Dano-chinês ou dinamarco-chinês?

Estranhezas


      Escreve-me um leitor: «A minha dúvida de hoje é: como devo designar uma aliança entre a Dinamarca e a China? Dano-chinesa ou dinamarco-chinesa?»
      Ambas estão correctas. Contudo, para evitar a estranheza por parte do leitor, eu sugeria que não se usasse, embora correcta e registada em alguns dicionários, a forma truncada do adjectivo «dinamarquês». Logo, dinamarco-chinesa. E melhor ainda, tanto mais que a precedência verbal não indicia, não sugere nem cria precedência no mundo dos factos, o que no caso nem se aplica, pois trata-se de uma aliança, e também por ser mais eufónico, sino-dinamarquês. Tudo menos, como já vi, duas formas truncadas.

[Post 3421]

Ainda sobre «ebonite»

O mesmo material


      «Fez uma pequena incisão transversal na parte inferior do abdómen de Rosalind e, com duas tesouras cirúrgicas, retirou um pouco de gordura subcutânea que colocou numa ebonite» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 59).
      A tradutora e a revisora são as mesmas, só a época em que a história se passa é diferente: na década de 1930 aqui, em 2003 nesta. Continuo a crer que há aqui um problema lexicográfico, que talvez se pudesse contornar escrevendo «recipiente de ebonite». De qualquer modo, problema já do original, talvez o próprio material, como o leitor Paulo Araujo sugeriu, já nem sequer se use.

[Post 3420]

Léxico: «campo» e «pantofe»

De socas e pantofes


      «Seguindo as instruções do médico, colocou os campos esterilizados sobre o doente, prendendo-os nos apoios dos pantoffs» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 58).
      Para conhecermos esta acepção médica do vocábulo campo, é necessário consultar o Dicionário Houaiss: «peça estéril de tecido ou papel colocada sobre a pele que delimita a zona onde se realiza uma cirurgia». Quanto a pantoffs, fosse outro o tradutor e teríamos antes pantofes, pois é assim que se vê por todo o lado, como nesta dissertação, em que encontramos duas definições: «designação informal de candeeiros transportáveis para uso médico com braço tipo pantógrafo» e «focos locais direccionáveis para aplicações hospitalares».

[Post 3419]

«Ênfase» é do género feminino

Em todo o lado


      «— Tocámos coisas básicas, para abanar o capacete, quase tudo do Jimmy Reed. Sabes, como aquela... — Canta, com um ênfase irónico, um boogie tocado com o baixo, com a mão esquerda a fechar-se e a abrir-se, como se estivesse inconscientemente a prender as cordas. — Adoraram. Não nos deixaram tocar mais nada. Por acaso foi um bocado deprimente, porque não é nada daquilo que nós queremos. — Mesmo assim, a recordação leva-o a fazer um sorriso rasgado» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 48).
      Não é que nunca, valha-me Deus!, aqui tenha abordado a questão, mas fico sempre estupefacto quando vejo o erro: ênfase é do género feminino. Um tradutor pode ignorá-lo, mas nunca um revisor.

[Post 3418]

«Linha-férrea» e «via-férrea»?

Aqui na Terra


      «Penso por vezes como é que teria sido Einstein, sentado numa abafada repartição de registo de patentes a espreitar os comboios e a linha-férrea» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 99). «Uma cidade construída em lego numa área de 60 metros quadrados é outra das atracções, com edifícios residenciais, quartel dos bombeiros, estádio de futebol, hospital, praia, porto de pesca e comboios em movimento na linha férrea» («A Baixa lisboeta feita com legos está na Lourinhã», Público, 4.5.2010, p. 27).
      Só o Dicionário Houaiss regista linha férrea; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam apenas via-férrea. Será então por analogia que se escreverá linha-férrea. O hífen, neste caso, serve para conferir unidade semântica à expressão? Bem, quem defende isso serão os mesmos que defendem que se deve escrever Pai-Natal. (Afirmam que «aqui na Terra escreve-se Pai-Natal».)

[Post 3417]

Sobre «golfo»

Vale a pena pensar


      «Paula Mascarenhas, assessora do ministro dos Negócios Estrangeiros, explica a aposta. “Sabendo nós dos recursos de que dispõem, é de salientar que as nossas relações com países do golfo têm revelado um dinamismo significativo”» («Portugal abre embaixada em Abu Dhabi para atrair o investimento dos Emirados Árabes Unidos», Nuno Sá Lourenço, Público, 2.5.2010, p. 19). «Anteontem, as autoridades americanas impuseram uma interdição à pesca durante um mínimo de dez dias na zona afectada. Esta zona situa-se “entre as águas do estado do Luisiana, o delta do Mississípi, e as águas da baía de Pensacola, na Florida”» («BP garante que vai pagar todos os custos da maré negra do Golfo do México», Helena Geraldes, Público, 4.5.2010, p. 18).
      Já não digo correcto mas mais compreensível que fosse o oposto: países do Golfo e golfo do México. Estou mesmo tentado a classificar o primeiro como prosónimo. É que, quando se usa a primeira expressão, todos os falantes sabem que não se trata do golfo do México ou do golfo da Guiné: está lá em vez dos nomes dos países do golfo Pérsico: Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Omã, Qatar, Kuwait. (O Iraque e o Irão também fazem parte da região, mas não é neles que pensamos quando usamos a expressão, e não somos os únicos, pois estes dois países não integram o Conselho de Cooperação para os Estados Árabes do Golfo [CCEAG], por exemplo.) Quando se trata de acidentes geográficos, há quase sempre desastre nos jornais. O mesmo se passa, e com menos desculpas, nos livros, pois os revisores curiosos também não são muito dados a reflexões.

[Post 3416]

Sobre «colapso» e «colapsar»

Sim e não


      Ao programa n.º 77 de Em Nome do Ouvinte chegou mais uma queixa relativa ao uso da língua: «Ao ouvir as notícias sobre o recente terremoto em Port-au-Prince, no Haiti, notei o uso de termos como “colapsado” e “colapsou” em referência a edifícios que ruíram. Tal atropelo do português não é aceitável. A palavra “colapso” não dá origem ao verbo “colapsar” nem a “colapsado”. Tal acontece em inglês, o que leva a crer que se fez uma tradução literal de textos escritos nessa língua. Seria importante manter os padrões linguísticos no que é uma emissora de referência.»
      Alguns dicionários, porém, acolhem tudo — ou quase tudo, deixando de fora termos, acabámos de ver, que deviam acolher, como «antrópico». É precisamente o caso do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que dá como sentido figurado de colapsar («o ouvinte de Lisboa, jornalista da imprensa escrita», não tem razão, e foi pena a Prof.ª Regina Rocha não o ter dito) «perder a coesão; desintegrar-se; desmoronar-se», o que constitui um anglicismo semântico. Como também o é o «sentido figurado» de «queda repentina» de colapso, registado pelo mesmo dicionário. Assim, não é de surpreender que os tradutores não pensem muito quando têm de traduzir: «Fiquei particularmente preocupado com o súbito colapso da ponte na estrada interestadual 35W, no meu Estado natal do Minnesota, porque era uma ponte que eu tinha atravessado centenas de vezes na minha juventude» (Quente, Plano e Cheio, Thomas L. Friedman. Tradução de Carla Pedro e revisão de Marta Pereira da Silva e Almerinda Romeira. Lisboa: Actual Editora, 2008, p. 28).

[Post 3415]

Léxico: «antrópico»

Incompreensível


      «Talvez isto seja semelhante ao princípio antrópico, mas sou uma mulher e após uma vida de experiência sei que sou capaz de tudo o que os homens conseguem fazer, excepto coisas que exijam especificamente um pénis (mijar de pé)» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 345). «O facto de ser ele e não outra pessoa é puramente arbitrário e envolve um princípio antrópico» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 27).
      Dificilmente se compreende que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e sobretudo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registem o adjectivo antrópico. Afinal, é um termo que está bem formado e vem sendo usado desde a segunda metade do século XIX. Definição do Dicionário Houaiss: «Relativo ou pertencente ao homem ou ao seu período de existência na Terra; relativo à acção do homem; relativo às modificações provocadas pelo homem no meio ambiente.»

[Post 3414]

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