«Essencialmente»

Doce engano


      Tinha de desbastar nas centenas de advérbios em –mente, e que descobri eu? Não querem saber? Então adeus! Já que pedem: a definição do advérbio essencialmente no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora deixa muito a desejar. Apenas isto: «por natureza» e «por condição». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acha (às 17.24) que não precisamos de saber. Imaginem agora, para não ser muito rebuscado, que alguém estava a referir os novos saberes apontados pelo relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, da Unesco, presidida por Jacques Delors, e queria resumi-los, escrevendo: «Esses novos saberes devem, essencialmente, valer para a pessoa, etc.» Qual das acepções foi aqui usada? Nenhuma! Compulsem então o Dicionário Houaiss e consultem o respectivo verbete: «naquilo que é mais importante, essencial; na essência; basicamente, fundamentalmente». Todos os dicionários são iguais?

[Post 3397]

«Submetível»?

Nada obsta


      Aborrecível, abrangível, absorvível, aferível... existem? Sim, e estão regularmente formados, pois o sufixo –ível foi aplicado a verbos da 2.ª e da 3.ª conjugações. O «exemplário», como refere o Dicionário Houaiss, é muito rico, passa das quatro centenas. Esta é uma tarefa do dia-a-dia do revisor e do tradutor: averiguar se determinada palavra está bem formada e pode ser usada. Na revisão de uma dissertação que me está a ocupar há muitos dias, a autora usou «submetível», que nenhum dicionário regista e pouca gente usa. Por enquanto, é caso para dizer, pois nada o impede.
      Escrevi «dissertação», mas a autora (e a orientadora, vejo aqui nas anotações manuscritas) chama-lhe «tese». Ora, trata-se de um mestrado, e a legislação aplicável distingue entre «tese de doutoramento» e «dissertação de mestrado». Que nos pode dizer Fernando Ferreira sobre a distinção?

[Post 3396]

Arrendar e alugar, outra vez

Não me impressiona


      «Ainda hoje», comentou aqui o leitor Fernando Ferreira, «na rubrica Bom Português da RTP, a frase “Tenho uma casa para alugar” era considerada errada. No entanto, a verdade é que já muitos dicionários (Porto Editora, Priberam, etc.) consideram “alugar” como sinónimo de “arrendar”, e definem “aluguer” como um “contrato de locação de uma coisa móvel ou imóvel”. Tendo em conta os milhares de anúncios “Aluga-se” que particulares e agências imobiliárias têm espalhado pelo país em lojas, apartamentos e vivendas, penso que é esta a opção correcta, porque já não há maneira de voltar atrás. O que pensa o Helder?»
      Penso que devemos lutar responsavelmente por manter a distinção, como também o deveremos fazer em relação a mandato/mandado, réu/arguido, entre outras. É verdade, como eu próprio referi há quase três anos, que a distinção, consagrada no Art.º 1023.º do Código Civil, não serve as mudanças entretanto ocorridas na sociedade, mas a norma legal ainda não foi alterada. Deverão ser os dicionários, que acolhem e propagam tantos erros, a fazê-lo? Até porque os dicionários não viriam, neste caso, antecipar-se ou forçar uma alteração legislativa, nada de veleidades, mas antes consagrar, como o fazem, erradamente, em relação a outros conceitos, erros muitos comuns.

[Post 3395]

«Quando muito»

Muito comum


      «Cerca de 50 pessoas ali permaneciam com esperanças que algo mudasse, e logo se percebeu que não tinham soluções para chegar a Lisboa. Uns quantos fizeram-se a pé pelos passeios da Marginal. Não iriam longe, talvez para o Estoril, quanto muito até São João, outros quedavam-se junto aos semáforos, e acercando-se da janela do pendura, perdiam a vergonha: “O senhor desculpe, vai para Lisboa?”» («“O senhor desculpe, vai para Lisboa?”», Carlos Filipe, Público, 28.4.2010, p. 21).
      É uma expressão quantitativa e escreve-se quando muito, ou seja, «no máximo».

[Post 3394]

Ortografia: «criptoprovedor»

Nada críptico


      «Bem sei que a Lusa se restringe aos factos (e que o texto da notícia contém tudo o que precisamos de saber) mas, sem querer armar-me em cripto-provedor, o “ex-cabo nazi” dá a ideia dele ter deixado de ser nazi e o “fundou culto no Chile” tem um toque triunfalista que, para quem não lê os corpos das notícias, atira para segundo ou terceiro plano o facto de ter abusado sexualmente de 25 crianças, graças ao “culto” que fundou» («Uma vergonha», Miguel Esteves Cardoso, Público, 27.4.2009, p. 39).
      Miguel Esteves Cardoso deveria ter escrito criptoprovedor, pois o elemento de formação de palavras cripto- só se liga por hífen ao segundo elemento quando este começa por h. Então o Miguel já não se lembra dos criptopórticos? E o criptopórtico das Galerias Romanas da Rua da Prata?

[Post 3393]

Português-padrão

Ai, credo!


      Nos Dias do Avesso de hoje, Isabel Stilwell descobriu algo de crucial: ela pronuncia /consâilho/ e Eduardo Sá pronuncia /consêlho/. Esta é que é a verdadeira fractura social entre nós. Os lisboetocêntricos decretaram que só a primeira pertence ao português-padrão, e um dia, se puderem, levam (ou já levaram?) isto para a escrita, e então é que os outros ficarão, mesmo sem abrirem a boca, expostos no seu falar dialectal. Não vejo melhor motivo para uma guerra civil.

[Post 3392]

Ordinal de 5000 milhões

Ordem!

      A pergunta de um leitor é muito sucinta: «Como se escreve o ordinal de 5000 milhões?» Há-de ser por extenso que o leitor pretende saber, pois abreviado é demasiado simples: 5000 000 000.º Por extenso, e quase todas as gramáticas ignoram esta questão, é quinto milésimo milionésimo. Não perguntei ao leitor para que queria saber, mas podia muito bem tratar-se de uma aposta.

[Post 3391]

Conceitos

Não me arrependo


      Podemos arrepender-nos por faltas cometidas por terceiros? Podem os Alemães, por exemplo, estar arrependidos por Hitler ter mandado matar milhões de judeus? Há jornalistas do Público que pensam que sim: «O ministro dos Negócios Estrangeiros, David Miliband, declarou-se, segundo o seu gabinete, “horrorizado” e o embaixador britânico no Vaticano, Francis Campbell, encontrou-se com responsáveis da Santa Sé para apresentar as desculpas de Londres. Face ao incidente, segundo a edição on-line do Times, conselheiros do Papa estarão já arrependidos de o líder católico ter aceite o convite para visitar o país» («Gaffe obriga Londres a pedir desculpas ao Vaticano», João Manuel Rocha, Público, 26.4.2010, p. 14).
      Como as cerejas... Na Sic Notícias, Ana Lourenço, quando se despede dos entrevistados, agradece sempre com um «obrigada por ter aceitado», e se se engana corrige. Mário Crespo diz sempre «ter aceite».

[Post 3390]

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