Verbo «sociabilizar»

Incompleto


      «Nenhum de nós tentou sair do nosso canto e juntarmo-nos aos outros: não sou muito boa a sociabilizar e muitas vezes ofendo as pessoas por acidente; não sei qual era a razão de Burlem — talvez simplesmente ainda não tivesse sido ofendido por mim» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 27).
      É mais um problema lexicográfico: somente o Dicionário Houaiss apresenta o verbo sociabilizar como transitivo e pronominal — tornar(-se) social, reunir(-se) em sociedade, em grupos —, o que de facto é, ao contrário de outros, como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ou o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Imagino que possa ser um obstáculo de monta para o falante menos habituado a consultar dicionários.

[Post 3381]

Tradução

De férias no Rio


      «“Precisas de cair na real, Nick”, disse-lhe Brown referindo-se à proposta dos lib-dem de não renovar o sistema de armas nucleares Trident.» Quem escreveu esta frase foi a jornalista do Público Ana Fonseca Pereira, num artigo («Debate renhido mantém corrida eleitoral a três», p. 18) sobre o segundo debate da campanha eleitoral britânica. A pergunta é óbvia: a jornalista não tinha uma forma portuguesa de traduzir a frase? Nem é preciso supor que em inglês é ou deixa de ser to face the truth, pois percebe-se a ideia. Não teria sido melhor optar por «desça à Terra» ou «enfrente as coisas»?

[Post 3380]

Abreviatura de «superintendente»

Tem lá em casa


      Uma bancária brasileira, Luciane Bassoli de Assunção, queria saber qual a abreviatura de «superintendente». E, como estava em maré de pedir, ainda acrescentou: «Vocês têm um dicionário geral de abreviaturas para me enviar?» Ora, no Brasil há muito melhores dicionários de abreviaturas do que em Portugal, que eu já aqui divulguei. O especialista em abreviaturas do Ciberdúvidas, D´Silvas Filho, não conhecia, mas recomendou: «Sugiro Superint. para superintendente; sempre se evitam algumas letras. Para colectânea de abreviaturas, recomendamos o Anexo muito completo do VOLP da sua Academia, com o título “Reduções mais correntes”.»
      No Dicionário de Abreviaturas publicado pela Prefeitura da cidade de São Paulo, que se pode descarregar aqui, indica-se Suprint, sem ponto de abreviação. Sugiro, corrigindo esta forma, Suprint., com ponto. (Aqui encontra uma lista de abreviaturas para a língua espanhola.)

[Post 3379]

«Não» como elemento de formação

Ontem e hoje


      Só nas edições de ontem e de hoje, e apenas no caderno principal e sem considerar flexões e repetições, veja-se quantas vezes e com que vocábulos se usou o advérbio não como elemento de formação no jornal Público. Sem critério, a eito, é o que se pode concluir.


  1. «“Limitei-me a analisar o que me pediam para analisar”, adiantou o advogado, acrescentando que nunca perguntou a Rui Pedro Soares “com que vestes” lhe pedia aquele parecer, se como administrador executivo da PT, se como administrador não-executivo da Taguspark» («Paulo Penedos garante ter agido sempre a pedido de Rui Pedro Soares», Ana Brito, Público, 22.4.2010, p. 6).

  2. «“O chefe de Estado deve receber tanto o líder tibetano como qualquer outro líder religioso católico ou não-católico, visto até do campo da cidadania. No entanto, não tem de haver um distanciamento devido ao princípio da laicidade. Por isso, defendemos que o Presidente da República deve acompanhá-lo somente na posição de chefe de Estado”, esclareceu [Joffre Justino, presidente da Academia de Estudos Laicos e Republicanos]» («Laicos pedem a Cavaco que veja Papa só como estadista», Tânia Marques, Público, 22.4.2010, p. 9).

  3. «Devem, no entanto, respeitar algumas regras, como a não-discriminação na atribuição dessas ajudas» («Comissão Europeia pondera auxílio financeiro», Raquel Almeida Correia, Público, 22.4.2010, p. 14).

  4. «As características construtivas e de equipamento que vão ser utilizadas na sua recuperação colocam as novas unidades de alojamento na gama média-alta da oferta de hotelaria não-convencional, inseridas na área do turismo de natureza» («Onze escolas abandonadas de Odemira serão transformadas em alojamento turístico», Carlos Dias, Público, 22.4.2010, p. 26).

  5. «Mas aquele incêndio, um sério revés, foi também um sinal da urgência do trabalho que estava e continua a ser realizado por esta organização não-governamental ligada geneticamente aos holandeses da Fundação Transumância e Natureza que, em 2000, começou a comprar terrenos nas freguesias de Algodres e Vale Afonsinho para criar uma área para a conservação das aves rupícolas» («Aqui está a nascer a primeira reserva natural privada em Portugal», Abel Coentrão, Público, 22.4.2010, p. 44).

  6. «O diploma aprovado ontem em Conselho de Ministros agrava a tributação das mais-valias mobiliárias, mas mantém as actuais isenções aos contribuintes não-residentes em Portugal e das cúpulas dos grupos económicos, por onde passa parte significativa desses rendimentos» («Grandes grupos económicos vão ficar isentos das mais-valias», João Ramos de Almeida, Público, 23.4.2010, p. 2).

  7. «“Não vigora nenhum regulamento discriminatório deste tipo”, esclarecia ontem o BE, frisando que a câmara aprovou, em 17 de Fevereiro, “um novo regulamento para habitação social, utilizando critérios de igualdade, sem qualquer artigo discriminatório de cidadãos não-nacionais, em conformidade com os princípios constitucionais”» («Governo promete acabar com discriminação de imigrantes no acesso à habitação social», Filomena Fontes, Público, 23.4.2010, p. 12).

  8. «E alertava para uma situação paradoxal: enquanto perto de 39 mil pessoas com patologias não-prioritárias conseguiram ser operadas em menos de sete dias, cerca de dez mil doentes com cancro (que deve ser prioritário) tinham sido tratados após os prazos definidos para as cirurgias» («Em 2008, 233 doentes morreram antes da operação», A. C., Público, 23.4.2010, p. 14).

  9. «“É urgente confrontá-lo com a posição dos diversos grupos parlamentares, assim permitindo que o seu isolamento se evidencie”, sublinham os comunistas, que lamentam que o PS tenha inviabilizado a votação de um diploma que determinava a não-consideração dos efeitos da avaliação de desempenho como critério na elaboração da lista de graduação nacional dos professores» («Peso da avaliação para os professores contratados discutido hoje no Parlamento», Graça Barbosa Ribeiro, Público, 23.4.2010, p. 15).
[Post 3378]

«À contracorrente»

Ainda ontem


      «Na verdade, os vinhos de Colares não foram “relançados”: uma expressão de marketing que tanto insulta a teimosia e a lealdade artesanal da Adega Regional de Colares como a ousadia contra-corrente da Fundação Oriente. Isto sem falar nas Adegas Beira ou no espólio vinícola da Viúva Gomes» («Colares a dançar», Miguel Esteves Cardoso, Público, 22.4.2010, p. 39).
      Escreve-se contracorrente, o revisor do Público tinha obrigação de estar ao corrente. E mesmo assim, «ousadia contracorrente»? Apesar da imprevisibilidade do mundo actual, na gramática ainda se espera que a qualificar um substantivo surja um adjectivo ou uma locução. Ei-la: à contracorrente. Outra vez: «Na verdade, os vinhos de Colares não foram “relançados”: uma expressão de marketing que tanto insulta a teimosia e a lealdade artesanal da Adega Regional de Colares como a ousadia à contracorrente da Fundação Oriente. Isto sem falar nas Adegas Beira ou no espólio vinícola da Viúva Gomes.»

[Post 3377]

Siglas e acrónimos

Reciclem-se


      «Porém, as análises revelaram a concentração desta toxina em níveis superiores ao que está legalmente estabelecido pela agência de segurança alimentar europeia (EFSA). Os únicos e raros casos (terão sido apenas duas das amostras analisadas) encontravam-se na receita da broa, com milho, segundo nota Cristina Matos, do Instituto Superior de Engenharia do Porto» («Estudo confirma presença de toxina no pão e revela amostras de broa que ultrapassaram limites legais», Andrea Cunha Freitas, Público, 22.4.2010, p. 10).
      O leitor fica com a ideia de que EFSA se desdobra no nome da instituição que se lê antes: agência de segurança alimentar europeia. Sendo assim, porém, este tinha de ser grafado com maiúsculas iniciais. Ora, a verdade é que esta instituição se chama Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (AESA). Quem ganha com esta distorção? Ninguém. E há o oposto disto, de que já aqui dei conta: «Tratamento de águas residuais: processo que torna as águas residuais aptas, de acordo com as normas de qualidade em vigor ou outras aplicáveis para fins de reciclagem ou reutilização. Considera-se apenas o tratamento efectuado nas Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR).» No desdobramento de uma sigla ou acrónimo, só se tem de usar maiúsculas se estiverem envolvidos nomes próprios ou topónimos. Este é um erro que vejo todos os dias.

[Post 3376]

Acordo Ortográfico

Ciberduvidoso

      Uma consulente do Ciberdúvidas, professora, tem dúvidas sobre a grafia do vocábulo «espectador» segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990, afirmando que articula o c. Os consultores, que ultimamente respondem aos pares, respondem que esta palavra passará a ter duas grafias: espetador e espectador. E acrescentam: «Em Portugal, contudo, a questão só quando o AO estiver em vigor poderá levantar-se; por enquanto, escreve-se apenas espectador.» Mas não está já em vigor, depois da ratificação por três Estados do Acordo Ortográfico e do Segundo Protocolo Modificativo? Ou vamos passar a destrinçar «em vigor» de «mesmo em vigor»?
      Para se redimirem, os consultores ainda advertem: «Assinale-se que a pronúncia-padrão desta palavra em português europeu é “espètador”, sem articulação de [k]».

[Post 3375]

«Bispo-auxiliar»?

Trabalhar para o bispo


      «‘There are a lot of divisions in society along racial and ethnic lines, even among our Catholics’, says Bishop Barry Wood, auxiliary bishop of the Archdiocese of Durban.» Estava aqui sossegadinho a traduzir um texto de que faz parte a frase acima e lembrei-me logo disto: «D. Carlos Azevedo, bispo-auxiliar de Lisboa, garante que não haverá problemas de segurança na celebração da missa no Terreiro do Paço, em Lisboa, a 11 de Maio, durante a visita do Papa a Portugal» («Afastados problemas de segurança», Correio da Manhã, 8.4.2010, p. 21). O que é que este auxiliar tem de diferente de adjunto? Nada. Por isso, também não tem de se usar hífen a unir as palavras. E eles sabem.

[Post 3374]

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