Cameron tenta formar governo», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 8.5.2010, p. 33). «O novo primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse ontem que o governo de coligação com os liberal-democratas (Lib-Dems) será “unido e vai promover uma liderança estável e forte”» («“C” faz magia no Reino Unido», Tiago da Cunha Esteves, Metro, 13.5.2010, p. 5).
      No Público, como já aqui vimos, o desnorte ortográfico é estonteante, mas estes dois jornais também não andam bem, e reeditaram a questão mais ou menos ultrapassada dos sociais-democratas/social-democratas. Se sustento que se deve escrever sociais-democratas, não posso deixar de defender que se deve também escrever liberais-democratas.

[Post 3464]

«Hydrofoil»?

Não é o que vejo


      «No dia em que foi lançado, os controladores aéreos franceses entraram em greve e eu tive de atravessar a Mancha em hydrofoil» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 77).
      Intraduzível? Talvez, mas aportuguesável. O Dicionário Inglês-Português Michaelis regista no respectivo verbete: «1. plano em casco de lancha que a ergue fora d’água para maior velocidade. 2. barco que se movimenta acima da superfície da água por meio de hidrofólios». O Dicionário Houaiss faz algo semelhante: depois de definir o hidrofólio como «cada uma das aletas presas no casco de algumas embarcações e que as fazem planar na superfície da água quando alcançam certa velocidade», regista a acepção que nos interessa: «nome genérico de embarcação que dispõe dessa aleta».

[Post 3463]

Ortografia: «microssensor» e «microelectrónica»

E os dicionários?


      «A ideia é embeber um conjunto de micro-sensores num acelerador vulgar, na fase de construção do automóvel, e ligar esses elementos à centralina do automóvel, através de um sistema sem fios. […] Este sistema utiliza tecnologias standard, na área da micro-electrónica, pelo que um sistema destes terá custos marginais, muito baixos» («Amortecedor inteligente», Ana Isabel Pereira, Tabu/Sol, 7.5.2010, p. 51).
      Errado: não é nem vai ser assim. Com este sufixo nunca se usa hífen, como já aqui vimos mais de uma vez. Quando o segundo elemento começa por r ou s, estas consoantes duplicam-se: microssensor e microelectrónica.
      A centralina, também conhecida por electronic control unit (ECU), é um dispositivo electrónico utilizado no controlo de uma grande variedade de dispositivos mecânicos e eléctricos e electrónicos dos automóveis. O étimo é o italiano centralina: «congegno elettronico che regola il funzionamento di un impianto, di una macchina» (in Dicionário de Italiano Sabatino Coletti). Não vejo o vocábulo registado em nenhum dicionário de português.

[Post 3462]

«Acastelagem» ou «castelo»?

São mesmo sinónimos?


      «O barco era um iate moderno que tinha de ser entregue em Antígua. Mas os donos tinham sobrecarregado as suas obras mortas com uma luxuosa acastelagem» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 20).
      Obras mortas e obras vivas, sim, mas o problema está na «acastelagem». Poucos dicionários registam o termo. O Aulete Digital, que o faz, dá a seguinte definição: «O conjunto dos castelos da proa e popa dos navios de guerra antigos.» Não deveria antes ser «castelo»?

[Post 3461]

Aportuguesamento: «clíper»

Destoa


      «Nos anos vinte e trinta, o meu avô, advogado em Birmingham, era dono de um barco de uma beleza lendária. Era um caíque, com proa de clipper, construído em Fowey, na Cornualha, em 1898, e outrora aparelhado como um cúter» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 19).
      Nem sempre se percebe o critério dos tradutores. Ao lado de caíque e cúter, os dicionários gerais da língua registam igualmente clíper, tão afeiçoável ao português como «cúter».

[Post 3460]

Escravista/escravagista/esclavagista

Felizmente


      «A vedeta não se parecia nada com um escravista brasileiro, lembrando mais uma matrona europeia, velha e rabugenta» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 14).
      Houve um tempo em que, decerto por medo de ser-se diferente, só se escrevia «esclavagista», ainda que se tivesse consciência de que era um galicismo (de esclavagiste). Além destes dois termos, o Dicionário Houaiss regista ainda escravagista, o que parece um meio-termo. Há ainda um sinónimo menos usado: escravocrata.

[Post 3459]

Ortografia: «sovieto-moçambicano»

Atentado ou acidente?


      Esta capa apócrifa, que aparece, por exemplo, na Wook, é que era a correcta. Há menos de meia hora, estive numa livraria e o que se pode ler na capa é «Páginas desconhecidas das relações soviético-moçambicanas». Correcto aparece ainda no blogue do autor, José Milhazes («O livro sobre “páginas desconhecidas das relações sovieto-moçambicanas” vai ser publicado pela editora Aletheia [sic], a quem agradeço desde já o apoio concedido.») e no convite para o lançamento. Já aqui referimos casos semelhantes, ficando o primeiro adjectivo truncado: sino-japonês, dano-chinês, nigero-congolês... Sovieto-moçambicano, pois. Percebo que no convite figure já a correcção, mas não na Wook. E talvez não se possa culpar o revisor, Helder Marques, pois não poucas vezes os editores — pelo menos até aparecer algum reparo numa recensão ou mensagens de correio electrónico de leitores indignados — não dão as capas a rever.

[Post 3458]


Actualização em 13.11.2010

      «E imagina-se mal que as rádios e as televisões concorrentes da RTP, e até os demais media, possam continuar a ser clientes da Lusa. Até porque o País viveria então num quase-regime sovieto-chinês!» («Uma absurda “agregação”», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 66).

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