Tradução: «facilities»

Facilitismos


      «Os pisos superiores são dedicados aos quartos. Cada um deles, incluindo os standard, disponibilizam diversas facilidades, mas o que realmente os distingue é o facto de todos eles serem diferentes — não há um único igual, apesar de haver coisas em comum: são bastante espaçosos, uma das paredes é forrada com papel com motivos de época, outra pintada com uma cor diferente mas harmoniosa e o resto respeita a traça original, com a pedra granítica à vista» («Caminho de Santiágua», Paulo Rolão, Evasões/Global Notícias, 21.4.2010, p. 9).
      Mais um falso cognato com lugar garantido nos dicionários de língua portuguesa. No caso, foi Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que regista o plural facilidades com a acepção «comodidades». Sendo assim, porque não traduzir facilities por comodidades? Se não há uma só palavra para traduzir as várias acepções do termo inglês, dependendo do contexto, neste caso parece estar encontrada.

[Post 3373]

Pronúncia

Psst, garçon


      «O nome correcto do vulcão é Eyjafjallajokull e não Eyjafjalla, como por vezes tem aparecido escrito. A explicação foi-nos dada por Ása Kolka, do gabinete de informação da Universidade da Islândia. O vulcão está por baixo de um glaciar, como muitos outros vulcões da Islândia. Alguns desses vulcões têm um nome próprio, diferente do do glaciar, mas este não. O nome do glaciar e do vulcão são o mesmo: Eyjafjallajokull. Eyja significa ilha, fjalla significa montanhas e jokull é glaciar. Logo, para quem não conseguir pronunciar Eyjafjallajokull, o melhor é dizer que é o vulcão que fica no glaciar das montanhas que ficam perto das ilhas. Obrigada, senhora Kolka» («Cinzas do Eyjafjallajokull mantêm-se sobre a Europa, Atlântico e Canadá», Nicolau Ferreira, Público, 20.4.2010, p. 14).
      Felizmente, na rádio e na televisão os jornalistas não são obrigados a pronunciar o nome do vulcão. Afinal, com palavras bem mais simples eles se atrapalham ou erram. Ainda na semana passada, Mário Crespo entrevistou no Jornal das 9 Fernando Fragoso Marques, candidato a bastonário da Ordem dos Advogados. Às tantas, falou-se do juiz espanhol Baltasar Garzón, de quem Fragoso Marques é amigo. Nunca Mário Crespo pronunciou o nome de outra forma que não /Garçon/.

[Post 3372]

Léxico: «cardiogénico»

Isso pensam eles


      «O médico frisou a gravidade da situação em que se encontra o ex-presidente do COI, revelando que a equipa teme pela vida de Samaranch desde que este foi internado. “Vinte minutos depois de ter dado entrada, sofreu um choque cardiogénico”, revelou o médico» («Médicos temem pela vida de Juan Antonio Samaranch, presidente honorário do Comité Olímpico Internacional», Tiago Pimentel, Público, 20.4.2010, p. 35).
      Só o Dicionário Houaiss nos salva da ignorância (se formos ignorantes em relação ao latim). Cardiogénico significa que tem origem no coração ou que resulta de uma doença ou distúrbio do coração. Tanto o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acham que não precisamos de saber.

[Post 3371]

Média/“media”

Mera distracção


      Viva!, o Público aderiu ao plural anómalo: «O jornal lançado em Maio do ano passado vive um momento conturbado. Depois dos donos do título terem assumido, em Março, que poderiam deixar a área dos média, e de buscas até aqui infrutíferas por um investidor que comprasse o i, na semana passada o fundador e director Avillez Figueiredo deixou o cargo, após ter-lhe sido exigido que aplicasse uma redução de custos que “irremediavelmente desfiguram o projecto”» («Director do Grande Porto assume interinamente a direcção do jornal i», Abel Coentrão, Público, 20.4.2010, p. 12).
      Esperem... Foi distracção: «Essa informação é transmitida para centros em todo o mundo, que aplicam um modelo informático para traçar os mapas que nos últimos dias têm sido divulgados nos media» («Cientistas realçam incerteza dos riscos, transportadoras querem voltar a voar», Clara Barata, Público, 20.4.2010, p. 3).

[Post 3370]

Léxico: «sintónico»

Em sintonia


      Há palavras, exemplarmente bem-comportadinhas, que nunca saíram do dicionário. Alguém já tinha visto por aí a palavra «sintónico»? Encontrei-a hoje, por aí perdida: «Mas mais uma vez — e isso é recorrente há dois séculos — se viu como fazer da América Latina um todo sintónico e fecundo é como arar o mar.» (Era, era mesmo Simão Bolívar [1783–1830] que costumava dizer que fazer a revolução na América era como arar o mar.)


[Post 3369]

Redundância

Escreva, releia e mande


      «Mas é verdade que, de quando em quando, há formas de anticlericalismo que regressam. Aconteceu agora mais uma vez e por causa de um pretexto totalmente artificial: a “tolerância de ponto” concedida aos funcionários públicos no dia da visita do Papa» («Laico dos laicos», Pedro Lomba, Público, 20.4.2010, p. 38).
      «Por causa de um pretexto»? Causa é razão, como razão é pretexto, senhor colunista. Não é redundância sem desculpa, senhor jurista? Vamos lá apurar a escrita. «Aconteceu agora mais uma vez e sob um pretexto totalmente artificial».

[Post 3368]

Iliteracia

Incómodos


      Um condómino, subdirector de um banco (e é o menos importante aqui no prédio), afixou um papel no átrio a pedir desculpa pelo «incómado» das obras que vai fazer no andar. Mas este, apesar da licenciatura no ISCTE e das pós-graduações, é um pobre diabo, que pouco incomodará o mundo com os seus escritos. Pior são os jornalistas, alguns jornalistas. Há um, esqueci-me agora do jornal para que trabalha, a quem se corrige sistematicamente «prelogamento», «prelongado», «prelongar». Há-de ser como os pasteleiros, que, fartos dos cheiros e da visão diária dos bolos, não provam o que fazem.

[Post 3367]

Léxico: «violista»

Vê-se e lê-se pouco


      Daqui a meia hora não sei, mas neste preciso momento o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista o vocábulo violista. Como pode isto ser?
      «Foi a tia [do fadista Ricardo Ribeiro] que o levou até à Académica da Ajuda, “a colectividade lá no bairro”. E foi aí que cantou pela primeira vez, sob o olhar crítico do violista, o Ti’ Zé Bola, que, quando o viu, disse: “Ai, ai, ai... lá estão a meter as criancinhas a cantar.” Surpresa, Ti’ Zé! “Ele acabou por ser das pessoas que mais me ensinou.”» («Tudo isto é fado», Bruno Martins, Metro, 20.4.2010, p. 6).

[Post 3366]

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