Luisiana/Louisiana

Vamos ver


      «Depois da Luisiana, a Florida também declarou o estado de emergência devido à maré negra que cresce no golfo do México. O petróleo, que ontem já tinha alcançado a costa dos Estados Unidos, pondo em perigo espécies que vivem em vários parques naturais, levou a Casa Branca a banir novas explorações petrolíferas no mar até que sejam averiguadas as causas deste desastre» («Estado de emergência na Luisiana e na Florida após petróleo ter alcançado a costa», Nicolau Ferreira, 1.5.2010, Público, p. 19). Vamos ver se se mantém esta forma de escreverem o topónimo (e o género). Não acredito, claro. «O antigo congressista democrata do estado do Louisiana, William Jefferson, foi condenado a 13 anos de prisão num processo de corrupção que as autoridades descreveram como o “mais extenso de sempre” no Congresso norte-americano» («Antigo congressista do Louisiana condenado a 13 anos por corrupção», Público, 15.11.2009, p. 15).

[Post 3405]

Sangue-frio/sangue quente

Um pouco cruento


      Leonete Botelho, jornalista do Público, escreve hoje que o «primeiro-ministro foi ontem ao Parlamento defender que, perante os “ataques especulativos que nada na economia portuguesa justifica”, é preciso manter o “sangue frio e nervos de aço”, como dizia Guterres, e continuar fiel aos seus planos». Sendo assim, o título só podia ser, a toda a largura da página 6, «Sangue frio, nervos de aço e obras públicas». Há-de ser porque Nuno Ribeiro, na página 18, falou da violência contra as mulheres («Mais violência contra as mulheres no Centro e Norte da Europa do que no Sul»), concluindo: «“A ideia do ‘sangue quente’ dos países meridionais não se confirma, afinal não passa de um mito”, sintetiza ao PÚBLICO José Sanmartín, director do IRCS [Centro Rainha Sofia].» Estes erros sistemáticos estão na massa do sangue do Público, essa é que é essa.

[Post 3404]

Como se escreve nos jornais

O preconceito de corrigir


      No Público de hoje, a jornalista Clara Barata continua a afirmar que Gordon Brown chamou preconceituosa — ui, que insulto! — a Gillian Duffy: «O primeiro-ministro trabalhista, apesar de no dia anterior ter sido arrasado pela gaffe de ter sido ouvido a chamar “preconceituosa” a uma eleitora idosa, até se aguentou — embora sem brilho» («Cameron arrasa Brown no último debate a uma semana das eleições», Clara Barata, Público, 30.4.2010, p. 18). Na edição de anteontem do El País, traduzia-se por «fanática»: «Y la conversación reflejó la otra cara de Brown. “Ha sido un desastre. No me teníais que haber puesto en esa situación. ¿De quién ha sido idea?”, dice, con aire más deprimido que airado. “Qué mujer tan fanática”, concluye Brown en un tono muy despectivo.»

[Post 3403]

Como se escreve nos jornais

O desnorte ortográfico


      «Nick Clegg, o líder dos liberais-democratas, o terceiro homem que foi o factor surpresa da campanha, foi sempre furando entre Cameron e Brown, olhando as câmaras de frente, colocando-se como o verdadeiro representante do povo, entre “estes dois”. Resultado, segundo a sondagem YouGov para a SkyNews: ficou em segundo, com 32 por cento das preferências dos eleitores» («Cameron arrasa Brown no último debate a uma semana das eleições», Clara Barata, Público, 30.4.2010, p. 18).
      No Público tem sido assim: ora Liberais Democratas, ora liberais-democratas, ora lib-dem, ora libdem. O desnorte completo. Cá estamos nós, leitores, para pagar.

[Post 3402]

«Sua Alteza»?

Vossa Esperteza


      «Saiba vossa majestade/quem é Genebra Pereira/que sempre quis ser solteira/por mais estado de graça.» É um excerto do monólogo da feiticeira — cuidado!, agora tem de se antepor sempre a precauciosa palavrinha «alegada», pois apenas dizem que era feiticeira — Genebra Pereira, do auto vicentino Fadas. Ao que parece, esta forma de tratamento, vossa majestade, era pouco comum na primeira metade do século XVI, época em que ainda continuava, depois de séculos a usar-se, Vossa Mercê, que depois se estendeu a qualquer membro da pequena burguesia urbana — e, por fim, foi parar, através do você, à estrebaria. Isto é mero intróito para falar de uma questão relacionada com formas de tratamento no último romance histórico de Isabel Stilwell, D. Amélia — A Rainha Exilada Que Deixou o Coração em Portugal (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2.ª ed., 2010. Revisão de Lídia Freitas e Sofia Graça Moura). Numa cena (p. 327) que decorre no dia 13 de Janeiro de 1891, por exemplo, D. Amélia está acompanhada de uma das suas damas, a duquesa de Palmela, Helena Maria Domingas de Sousa Holstein. E D. Carlos aparece:
      «— Boa tarde, Helena.
      A duquesa de Palmela levantou-se e cumprimentou-o.
      — Estava já a sair, Sua Alteza.»
      E é assim na obra toda: Sua Alteza para aqui, Sua Alteza para acolá. Primeira questão: a forma de tratamento por alteza não se aplica somente a príncipes, arquiduques e duques? Ora, D. Carlos, que tinha sido príncipe real e duque de Bragança, com a morte do pai, o rei D. Luís, fora aclamado rei de Portugal a 28 de Dezembro de 1889. Como soberano, tinha direito a ser tratado, e sê-lo-ia decerto, por majestade. Segunda questão: porque é que a autora não respeitou a distinção entre tratamento directo e tratamento indirecto? Estando a dirigir-se directamente ao rei, a duquesa de Palmela deveria ter dito Vossa Majestade. Se se estivesse a referir, numa conversa com terceiros, ao rei, deveria usar a forma de tratamento indirecto, dizendo então Sua Majestade.

[Post 3401]

Formação


Curso de Técnicas de Revisão


      Nos dias 14, 16, 21, 23, 28 e 30 de Junho, voltarei a estar na Booktailors, ao Chiado, como docente de Técnicas de Revisão (terceiro curso de formação intermédia). Se quiser aparecer (há lanchinho no intervalo), inscreva-se. Mais informações aqui.

[Post 3400]

Léxico: «eneacampeonato»

Não pensem nisso


      «“Para mim, é complicado. Prefiro dizer nove seguidos.” O espanhol Pedro Gil, melhor marcador do campeonato de hóquei em patins, ainda tem problemas com a palavra eneacampeão» («O eneacampeonato entrou no vocabulário corrente do FC Porto», Manuel Assunção, Público, 29.4.2010, p. 36).
      Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora já regista pentacampeão e pentacampeonato, não vejo como possa deixar de acolher eneacampeão e eneacampeonato — embora desnecessariamente, pois trata-se tão-somente de juntar os antepositivos penta- e enea- a outros elementos. Com este último, os dicionários registam um pouco mais de uma dúzia de vocábulos. Imaginem agora o que seria despejar nos dicionários, por exemplo, todos os termos criados ultimamente com recurso ao antepositivo mega-, como mega-acontecimento, mega-aliança, megabanco, megabarragem, megabuzinão, megacampanha, megacentral, megacentro, megachurrasco, megaconcerto, megaempreendimento, megaerupção, megaescultura, megaevento, megaêxito, megaexposição, megafesta, megafestival, megafundo, megaigreja, megajantar, megajunta, megaleilão, megamissa, meganavio, meganegócio, megaobras, megaofensiva, megaoperação, megarrastreio, megarrebelião, megarrusga, megassucesso, todos eles usados na imprensa.

[Post 3399]

«Educação» ‘vs.’ «instrução»

Rochdale


      «Uma viúva ofendida por ter sido insultada pelo primeiro-ministro. Pior: uma senhor idosa, obviamente de pouca educação, que nem sequer sabe o significado da palavra que o político, “um homem educado”, usou para a ofender. Foi isto o principal acontecimento do dia do primeiro-ministro britânico Gordon Brown, ao chamar “mulher preconceituosa” a uma viúva de 66 anos que tinha acabado de o interpelar, quando já ia dentro do carro — e levava o microfone de uma televisão na lapela ainda ligado» («Gordon Brown insulta viúva em gaffe de campanha», Clara Barata, Público, 29.4.2010, p. 17).
      Será que Gillian Duffy, a viúva insultada por Gordon Brown, tem pouca educação ou pouca instrução? (A propósito: a tradução de Clara Barata é incompreensível e paradoxalmente disfemística, pois bigoted woman, que foi o comentário do primeiro-ministro da Grã-Bretanha, é muito mais depreciativo.) Há múltiplas relações entre os termos, incluindo de sinonímia parcial, mas é claro que é de instrução que se trata. A Clara Barata sabia que o primeiro ministério, criado em 1870, durante um governo presidido pelo duque de Saldanha, inteiramente vocacionado para as questões da instrução se denominava Ministério dos Negócios da Instrução Pública? Claro que à actual pedagogia do sucesso interessa muito mais o conceito mais holístico de «educação»...

[Post 3398]

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