«Bichas», «filas» e «fileiras»

Fileira de postes


      Já aqui falámos de filas e de bichas. Esquecemo-nos das fileiras: «Já havia fileira do lado de fora da nossa porta e as pessoas iam sendo autorizadas a entrar uma a uma, fazendo-se humildes diante do padre Grigori e pedindo para encostar os lábios delas na sua mão imunda» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 151). Também há uma ou duas filas: «Penetrei por uma pequena porta traseira numa álea escura que conduzia directamente ao palácio, onde encontrei uma fila de umas trinta ou quarenta almas desamparadas e cheias de frio» (idem, ibidem, p. 163). Mas só uma bicha, na peixaria: «Felizmente, não há-de haver bichas como na semana passada.» (idem, ibidem, p. 203). A preferência do tradutor, Óscar Mascarenhas, vai mesmo para fileira: «série de pessoas, animais ou objectos dispostos em linha, fila, linha, renque» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

[Post 3433]

Ortografia: «schoenstattiano»

Como os garrettianos


      «No dia da celebração dos 50 anos da presença do Movimento de Schoenstatt em Portugal, a 18 de Abril, em Fátima, o P.e Diogo Barata lançou três desafios aos jovens schoenstatteanos a cumprir até 2060: vocações para todos os ramos de Schoenstatt; um santo schoenstatteano português canonizado e tomar de assalto Portugal.»
      O 2.º §, al. c) da Base V do Acordo Ortográfico de 1990 determina o seguinte: «Escrevem-se com i, e não com e, antes da sílaba tónica/tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos de i pertencente ao tema: horaciano, italiano, duriense, flaviense, etc.): açoriano, acriano (de Acre), camoniano, goisiano (relativo a Damião de Góis), siniense (de Sines), sofocliano, torriano, torriense [de Torre(s)]». Veja-se o caso, idêntico ao que tratamos agora, de garrettiano, de Garrett.

[Post 3432]

Converso/convertido

Para evitar confusões


      Anteontem, também na Antena 1, foi entrevistado Gonçalo Cadilhe, o jornalista trota-mundos, que falou da vontade do presidente da Guiné Equatorial, Obiang Nguema, de o país vir a pertencer à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Mesmo que só tenha três falantes de português... Foi neste contexto que, sem nunca mencionar o nome de João Ferreira de Almeida (1628–1691), afirmou que este «converso ao protestantismo» traduziu a Bíblia para português. Na verdade, só traduziu parte, mas não é essa a questão. É verdade que converso é tanto o serventuário de convento, não professo, como o que se converteu a outra religião, mas, em determinados contextos, é preferível reservar o vocábulo para a primeira acepção e usar convertido para a segunda.

[Post 3431]

Léxico: «rapista»

Eles é que sabem

      Na Antena 1, acabo de ouvir um responsável do Rock in Damaia — não conheciam a iniciativa? Qualquer semelhança com o Rock in Rio é mera coincidência — afirmar que iriam ter a actuação de rapistas. Reparem: os do meio já dizem rapista e não rapper.

[Post 3430]

«Extracto/estrato»

Camadas de ignorância


      «Há bêbedos e drogados de todos os extractos sociais, tal como acontece com os empregados de escritório» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 319).
      De vez em quando, é útil lembrar aos tradutores e revisores estas lamentáveis confusões. Caramba, não tenham medo nem preguiça de usar os dicionários!

[Post 3429]

Tradução: «plan dur»

Escusado


      «Os paramédicos prenderam Baxter a um plan dur e levaram-no» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 273).
      O plan dur é o dispositivo utilizado em primeiros socorros que se vê na imagem. A tradução de uma obra destas não há-de ser fácil, convenhamos, com imensos termos médicos, mas neste caso uma breve pesquisa teria permitido concluir que em português se diz maca de imobilização. E mais: não se terá dado o caso de no original estar, por exemplo, não plan dur, mas long spine board? A avaliar pelo resultado final, a revisora não terá ajudado muito. Na página 218, por exemplo, usa-se desnecessariamente o vocábulo trenchcoat: «Daisy traz um trenchcoat de cabedal verde-escuro desapertado.»

[Post 3428]

Léxico: «enfermeira circulante»

Anda por ali


      «Do outro lado da mesa estão Emily, a [enfermeira] instrumentista, Joan, a enfermeira circulante, e Rodney, que parece um homem prestes a ser torturado» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 291).
      Em inglês diz-se circulating nurse, e é provável que seja a origem da designação em português. Para saberem mais sobre as funções e atribuições das enfermeiras circulantes, vejam aqui.

[Post 3427]

Léxico: «ambu»

É bom saber


      «Para monitorizar essa transferência, Strauss segura com a palma da mão um pequeno saco, o ambu, através do qual a respiração de Baxter irá passar» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 302).
      O ambu é um reanimador ventilatório manual como o da imagem, muito usado em ambiente pré-hospitalar e hospitalar. Alguns dicionários acolhem o vocábulo, mas com outras acepções: fruta silvestre do Brasil e árvore que dá esse fruto. Foi por derivação imprópria que se chegou ao vocábulo, pois inicialmente era somente uma marca, Ambu.

[Post 3426]

Arquivo do blogue