Variante «alcaxe»

Fala o marinheiro


      Quando um dia aqui disse, a pedido de um leitor, como se chama a gola postiça, com listas em volta, que sai do decote da blusa dos marinheiros e abre sobre o peito, outro leitor, Alfredo Caiano Silvestre, escreveu num comentário que estava convencido de que era alcaxe. Eu tinha referido três variantes, as que encontrei dicionarizadas: alcaxa, alcaixa e alcachaz. Hoje encontrei um texto em que se usa a variante indicada pelo leitor: «Numa caserna, depois do banho de chuveiro foi a vez de envergarmos o uniforme, para isso tivemos que ser auxiliados com o “alcaxe” e a “manta de seda”. Pronto! Estávamos em uniforme. Não aquele uniforme azul ou branco, consoante a época do ano, mas sim o uniforme de cotim cinzento, nada elegante[,] conhecido pelo “Fato de Alumínio”» («A minha instrução de recruta», Ramiro Bandeira Martins, Combatente, Dezembro de 2009, p. 49).

[Post 3311]

Verbo «haver»

Sr. presidente


      A Associação de Pais do Agrupamento de Escolas de Sernancelhe (APAES) defende nota máxima para metade dos alunos de Ciências Naturais do 3.º Ciclo, que estiveram sem professora desde o início do ano. João Aguiar, presidente da associação, afirmou ao repórter Jorge Bastos, da Antena 1: «Não acha também que é muito injusto no século XXI haverem crianças que não tenham aulas durante o 1.º período e 2.º período de Ciências Naturais?» O repórter tinha perguntado: «Se dar 3 e 4 não se justifica porque não houve aulas, dar nota máxima justifica-se?» O entrevistado usou ainda seis vezes a palavra «crianças» para se referir aos alunos. Aposto que nenhum dos alunos, e não me refiro apenas aos que vão armados de pistolas, facas e soqueiras para a escola, gostaria de ser assim considerado. Com a definição de bebé também os falantes, mesmo os jornalistas, não se entendem.

[Post 3310]

Pronúncia: «penhora»

Penhoras e GNR


      Nas notícias das 8 da manhã na Antena 1, Fausto Coutinho, editor de economia, falou das penhoras feitas este fim-de-semana pela Segurança Social, e pronunciou a palavra com o fechado: /penhôra/. Ora, os dicionários são unânimes na indicação daquele o como aberto. Não estará o jornalista a confundir o vocábulo com outro semelhante, penhor, esse sim com o o fechado, /penhôr/?
      Quase a propósito: não é raro a palavra composta comando-geral, quase sempre referida à GNR, ser incorrectamente grafada na imprensa. Mas nem sempre: «E tudo porque o comando-geral, para uniformizar critérios no regime de remunerações, atrasou o pagamento a estes militares para dois meses — como já acontece com os restantes 20 mil elementos da GNR» («Cinco mil GNR sem subsídio», Miguel Curado, Correio da Manhã, 5.3.2010, p. 13). Se o cargo máximo nesta força militarizada é um comandante-geral, comando-geral se há-de escrever.

[Post 3309]

AEP e não PSA


Falemos da próstata

          Se nos preocupamos, quem se preocupa, com siglas — já ninguém diz ou escreve AIDS —, porque continuamos a escrever PSA? Não deveríamos optar por escrever AEP? PSA é a sigla de prostata specific antigen, que se traduz por antigénio específico da próstata. A nossa sigla só pode ser AEP.

[Post 3308]

A martelo/mardeliano

Origens


      Há alguma semelhança entre o vinho a martelo e os telhados mardelianos? Há: na origem, está, em ambos os casos, um antropónimo. Quanto aos telhados mardelianos, de clara inspiração centro-europeia, devem-se ao arquitecto e engenheiro militar húngaro Martell Károly (1695–1763), que aportuguesou o nome para Carlos Mardel. Foi um dos principais arquitectos, sob a alçada de Eugénio dos Santos, da reconstrução capital depois do terramoto de 1755.
      Quanto ao vinho a martelo, foi Vasco d’Avillez que lembrou a origem da expressão na Notícias Magazine: «Ora quando a filoxera atacou as vinhas deixou de haver vinho, e o pouco que havia não era destilado. Mais tarde veio para a região um senhor francês, de nome Martell, para ajudar localmente ao recobro das vinhas. Tão bem se houve que por volta de 1910 já havia novamente vinho para beber e para destilar. Passou a haver vinho em abundância ou, como se dizia localmente, à la Martell. Daqui terá vindo uma expressão que felizmente hoje não precisa de ser usada, que é a do “vinho a martelo”» («Onde entra Martell...», Vasco d’Avillez, Notícias Magazine, 31.1.2010, p. 62). De uma maneira geral, os dicionários ignoram estas questões.

[Post 3307]

«Genital» substantivo?

Transexualidade e erro


      «A [revista] ‘Domingo’ entrou nas casas destas “transexuais não operadas” e ouviu as histórias que têm para contar sobre o negócio lucrativo da prostituição, as suas vidas antes e depois do início da alteração de sexo e sobre o que as fez manter o genital biológico quando tudo o resto é feminino» («Novo fenómeno da prostituição», Marta Martins Silva, Correio da Manhã, 27.3.2010, p. 23).
      Genital, como substantivo, só no plural (pluralia tantum), genitais: órgãos sexuais externos. Tanto femininos como masculinos.

[Post 3306]

Léxico: «píxide»

País de católicos


      «Em Fátima, os 300 padres que vão distribuir a comunhão segurarão as píxides (cada uma com cerca de 300 partículas) no momento da consagração, dando depois a comunhão aos fiéis. Em Lisboa e no Porto, as píxides, 250 em cada missa, serão colocadas em pequenos altares, onde os ministros da comunhão as irão buscar no momento próprio» («Papa vai consagrar 250 mil hóstias», Isabel Jordão e Secundino Cunha, Correio da Manhã, 27.3.2010, p. 20).
      Não é palavra que apareça na imprensa. E, num país de católicos, duvido que o falante comum saiba que é o nome que se dá ao vaso em que se guardam as hóstias ou partículas consagradas. Aliás, também duvido que o falante comum saiba do que se fala quando se usa a locução partícula consagrada.

[Post 3305]

Aparte/à parte

E o revisor?


      «“Os à partes foram premeditados. Sem ironia e sem ‘fair-play’ não se é um grande político.” Quem o diz é Fernando Costa, presidente da Câmara das Caldas da Rainha e o homem que incendiou o Congresso do PSD do último fim-de-semana, com duras críticas à direcção do partido» («“PSD tem tiques autoritários”», Janete Frazão, Correio da Manhã, 16.3.2010, p. 29).
      Confundir a locução adverbial, à parte, com o substantivo, aparte, se este estiver no singular, vá que não vá, mas, estando o último no plural, é inépcia chocante num jornalista. E o revisor, onde estava?

[Post 3304]

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