Léxico: «baia»

Xó, quietos!


      Antes, as baias serviam apenas para separar as cavalgaduras nas cavalariças. Agora, por extensão de sentido, esta palavra com origem no quimbundo também significa as grades móveis de protecção que vemos todos os dias nas ruas: «O Terreiro do Paço, em Lisboa, reabriu ontem, depois de no sábado terem sido retiradas as baias (protecções portáteis) que cercavam a praça» («Terreiro do Paço reabriu ontem», Diário de Notícias, 3.5.2010, p. 20). «Depois de a empresa ter retirado as baias de protecção no último sábado, fonte da Sociedade Frente Tejo garantiu à agência Lusa que as obras agora terminadas não tiveram “acréscimo de custos, nem derrapagens”» («Terreiro do Paço reabre sem “derrapagens”», M. C., Metro, 3.5.2010, p. 5).

[Post 3441]

Concílio/consílio

Não para mim


      Cara Luísa Pinto: sempre vi «consílio» e não «concílio», e a explicação é simples: é o vocábulo que Camões usa na estância 20 do Canto I de Os Lusíadas: «Quando os Deuses no Olimpo luminoso,/Onde o governo está da humana gente,/Se juntam em consílio glorioso,/Sobre as cousas futuras do Oriente./Pisando o cristalino Céu fermoso,/Vêm pela Via Láctea juntamente,/Convocados, da parte de Tonante,/Pelo neto gentil do velho Atlante.» Assim, devemos identificar esse episódio como Consílio dos Deuses e não Concílio dos Deuses. Está nos dicionários: consílio é a «assembleia, reunião, comissão, conselho». Concílio sempre se reservou para denominar a reunião de autoridades da Igreja, convocada ou autorizada pelo papa, com o fim de tratar de assuntos relativos à fé, à moral e à disciplina. E, se há dicionários, como o Houaiss, que registam como acepção por extensão de sentido «conselho, assembleia, reunião», devemos evitar referi-la ao episódio da epopeia camoniana. É por isso que lamento que o «livro de apoio didáctico» Para uma Leitura de Os Lusíadas de Luís de Camões, de Silvério Benedito (Queluz de Baixo: Editorial Presença, 4.ª ed., 2008, p. 94), tenha vindo legitimar essa confusão, afirmando «Concílio (ou Consílio) dos deuses no Olimpo».

[Post 3440]

Léxico: «desgravar»

Está mal


      «Este tipo de software [como o Verbatim]», afirmou o jornalista António Granado na emissão de hoje do programa Este Tempo, na Antena 1, «este tipo de desenvolvimentos que estão a ser feitos para que o computador entenda a linguagem humana pode trazer coisas muito interessantes, como, por exemplo, uma questão que, digamos, seria aquilo que todos os jornalistas um dia gostariam que acontecesse, que é, por exemplo, haver algum programa que nos desgravasse as entrevistas.»
      Desgravar, no sentido de passar para escrito uma gravação feita em suporte magnético ou digital, é termo da gíria jornalística que apenas o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista. O jornalista não deveria ter usado o termo. Só António Macedo, já António Granado se tinha ido embora, percebeu isso, tendo explicado o significado.

[Post 3439]

Léxico: «pluma»

Lanças na mão, a pluma ao vento


      «O céu da Itália permanece hoje coberto com a nuvem de cinzas, pelo que as autoridades temem que surjam problemas no tráfego aéreo. “Toda a Itália está apanhada pela pluma”, referiu ontem o meteorologista Emídio Sancho» («Cinzas ameaçam viagem do Papa», J. S., Correio da Manhã, 9.5.2010, p. 8).
      O Eyjafjallajökull — e os jornais começaram a grafar correctamente o nome — continua a preocupar toda a Europa. Não é a primeira vez que leio, relacionada com este mesmo vulcão, a palavra pluma, de que nenhum dicionário regista a acepção aqui usada. Parece-me ser mera tradução do inglês plume: «an elongated and usually open and mobile column or band (as of smoke, exhaust gases, or blowing snow)» (in Merriam-Webster). É isso mesmo: nós não dizemos «coluna»?

[Post 3438]

Léxico: «vuvuzela»

Mais barulho


      No noticiário das 15 horas na Antena 1, o jornalista André Silva, em reportagem junto ao Estádio da Luz, «a perceber o ambiente nestas horas que antecedem esse grande jogo» Benfica-Rio Ave, entrevistou um adepto: «E para já com ambiente de festas, é. Os adeptos vão acorrendo até ao Estádio da Luz. Muitos também transportados em autocarros. Há alguns que vêm de bem longe, da Régua, é o caso, e também equipado a rigor com uma vuvuzuela. Para quem não sabe, a vuvuzela é um instrumento que vai ser usado muito no Campeonato do Mundo.» Não se ficou a perceber nada. A vuvuzela é uma corneta de plástico que emite sons semelhantes ao barrido de elefantes enfurecidos. É ruidosa (mais do que as buzinas pneumáticas?), e começou por fazer parte dos hábitos dos adeptos de futebol na África do Sul, mas agora vai-se alargando a todo o mundo. Aliás, embora controversa, a origem do termo é seguramente da língua zulo. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, único que regista o vocábulo, di-lo proveniente do inglês, mas, se for, essa é somente a língua que mediou a entrada no português. Nem o Dicionário Houaiss o regista, mas curiosamente, regista vu-vu, dando esta definição: «instrumento de percussão de origem africana usado nos ranchos de reis que parece fazer soar como repetição da sílaba vu».

[Post 3437]

Tradução

Gospodi!


      Valha-me Deus! O pior que pode acontecer ao leitor de qualquer obra, mas especialmente de uma obra literária, é deter-se a pensar como podia estar melhor. Nas traduções, é o pão nosso de cada dia. Posso contar pelos dedos das duas mãos as que já li sem me deter a pensar na impropriedade de um termo, na incorrecta conjugação verbal, num qualquer erro. Para um revisor, ou, pelo menos, para mim, é mesmo uma maldição, e penso mesmo que acabo por tirar menos prazer da leitura do que os comuns leitores. Na tradução de que ontem aqui comecei a falar, isso acontece com uma frequência desusada. Às vezes, são pequenas coisas. Por exemplo, neste passo: «Tinha de a proteger exactamente daquilo que ela procurava desesperadamente: a assim chamada ajuda do meu pai» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 139). No original está so-called, é isso? E não havia melhor tradução? Formas de dizer pouco portuguesas não faltam, e repetidas: «No entanto, virtualmente, todos os russos acreditava [sic] nelas porque eram contadas e recontadas, ouvidas e de novo ouvidas — e, por isso, ninguém punha em dúvida a autenticidade delas» (idem, ibidem, p. 222). «Ali, diante de mim, enterrada numa cave perdida de Petrogrado, estavam cerca de trinta homens e mulheres, todos vestidos com longas túnicas brancas de linho e virtualmente nada mais, nada de calças, nada de vestidos, nada de sapatos ou botas» (idem, ibidem, p. 272). «Bem, isso era um assunto para os grão-duques seniores, compreende, os tios do czar» (idem, ibidem, p. 246). «Um dos nossos vizinhos poderia ter feito aquela sujeira. Alguém podia ter comprado uma grande peça de carne fresca e levado a arrastar para casa, provavelmente um quarto traseiro de boi» (idem, ibidem, p. 69). Irritante, uma forma, com demasiadas ocorrências, tão nacional de assentir como «absolutamente»: «— Sim, absolutamente — respondi, sem pensar» (idem, ibidem, p. 259). Para além, e já aqui vimos exemplos, de erros ortográficos e gramaticais.

[Post 3436]

Ortografia: «malsonante»

Malcontente estou


      «Como eu detestava o modo como ela, como toda a gente, andava em bicos de pés à volta do nosso apelido mal sonante» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 109).
      Há, escusado será dizê-lo, questões linguísticas de difícil resolução. Neste caso, bastava o tradutor (e o revisor?) ter consultado um vulgar dicionário: malsonante ou malsoante.
      O apelido malsonante era Rasputine: «Não saberiam eles que o nome Rasputine não derivava de rasputnik — pessoa debochada, dissoluta, imoral —, mas rasputiie — intersecção de estradas, encruzilhada?» (idem, ibidem, p. 109).

[Post 3435]

A baixo/abaixo

Altos e baixos


      «Dunia tinha obviamente trabalhado arduamente depois de sairmos, não só assegurando que as senhoras partiam sem problemas — talvez tivesse chamado um dos peões delas para as acompanhar —, mas preparando o nosso apartamento para o dia seguinte, quando uma nova horda de devotos e de gente à procura do meu pai fizesse fileira à porta, escadas a baixo» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Oscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 74).
      Lá está a fileira, algo incomum. Mais à frente, um erro: escadas a baixo. Lembram-se do poema de Fernando Venâncio? Sim, esse: «Escada acima,/Escada abaixo,/Rua afora,/Mar adentro.» É pena não figurar nos manuais escolares. Nesta tradução, os mesmos erros repetem-se: «Estava a lamentar-se por isso... ou por me ter usado e mentido quando viajámos pelo rio Tura a cima naquele belo dia de Verão e depois ter conduzido a assassina potencial do meu pai até ele?» (idem, ibidem, p. 77). «Tirei-lhe o casaco do ombro esquerdo, deslizei-o pelo braço a baixo e puxei-o bruscamente por cima da mão, depois de ter passado a ferida» (idem, ibidem, pp. 78-79). «Abriu então a porta das traseiras e enfiou-se pelas escadas escuras e estreitas a baixo com a mesma facilidade que uma marmota-preta da Sibéria se esgueira pelo seu buraco de gelo» (idem, ibidem, p. 90).

[Post 3434]

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