Ortografia: «protobloguista»

Assim é que não


      «Alguns bloguistas são capazes de dizer que Samuel Pepys foi uma espécie de proto-bloguista, mas não somos pessoas muito comedidas, por isso, se fosse a vocês, não nos dava ouvidos» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 104).
      Isto de um revisor, e há, incompreensivelmente, muitos casos, se recusar a consultar dicionários e gramáticas tem muito que se lhe diga. Por analogia, pois claro. Se tivesse consultado o Dicionário Houaiss, por exemplo, teria visto protobanto: «diz-se de ou língua ancestral, histórica ou hipotética, da qual derivou o conjunto de línguas do grupo nigero-congolês oriental, dito banto». Um revisor não pode falhar nestes aspectos elementares de uma revisão. E sobretudo não pode descansar no tradutor. Este é que mais legitimamente o pode fazer, pelo menos em relação a estes aspectos ortográficos (não é por acaso que na ficha técnica de obras publicadas por certas editoras se lê «revisão ortográfica»).

[Post 3453]

«Passados alguns dias»

Olhe que não


      «Tudo aquilo foi tão excitante e dramático que só passado alguns dias é que comecei a sentir o peso de ter conhecimento dessa Outra Mulher» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 102).
      Senhora tradutora, senhora revisora: «passado» concorda com que palavra? Nenhuma? Com que então poderá ter adquirido «valor preposicional», hã? Não se diga tal. A língua portuguesa tende sempre — é uma verdade tão evidente que eu próprio às vezes me esqueço dela — para a concordância, e não se queira agora transpor para a escrita todo o desleixo, toda a espontaneidade, toda a liberdade da oralidade. Ela pode não aguentar. Nem nós.

[Post 3452]

Tradução: «department»

It wasn’t her department


      «Mas o meu objectivo ao comer ovos sempre fora ter a certeza de que o ovo não se assemelhava, não cheirava nem sabia a nada parecido com um ovo e, devido a isso, suponho que a minha história nesse departamento era invulgar» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 93).
      É assim que dizemos, «departamento»? Eu não digo. Department não se pode traduzir, neste contexto, por «domínio», «capítulo», «aspecto», «campo»? Então?

[Post 3451]

Actualização em 24.05.2010

      Não estará aqui traduzido por este «sector»? «Além disso, durante as aulas práticas, vários residentes lamentaram amargamente a vergonhosa penúria das suas ejaculações. Clint marcou pontos dizendo que esse é um sector em que ele por acaso até é brilhante e descreveu a seguir os seus actos heróicos com Rehab» (O Cão Amarelo, Martin Amis. Tradução de Telma Costa. Lisboa: Editorial Teorema, 2004, p. 238).


 

Tradução: «stalking»

Obsessões e manias


      A fã que infernizou a vida de António Manuel Ribeiro, vocalista dos UHF, foi ontem condenada pelo Tribunal de Almada a dois anos de prisão com pena suspensa. Numa peça de apoio, «Milhões afectados nos EUA e Reino Unido» (J. A. C., p. 16), o jornalista do Público recorre a um anglicismo para não se sentir inferiorizado: «À luz do caso de António Manuel Ribeiro, o fenómeno de assédio e perseguição de terceiros surge como um caso que começa pela fama, pela exposição pública. Mas o stalking, na expressão inglesa, é um fenómeno que tanto pode afectar personalidades públicas quanto particulares. […] O mesmo documento indica que cerca de uma em cada quarto [sic] vítimas de perseguição e assédio foi alvo de ciberstalking — através de e-mails (83 por cento) ou de mensagens em chats (35 por cento).» No fim de Fevereiro, o Jornal de Notícias publicou uma notícia sobre este tipo de comportamento (afirmar que é um novo tipo de crime parece-me incorrecto) e, embora tivesse referido o anglicismo, titulou: «Casos de assédio obsessivo começam a ser conhecidos». Não me parece, pois, que precisemos do anglicismo. Mas já sei que os jornalistas não nos vão poupar ao seu uso.

[Post 3450]

Ortografia: «centro-direita»/«centro-esquerda»

Desamparados, não


      Conservadores e liberais coligados? «Pode ser o renascimento de um liberalismo culpado, com vontade social-democrata, salvando, durante mais uns tempos, o Estado-Providência. Esta coligação pode modernizar os Tories e isolar “a direita”, como Cameron se refere aos camaradas que o definem como wet (mole, liberal). Pode ser que a soma do centro esquerda e do centro direita dê centro. Ou não dê em nada» («No meio da média», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.5.2010, p. 39).
      Sim, concordamos, mas escreve-se centro-esquerda e centro-direita, e até há dicionários que registam esses substantivos compostos, como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.


[Post 3449]

Léxico: «paraprofissional»

Sem dúvida


      Cara M. J. R., não me parece que o termo cause assim tanta estranheza, sobretudo se tivermos em conta que aparece contextualizado. Estou aqui a ver um Manual para Treino de Paraprofissionais: Economia Familiar e Nutrição, um texto policopiado da responsabilidade da extinta Direcção-Geral de Extensão Rural e datado de 1979. Se se deve a influência inglesa, e há-de dever, a verdade é que esta abonação nos remete para trinta e um anos atrás. Em inglês, paraprofessional é «a trained aide who assists a professional person (as a teacher or doctor)» (in Merriam-Webster). E, afinal, o prefixo par(a)- não nos é assim tão estranho, e até na mesma área: lembre-se de «paramédico». Tudo visto, use paraprofissional.

[Post 3448]

Epânodo. Definição e exemplo

Estudava-se outrora


      Um leitor brasileiro, W. O., pretende saber em que consiste o epânodo. Bem, é matéria que as gerações mais novas de Portugueses ignoram totalmente. Era uma figura de estilo (figura de sintaxe ou de construção, mais precisamente) estudada, por exemplo, na obra do P. António Vieira. Contudo, com as últimas reformas do ensino, obras como esta foram eliminadas dos currículos. Aliás, quase toda a literatura foi escorraçada, tendo dado lugar ao estudo da língua em textos pragmáticos, utilitários. O mais perto que se fica é pedir aos alunos que redijam a acta (!) do Consílio dos Deus.
      Voltemos ao epânodo. Consiste na repetição discriminada de dois ou mais termos que anteriormente foram empregados juntos. É, no fundo, uma recapitulação (é esse o significado do étimo) do que antes se escreveu. Eis um exemplo, colhido no Sermão da Sexagésima, uma obra exemplaríssima agora estupidamente substituída nas escolas por obras de escritores medíocres e traduções malfeitas: «A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio; relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração; com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata.»

[Post 3447]

«Foi o Pai que me ensinou»

Anticampanha


      Um avisa que outros podem não perceber a frase, outro afirma que não percebe: «Já a campanha com o lema Foi o Pai que me ensinou peca por ineficaz: para quem está fora da Igreja (e para muitos dos que estão dentro) o significado do “Pai” não era perceptível» («A (falta de) estética católica e os avisos do Papa», António Marujo, Público, 12.05.2010, p. 5). «Confesso que não percebo a campanha “Foi o Pai que me ensinou”, que está por todas as ruas para comemorar a visita papal. Sei que este Pai se escreve com maiúscula porque foi assim que a Agência Ecclesia escreveu no despacho que anunciava a campanha. Pelos mupis e pelos cartazes não se pode saber porque está tudo em maiúsculas. As notícias que li sobre a campanha falavam do slogan como se fosse a coisa mais evidente do mundo e não explicavam que pai era aquele. Imagino que alguns dos jornalistas que estiveram na conferência de imprensa onde a campanha foi apresentada eram católicos praticantes e perceberam logo tudo e que os outros tiveram vergonha de perguntar para não lhes chamarem ateus, mas a verdade é que eu não sei de que pai estão a falar. Do Pai Eterno? Do pai, daquele que não costuma precisar de maiúscula? Do pai espiritual? Do Papa?» («As nove virtudes teologais», José Vítor Malheiros, Público, 12.05.2010, p. 41).
      E a frase está acaso descontextualizada? Não está inserida numa campanha? Se quase 90 % dos Portugueses se declaram católicos e a Igreja Católica não é proselitista, acho que não há problema nenhum. E, por outro lado, como se afere a eficácia de uma campanha: perguntamos aos colegas se perceberam? Perguntamos em casa, à nossa família?

[Post 3446]

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