Léxico: «vuvuzela»

Mais barulho


      No noticiário das 15 horas na Antena 1, o jornalista André Silva, em reportagem junto ao Estádio da Luz, «a perceber o ambiente nestas horas que antecedem esse grande jogo» Benfica-Rio Ave, entrevistou um adepto: «E para já com ambiente de festas, é. Os adeptos vão acorrendo até ao Estádio da Luz. Muitos também transportados em autocarros. Há alguns que vêm de bem longe, da Régua, é o caso, e também equipado a rigor com uma vuvuzuela. Para quem não sabe, a vuvuzela é um instrumento que vai ser usado muito no Campeonato do Mundo.» Não se ficou a perceber nada. A vuvuzela é uma corneta de plástico que emite sons semelhantes ao barrido de elefantes enfurecidos. É ruidosa (mais do que as buzinas pneumáticas?), e começou por fazer parte dos hábitos dos adeptos de futebol na África do Sul, mas agora vai-se alargando a todo o mundo. Aliás, embora controversa, a origem do termo é seguramente da língua zulo. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, único que regista o vocábulo, di-lo proveniente do inglês, mas, se for, essa é somente a língua que mediou a entrada no português. Nem o Dicionário Houaiss o regista, mas curiosamente, regista vu-vu, dando esta definição: «instrumento de percussão de origem africana usado nos ranchos de reis que parece fazer soar como repetição da sílaba vu».

[Post 3437]

Tradução

Gospodi!


      Valha-me Deus! O pior que pode acontecer ao leitor de qualquer obra, mas especialmente de uma obra literária, é deter-se a pensar como podia estar melhor. Nas traduções, é o pão nosso de cada dia. Posso contar pelos dedos das duas mãos as que já li sem me deter a pensar na impropriedade de um termo, na incorrecta conjugação verbal, num qualquer erro. Para um revisor, ou, pelo menos, para mim, é mesmo uma maldição, e penso mesmo que acabo por tirar menos prazer da leitura do que os comuns leitores. Na tradução de que ontem aqui comecei a falar, isso acontece com uma frequência desusada. Às vezes, são pequenas coisas. Por exemplo, neste passo: «Tinha de a proteger exactamente daquilo que ela procurava desesperadamente: a assim chamada ajuda do meu pai» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 139). No original está so-called, é isso? E não havia melhor tradução? Formas de dizer pouco portuguesas não faltam, e repetidas: «No entanto, virtualmente, todos os russos acreditava [sic] nelas porque eram contadas e recontadas, ouvidas e de novo ouvidas — e, por isso, ninguém punha em dúvida a autenticidade delas» (idem, ibidem, p. 222). «Ali, diante de mim, enterrada numa cave perdida de Petrogrado, estavam cerca de trinta homens e mulheres, todos vestidos com longas túnicas brancas de linho e virtualmente nada mais, nada de calças, nada de vestidos, nada de sapatos ou botas» (idem, ibidem, p. 272). «Bem, isso era um assunto para os grão-duques seniores, compreende, os tios do czar» (idem, ibidem, p. 246). «Um dos nossos vizinhos poderia ter feito aquela sujeira. Alguém podia ter comprado uma grande peça de carne fresca e levado a arrastar para casa, provavelmente um quarto traseiro de boi» (idem, ibidem, p. 69). Irritante, uma forma, com demasiadas ocorrências, tão nacional de assentir como «absolutamente»: «— Sim, absolutamente — respondi, sem pensar» (idem, ibidem, p. 259). Para além, e já aqui vimos exemplos, de erros ortográficos e gramaticais.

[Post 3436]

Ortografia: «malsonante»

Malcontente estou


      «Como eu detestava o modo como ela, como toda a gente, andava em bicos de pés à volta do nosso apelido mal sonante» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 109).
      Há, escusado será dizê-lo, questões linguísticas de difícil resolução. Neste caso, bastava o tradutor (e o revisor?) ter consultado um vulgar dicionário: malsonante ou malsoante.
      O apelido malsonante era Rasputine: «Não saberiam eles que o nome Rasputine não derivava de rasputnik — pessoa debochada, dissoluta, imoral —, mas rasputiie — intersecção de estradas, encruzilhada?» (idem, ibidem, p. 109).

[Post 3435]

A baixo/abaixo

Altos e baixos


      «Dunia tinha obviamente trabalhado arduamente depois de sairmos, não só assegurando que as senhoras partiam sem problemas — talvez tivesse chamado um dos peões delas para as acompanhar —, mas preparando o nosso apartamento para o dia seguinte, quando uma nova horda de devotos e de gente à procura do meu pai fizesse fileira à porta, escadas a baixo» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Oscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 74).
      Lá está a fileira, algo incomum. Mais à frente, um erro: escadas a baixo. Lembram-se do poema de Fernando Venâncio? Sim, esse: «Escada acima,/Escada abaixo,/Rua afora,/Mar adentro.» É pena não figurar nos manuais escolares. Nesta tradução, os mesmos erros repetem-se: «Estava a lamentar-se por isso... ou por me ter usado e mentido quando viajámos pelo rio Tura a cima naquele belo dia de Verão e depois ter conduzido a assassina potencial do meu pai até ele?» (idem, ibidem, p. 77). «Tirei-lhe o casaco do ombro esquerdo, deslizei-o pelo braço a baixo e puxei-o bruscamente por cima da mão, depois de ter passado a ferida» (idem, ibidem, pp. 78-79). «Abriu então a porta das traseiras e enfiou-se pelas escadas escuras e estreitas a baixo com a mesma facilidade que uma marmota-preta da Sibéria se esgueira pelo seu buraco de gelo» (idem, ibidem, p. 90).

[Post 3434]

«Bichas», «filas» e «fileiras»

Fileira de postes


      Já aqui falámos de filas e de bichas. Esquecemo-nos das fileiras: «Já havia fileira do lado de fora da nossa porta e as pessoas iam sendo autorizadas a entrar uma a uma, fazendo-se humildes diante do padre Grigori e pedindo para encostar os lábios delas na sua mão imunda» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 151). Também há uma ou duas filas: «Penetrei por uma pequena porta traseira numa álea escura que conduzia directamente ao palácio, onde encontrei uma fila de umas trinta ou quarenta almas desamparadas e cheias de frio» (idem, ibidem, p. 163). Mas só uma bicha, na peixaria: «Felizmente, não há-de haver bichas como na semana passada.» (idem, ibidem, p. 203). A preferência do tradutor, Óscar Mascarenhas, vai mesmo para fileira: «série de pessoas, animais ou objectos dispostos em linha, fila, linha, renque» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

[Post 3433]

Ortografia: «schoenstattiano»

Como os garrettianos


      «No dia da celebração dos 50 anos da presença do Movimento de Schoenstatt em Portugal, a 18 de Abril, em Fátima, o P.e Diogo Barata lançou três desafios aos jovens schoenstatteanos a cumprir até 2060: vocações para todos os ramos de Schoenstatt; um santo schoenstatteano português canonizado e tomar de assalto Portugal.»
      O 2.º §, al. c) da Base V do Acordo Ortográfico de 1990 determina o seguinte: «Escrevem-se com i, e não com e, antes da sílaba tónica/tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos de i pertencente ao tema: horaciano, italiano, duriense, flaviense, etc.): açoriano, acriano (de Acre), camoniano, goisiano (relativo a Damião de Góis), siniense (de Sines), sofocliano, torriano, torriense [de Torre(s)]». Veja-se o caso, idêntico ao que tratamos agora, de garrettiano, de Garrett.

[Post 3432]

Converso/convertido

Para evitar confusões


      Anteontem, também na Antena 1, foi entrevistado Gonçalo Cadilhe, o jornalista trota-mundos, que falou da vontade do presidente da Guiné Equatorial, Obiang Nguema, de o país vir a pertencer à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Mesmo que só tenha três falantes de português... Foi neste contexto que, sem nunca mencionar o nome de João Ferreira de Almeida (1628–1691), afirmou que este «converso ao protestantismo» traduziu a Bíblia para português. Na verdade, só traduziu parte, mas não é essa a questão. É verdade que converso é tanto o serventuário de convento, não professo, como o que se converteu a outra religião, mas, em determinados contextos, é preferível reservar o vocábulo para a primeira acepção e usar convertido para a segunda.

[Post 3431]

Léxico: «rapista»

Eles é que sabem

      Na Antena 1, acabo de ouvir um responsável do Rock in Damaia — não conheciam a iniciativa? Qualquer semelhança com o Rock in Rio é mera coincidência — afirmar que iriam ter a actuação de rapistas. Reparem: os do meio já dizem rapista e não rapper.

[Post 3430]

Arquivo do blogue