Léxico: «descoincidente»

Muito a melhorar


      «Da deliberação parlamentar, não vinculativa, não se segue qualquer efeito jurídico e, muito menos, qualquer efeito positivo especial no estrangeiro. As agências internacionais de rating, aliás com posições descoincidentes quanto à notação atribuída ao nosso país, não se comovem com estas fitas partidárias em São Bento» («Interesse nacional???», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 58).
      Fiquei surpreendido por ver que o Dicionário Houaiss não regista o vocábulo descoincidente. Como antónimo de coincidente,incoincidente. Aliás, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não o regista, mas, em compensação, regista descoincidência, o mesmo sucedendo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Os dicionários ainda têm muito a melhorar.

[Post 3303]

Viúvas-negras/viúvas negras

Ah, infelizes


      «As duas viúvas-negras que na segunda-feira se fizeram explodir na linha vermelha do metro de Moscovo, capital da Rússia, poderão fazer parte de um comando de 30 bombistas suicidas, da Chechénia e da Inguchétia, que foram recrutados por um dos líderes da guerrilha islâmica caucasiana recentemente morto pelos serviços secretos russos, Said Bouriatski, avançou ontem o jornal Kommersant» («28 suicidas do Cáucaso andarão à solta», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 30). E assim três vezes: viúvas-negras.
      As viúvas-alegres são aves, as viúvas-negras são aranhas. As viúvas alegres, viúvas que não demonstram luto pela morte do marido, são desconhecidas do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Viúvas negras era o que Patrícia Viegas queria escrever, nome por que são conhecidas as mulheres que eram casadas (ou da família) com homens mortos em operações das tropas russas.

[Post 3302]

Terras altas da meteorologia

Na Escócia ou aqui


      «Após uma breve trégua, o mau tempo volta a assolar Portugal Continental e a Madeira. O Instituto de Meteorologia (IM) emitiu avisos laranja, o segundo mais grave numa escala de quatro, para chuva e vento fortes no arquipélago, prevendo que ontem à noite e até ao final da manhã de hoje a velocidade do vento possa atingir 70 quilómetros/hora, com rajadas de 110 nas Terras Altas» («Chuva e vento forte chegam ao Continente», Isabel Ramos, Correio da Manhã, 5.3.2010, p. 17).
      Os jornalistas escrevem muitos disparates, é verdade, mas palpita-me que está aqui a mão de um revisor. Devem pensar que terras altas é um topónimo, coitados. As Highlands portuguesas.

[Post 3301]

«Compasso», uma acepção

Sr. engenheiro


      Por estes dias, ouve-se falar muito do compasso pascal, que é o regionalismo com que se designa a visita do pároco às casas da freguesia, quando vai receber o folar. Ainda hoje de manhã se falava disto na Praça da Alegria. Contudo, ainda ontem me falaram de outro compasso, e este não está nos dicionários. Dizia-me ontem um tio por afinidade que ia mandar plantar um pomar com as fruteiras (ele fala assim, como os engenheiros agrícolas) num compasso de 5 por 6. Hã?
      Como dizia Pedro Castro numa das emissões do concurso Falaescreveacertaganha, «há uma coisa que se chama tirar pelo sentido». Eu só conhecia, de mais semelhante, a locução a compasso, que significa «com intervalos iguais». Isto tinha de ter que ver com distância, pensei. E tem: compasso é o nome que, neste contexto, se dá à distância entre árvores.

[Post 3300]

Higienista oral

Dúvidas


      «Nicole Minetti é um dos rostos da vitória do centro-direita nas eleições regionais italianas. A jovem higienista, que tratou de Silvio Berlusconi quando este foi agredido em Milão, foi eleita para o conselho regional da Lombardia» («Higienista de Berlusconi eleita pela Lombardia», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 26).
      Não seria melhor escrever higienista oral, como escreveu Helena Tecedeiro numa notícia publicada no dia 21 de Fevereiro? Eu sei que os jornais italianos a dizem igienista dentale, mas o higienista oral não é o profissional de saúde cuja função primordial é a prevenção das doenças orais e a promoção da saúde oral, como leio no sítio do Instituto Superior de Saúde do Alto Ave? Que se pode prevenir depois de nos partirem os dentes? Novos maus encontros, talvez.

[Post 3299]

Correio de droga e mula

Curioso


      «Os 15,2 quilos de coca apreendidos dariam para 76 mil doses diárias» («Judiciária prende 23 ‘correios de droga’ em apenas um mês», S. S., Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 21).
      Regozijo-me que o Diário de Notícias grafe o vocábulo, redução, coca sem aspas. Não posso, contudo, deixar de achar que é tontice dizer que daria «para 76 mil doses diárias». Para quantas dariam depende, não? O Correio da Manhã portou-se melhor, pelo menos desta vez: «No espaço do último mês, a Judiciária apanhou, só no Aeroporto da Portela, Lisboa, 18 correios de droga oriundos da América do Sul com cocaína no organismo, num total de 15,2 kg — 76 mil doses individuais» («PJ caça 18 ‘mulas’ com 15,2 kg de ‘coca’ no organismo», 31.3.2010). Quando anteontem uma pessoa me leu esta notícia do CM numa aldeola na falda da serra da Estrela, só me lembrei de anotar mentalmente o uso do brasileirismo «mula». Sim, as aspas... Quase a propósito: só recentemente vi o vocábulo falda ser usado num contexto que nada tinha que ver com montanhas. «Após cerca de uma hora cheguei à falda de uma aldeia» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 249) Salvo melhor opinião, o Dicionário Houaiss não regista esta acepção de falda: orla; beira. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.)

[Post 3298]

Como se escreve nos jornais

Deixa-me rir


      «Cavaco Silva caiu nas más-graças do PSD de Passos Coelho» («Apoiantes de Passos abrem guerra a Cavaco por causa do PEC», Hugo Filipe Coelho, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 10).
      Que é isto? A expressão idiomática é cair nas boas graças de. As expressões idiomáticas têm antónimos? Por assim dizer: antepõe-se-lhes o advérbio de negação não: «Cavaco Silva não caiu nas boas graças do PSD de Passos Coelho.» Não sei como se inventa tanto e tão mal. E o hífen é a coroa de glória.

[Post 3297]

Plural de «pão-de-ló»

Tunos e pães-de-ló


      Na emissão de hoje da Praça da Alegria, Carlos Dias, magíster da Hinoportuna, tuna do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC), disse que iriam pela cidade pedir «pãos-de-ló». Nota-se bem que preenche na perfeição o requisito de qualquer veterano: ter sido reprovado. Podia haver dúvidas por se tratar de um substantivo com uma preposição a ligar os componentes, mas, caramba, ninguém costuma errar no plural de pão.

[Post 3296]

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