«Ser preciso»

É igual


      «É precisa uma raça de adultos extraterrestres para desfazer a desordem geral e depois mandar toda a gente cedo para a cama» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 148).
      Aproveito para exemplificar com esta tradução, pois ainda anteontem me perguntaram: nas expressões ser preciso e ser necessário, o verbo fica na 3.ª pessoa do singular e o adjectivo no masculino singular ou, como se vê na citação, a concordar com o sujeito posposto? É indiferente.

[Post 3425]

O Opus Dei

Muito bem


      «“Os cristãos seguem o Papa com um tipo de seguimento que pode confundir ou desiludir a mentalidade moderna”, aponta Pedro Gil, director do gabinete de imprensa do Opus Dei, erigido por João Paulo II como prelatura pessoal, ou seja, que depende directamente do Papa» («Católicos conservadores na linha da frente do apoio ao Papa», Bárbara Wong, Público, 5.5.2010, p. 8).
      Ao contrário do que fazem no Diário de Notícias, no Público optam pelo género masculino, como tenho defendido.

[Post 3424]

Léxico: «fone»

Trabalham pouco


      «Os dois chineses que vão a andar na rua de mão dada estão ligados por um equipamento digital, tendo cada um um fone no ouvido para ouvir o discman» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 98).
       É mais uma redução, usada todos os dias, e ainda não chegou aos dicionários. Mesmo a acepção do Dicionário Houaiss é relativa somente ao telefone: «a peça do telefone que se leva ao ouvido; auscultador, auricular». Não sei se os Brasileiros usam o termo, mas já alguém nos dirá. Andamos numa fona de dicionário para dicionário e não encontramos nada. Esperem! O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora regista fone como tradução de earphone. Mais um erro: como é que o vocábulo é usado aqui e não está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da mesma editora?

[Post 3423]

Léxico: «maiores»

Vai-se ouvindo


      «Vai buscar o correio e os jornais à porta da frente e lê as maiores a caminho da cozinha» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 87).
      Não é um adjectivo, não: é um substantivo feminino plural (a par de maiores, substantivo masculino plural, a significar «ancestrais, antepassados; ascendência»), a significar o que toda a gente sabe. Não está, porém, registado em nenhum dicionário, e não será o seu uso informal, aqui trazido para a literatura por uma tradutora, que justifica tal ausência.

[Post 3422]

Dano-chinês ou dinamarco-chinês?

Estranhezas


      Escreve-me um leitor: «A minha dúvida de hoje é: como devo designar uma aliança entre a Dinamarca e a China? Dano-chinesa ou dinamarco-chinesa?»
      Ambas estão correctas. Contudo, para evitar a estranheza por parte do leitor, eu sugeria que não se usasse, embora correcta e registada em alguns dicionários, a forma truncada do adjectivo «dinamarquês». Logo, dinamarco-chinesa. E melhor ainda, tanto mais que a precedência verbal não indicia, não sugere nem cria precedência no mundo dos factos, o que no caso nem se aplica, pois trata-se de uma aliança, e também por ser mais eufónico, sino-dinamarquês. Tudo menos, como já vi, duas formas truncadas.

[Post 3421]

Ainda sobre «ebonite»

O mesmo material


      «Fez uma pequena incisão transversal na parte inferior do abdómen de Rosalind e, com duas tesouras cirúrgicas, retirou um pouco de gordura subcutânea que colocou numa ebonite» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 59).
      A tradutora e a revisora são as mesmas, só a época em que a história se passa é diferente: na década de 1930 aqui, em 2003 nesta. Continuo a crer que há aqui um problema lexicográfico, que talvez se pudesse contornar escrevendo «recipiente de ebonite». De qualquer modo, problema já do original, talvez o próprio material, como o leitor Paulo Araujo sugeriu, já nem sequer se use.

[Post 3420]

Léxico: «campo» e «pantofe»

De socas e pantofes


      «Seguindo as instruções do médico, colocou os campos esterilizados sobre o doente, prendendo-os nos apoios dos pantoffs» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 58).
      Para conhecermos esta acepção médica do vocábulo campo, é necessário consultar o Dicionário Houaiss: «peça estéril de tecido ou papel colocada sobre a pele que delimita a zona onde se realiza uma cirurgia». Quanto a pantoffs, fosse outro o tradutor e teríamos antes pantofes, pois é assim que se vê por todo o lado, como nesta dissertação, em que encontramos duas definições: «designação informal de candeeiros transportáveis para uso médico com braço tipo pantógrafo» e «focos locais direccionáveis para aplicações hospitalares».

[Post 3419]

«Ênfase» é do género feminino

Em todo o lado


      «— Tocámos coisas básicas, para abanar o capacete, quase tudo do Jimmy Reed. Sabes, como aquela... — Canta, com um ênfase irónico, um boogie tocado com o baixo, com a mão esquerda a fechar-se e a abrir-se, como se estivesse inconscientemente a prender as cordas. — Adoraram. Não nos deixaram tocar mais nada. Por acaso foi um bocado deprimente, porque não é nada daquilo que nós queremos. — Mesmo assim, a recordação leva-o a fazer um sorriso rasgado» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 48).
      Não é que nunca, valha-me Deus!, aqui tenha abordado a questão, mas fico sempre estupefacto quando vejo o erro: ênfase é do género feminino. Um tradutor pode ignorá-lo, mas nunca um revisor.

[Post 3418]

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