Léxico: «banco de neve»

Mais um depósito


      «Inquietar-se, concentrar-se, ler, olhar, desejar — tudo eram coisas a evitar em favor de um lento impulso de associação, enquanto os minutos se acumulavam como um banco de neve e o silêncio se adensava à sua volta» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 175).
      Bancos há muitos, como já aqui vimos. Esta obra até tem mais um: «Determinou-se que havia luz suficiente das estrelas e do banco de nuvens que reflectia as luzes da cidade mais próxima» (ibidem, idem, p. 197). À conta do banco de neve, descobri aqui um Glossário Internacional de Hidrologia multilingue. É mais um recurso para tradutores e revisores.

[Post 3356]

Sobre «escada»

A subir


      Como se sabe, usa-se indiferentemente escada ou escadas quando dizemos, por exemplo, «desci a escada»/«desci as escadas». Ontem de manhã, a minha filha, que tem 3 anos, contou-me um sonho (há seis meses que começou a contar-me os sonhos) que teve. Contou-mo três vezes seguidas. Como acontece muitas vezes, quis certificar-se de que a ouvira bem, pelo que tive de repetir, também eu, alguns trechos. «Sim, desceste as escadas, ias sozinha...» «“Escadas”, não; “escada”.» Com excepção do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, nenhum outro se refere ao uso do plural, que é corrente e está legitimado, ao que me parece, pela etimologia. Relacionada também com escada, há também uma expressão curiosamente elíptica, que algumas pessoas evitam. Ei-la: «Briony, por seu lado, subiu a escada a dois e dois, cheia de energia pelo seu sentimento do dever e de fazer bem, prestes a fazer uma surpresa que só lhe podia granjear elogios» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 204). E já que derivei outra vez para esta obra, outra palavra relacionada: «Mostrou o bilhete e mergulhou naquela luminosidade amarela e suja até chegar às escadas-rolantes que começaram a transportá-la para baixo e a fazê-la mergulhar naquela brisa artificial que vinha da penumbra, da respiração de um milhão de londrinos, e que lhe refrescava o rosto e lhe fazia abanar a capa» (ibidem, idem, p. 393). Nenhum dicionário regista esta grafia com hífen, mas nem tradutora nem revisora quiseram saber destes pormenores.

[Post 3355]

«Pôr em xeque»

Ainda pior


      «— E se te lembrares seja do que for em relação ao Danny Hardman, onde é que ele estava, o que estava a fazer e quando, se mais alguém o viu, tudo o que possa pôr o álibi dele em cheque, também quero saber isso» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 390).
      Digo outra vez: por vezes, é difícil perceber o que fez o revisor numa obra. Esta é um desses casos. Então a expressão não é pôr em xeque?

[Post 3354]

Ortografia: «pé-de-galinha»

Ruga no canto do olho


      «A dureza do seu olhar era nova, e os seus olhos estavam mais pequenos, mais estreitos e com pés de galinha bem vincados aos cantos» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 386).
      Por vezes, é difícil perceber o que fez o revisor numa obra. Este é um desses casos. Então não há pés de galinha e pés-de-galinha? Outra palavra que nunca é grafada com hífen é meia-volta, erro comum a dezenas e dezenas de obras.

[Post 3353]

Léxico: «ebonite»

Falta de definição


      «Mandaram-na a outra enfermaria com uma pinça e uma ebonite para tirar os estilhaços da perna de um aviador» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 338).
      Desde o século XIX que se usa o termo em Portugal. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, dá esta definição: «substância dura, negra, obtida por vulcanização da borracha, com 30 a 50% de enxofre, utilizada na indústria eléctrica e na confecção de vários objectos; ebanite, vulcanite». Todos os dicionários, mesmo os de língua inglesa, registam algo semelhante. Qual é o problema? É simples: a definição devia incluir os objectos, para diversos fins, feitos deste material. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.)

[Post 3352]

Tradução: «impassivity»

Demasiado simples


      Não há sábado sem sol, domingo sem missa, segunda sem preguiça nem obras sem erros. Conheciam este provérbio? Inventei-o agora mesmo, inspirado pela leitura desta frase: «Só isto despertou Cecilia da sua impassividade» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 376).
      Então ao estado do que é ou está impassível não se dá o nome de impassibilidade? Impassividade é a adaptação do vocábulo inglês impassivity. Seria, neste caso, necessário lançar mão deste recurso? É claro que não.

[Post 3351]

«Não-intervenção»

Em 1938


      «“Os não-praticantes portaram-se mal”» (Correio da Manhã, 7.4.2010, p. 50). O revisor antibrasileiro resmungou ao ler o título e disse que dantes não se via o advérbio não ligado por hífen nem a adjectivos nem a substantivos. Tudo começou, acrescentou, ufano, com «não-alinhado». Lembrei-me agora deste solilóquio ao ler, no jornal que já hoje aqui citei, este título: «A não-intervenção». Na notícia lia-se que «o “Times” prevê que Barcelona rejeitará o plano britânico para a retirada dos voluntários, assim como a proposta para a neutralização de Almeria». Não-intervenção, em 1938.

[Post 3350]

«Volta da França»

Quero saber


      Há dias, a propósito da crase, referi aqui a expressão «Volta a França». Agora, com um exemplar do jornal A Capital, datado de 8 de Julho de 1938, à minha frente, leio na página 3 o seguinte: «A “Volta da França”, em bicicleta». Nela dava-se conta de que a quarta etapa tinha sido ganha pelo belga Félicien Vervaecke (no final, ficaria em 2.º da geral) e usa-se sempre a expressão «Volta da França». Como se evoluiu de Volta da França para Volta a França? E quando se deu esta mudança? Há muito a descobrir nas hemerotecas.

Actualização no mesmo dia

      Um leitor fez-me chegar o seguinte comentário, que constitui um importante contributo para esta reflexão: «1. Tour de France (Faire le Tour de France) terá sido vertido directamente, tintim por tintim, para português: Volta da França.
      2. Mas volta em português (em francês não) também significa regresso e podia prestar-se a confusões.
      3. Além disso, enquanto os franceses dizem “faire le tour de...” no sentido de percorrer, circundar, etc., nós dizemos “dar a volta a...” (à arena, ao quarteirão, ao país, ao texto...)
      4. Donc... os ciclistas dão a volta a França.
      Agora, se me perguntar quando é que se deu a transmutação, eu tenho de meter a viola no saco e deixar-me de dar palpites, porque não sei. Só posso conjecturar que quem primeiro utilizou a fórmula “Volta da França” não soubesse francês. Hélas!»


[Post 3349]

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