«Linha-férrea» e «via-férrea»?

Aqui na Terra


      «Penso por vezes como é que teria sido Einstein, sentado numa abafada repartição de registo de patentes a espreitar os comboios e a linha-férrea» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 99). «Uma cidade construída em lego numa área de 60 metros quadrados é outra das atracções, com edifícios residenciais, quartel dos bombeiros, estádio de futebol, hospital, praia, porto de pesca e comboios em movimento na linha férrea» («A Baixa lisboeta feita com legos está na Lourinhã», Público, 4.5.2010, p. 27).
      Só o Dicionário Houaiss regista linha férrea; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam apenas via-férrea. Será então por analogia que se escreverá linha-férrea. O hífen, neste caso, serve para conferir unidade semântica à expressão? Bem, quem defende isso serão os mesmos que defendem que se deve escrever Pai-Natal. (Afirmam que «aqui na Terra escreve-se Pai-Natal».)

[Post 3417]

Sobre «golfo»

Vale a pena pensar


      «Paula Mascarenhas, assessora do ministro dos Negócios Estrangeiros, explica a aposta. “Sabendo nós dos recursos de que dispõem, é de salientar que as nossas relações com países do golfo têm revelado um dinamismo significativo”» («Portugal abre embaixada em Abu Dhabi para atrair o investimento dos Emirados Árabes Unidos», Nuno Sá Lourenço, Público, 2.5.2010, p. 19). «Anteontem, as autoridades americanas impuseram uma interdição à pesca durante um mínimo de dez dias na zona afectada. Esta zona situa-se “entre as águas do estado do Luisiana, o delta do Mississípi, e as águas da baía de Pensacola, na Florida”» («BP garante que vai pagar todos os custos da maré negra do Golfo do México», Helena Geraldes, Público, 4.5.2010, p. 18).
      Já não digo correcto mas mais compreensível que fosse o oposto: países do Golfo e golfo do México. Estou mesmo tentado a classificar o primeiro como prosónimo. É que, quando se usa a primeira expressão, todos os falantes sabem que não se trata do golfo do México ou do golfo da Guiné: está lá em vez dos nomes dos países do golfo Pérsico: Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Omã, Qatar, Kuwait. (O Iraque e o Irão também fazem parte da região, mas não é neles que pensamos quando usamos a expressão, e não somos os únicos, pois estes dois países não integram o Conselho de Cooperação para os Estados Árabes do Golfo [CCEAG], por exemplo.) Quando se trata de acidentes geográficos, há quase sempre desastre nos jornais. O mesmo se passa, e com menos desculpas, nos livros, pois os revisores curiosos também não são muito dados a reflexões.

[Post 3416]

Sobre «colapso» e «colapsar»

Sim e não


      Ao programa n.º 77 de Em Nome do Ouvinte chegou mais uma queixa relativa ao uso da língua: «Ao ouvir as notícias sobre o recente terremoto em Port-au-Prince, no Haiti, notei o uso de termos como “colapsado” e “colapsou” em referência a edifícios que ruíram. Tal atropelo do português não é aceitável. A palavra “colapso” não dá origem ao verbo “colapsar” nem a “colapsado”. Tal acontece em inglês, o que leva a crer que se fez uma tradução literal de textos escritos nessa língua. Seria importante manter os padrões linguísticos no que é uma emissora de referência.»
      Alguns dicionários, porém, acolhem tudo — ou quase tudo, deixando de fora termos, acabámos de ver, que deviam acolher, como «antrópico». É precisamente o caso do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que dá como sentido figurado de colapsar («o ouvinte de Lisboa, jornalista da imprensa escrita», não tem razão, e foi pena a Prof.ª Regina Rocha não o ter dito) «perder a coesão; desintegrar-se; desmoronar-se», o que constitui um anglicismo semântico. Como também o é o «sentido figurado» de «queda repentina» de colapso, registado pelo mesmo dicionário. Assim, não é de surpreender que os tradutores não pensem muito quando têm de traduzir: «Fiquei particularmente preocupado com o súbito colapso da ponte na estrada interestadual 35W, no meu Estado natal do Minnesota, porque era uma ponte que eu tinha atravessado centenas de vezes na minha juventude» (Quente, Plano e Cheio, Thomas L. Friedman. Tradução de Carla Pedro e revisão de Marta Pereira da Silva e Almerinda Romeira. Lisboa: Actual Editora, 2008, p. 28).

[Post 3415]

Léxico: «antrópico»

Incompreensível


      «Talvez isto seja semelhante ao princípio antrópico, mas sou uma mulher e após uma vida de experiência sei que sou capaz de tudo o que os homens conseguem fazer, excepto coisas que exijam especificamente um pénis (mijar de pé)» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 345). «O facto de ser ele e não outra pessoa é puramente arbitrário e envolve um princípio antrópico» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 27).
      Dificilmente se compreende que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e sobretudo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registem o adjectivo antrópico. Afinal, é um termo que está bem formado e vem sendo usado desde a segunda metade do século XIX. Definição do Dicionário Houaiss: «Relativo ou pertencente ao homem ou ao seu período de existência na Terra; relativo à acção do homem; relativo às modificações provocadas pelo homem no meio ambiente.»

[Post 3414]

Sobre «preservativo»

Camisinha


      «Aliete Cunha-Oliveira e outros investigadores escreveram num artigo que a palavra “preservativo” é demasiado erudita. “Não será por acaso que os brasileiros utilizam o termo ‘preservativo’ nas comunicações e nos trabalhos científicos, mas privilegiam a designação ‘camisinha’ para as mensagens preventivas.” Em 2000, a CNLS promoveu um spot que utilizava “camisinha”: “Usa sempre camisinha, não ponhas em risco a tua vida e a dos outros.” Mas foi passageiro. A palavra “preservativo” prevaleceu, mas transmite “a ideia de intrusão da medicina e dos cuidados profilácticos no terreno da intimidade”» («À procura de um slogan para o preservativo», Raquel Ribeiro, Pública, 2.5.2010, p. 60).
      Num mundo feito de linguagem, há palavras que matam. Ainda assim, talvez, neste caso, se esteja a sobrestimar a linguagem. A informação só passa pela linguagem?

[Post 3413]

Neologismo: «telepatar»

Mais um


      «— Deseja saber se a mistura lhe permitirá telepatar?» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 109).
      Nem em inglês nem em português o verbo existe (mas em francês, sim: télépather). Estão dicionarizados e usam-se telepata, telepatia e telepático, mas telepatar faz falta. Pelo menos na tradução desta obra fez falta. Talvez nunca os índices de frequência venham a ser suficientes para convencer os dicionaristas a incluírem-nos nos dicionários.

[Post 3412]

Ortografia: «Zona Euro»

Pois, pois


      Qual é o «jornal de referência»?
      «A ajuda financeira da zona euro à Grécia far-se-á segundo as condições da Alemanha, ou não se fará: Angela Merkel, chanceler alemã, não o disse nestes termos, mas foi isso que aconteceu desde que o cenário de um socorro a Atenas se impôs na agenda» («Grécia vai receber ajuda da zona euro nas condições da Alemanha», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 2.5.2010, p. 12).
      «A inflação homóloga na Zona Euro manteve-se estável em Fevereiro, nos 3,2%, segundo a estimativa rápida divulgada ontem pelo gabinete de estatísticas das Comunidades Europeias, Eurostat» («Inflação da Zona Euro mantém-se estável nos 3,2%», Meia Hora, 4.3.2008, p. 9).
      «O Banco Central Europeu (BCE) decidiu ontem manter a taxa de juro de referência da Zona Euro nos quatro por cento» («BCE mantém taxa de juro nos quatro por cento», Metro, 7.3.2008, p. 5).

[Post 3411]

Tradução: «heating/chauffage»

Ao lado


      «Uma sensação de frio, mais intensa do que o aquecedor do carro» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 279).
      Se com aquecedor a tradutora pretende traduzir o termo inglês heating, acho que a opção não foi a melhor. Temos sorte, eu sei (mas nunca esta tradutora faria isso), de não ter traduzido, como já tenho visto, um vocábulo inglês com um galicismo: chauffage. Deveria, contudo, ter optado por «aquecimento» em vez de «aquecedor».

[Post 3410]

Noutra obra inglesa, leio esta frase: «The heater hummed as a creeping snowfall came down.» A tradutora quis que fosse isto: «A calafetagem emitia um sussurro enquanto caía uma neve progressiva.»

Arquivo do blogue