Verbo «dar»

«O verbo deiamos não foi encontrado.»


      Um leitor acaba de me escrever: «No programa Um Certo Olhar, da Antena 2, de hoje, comentava-se a eleição do novo presidente do PSD quando o professor, escritor, dramaturgo, crítico literário, comentador e não sei que mais Miguel Real disse: “Pronto, deiamos oportunidade.”»
      Na Beira Interior é que se conjuga comummente desta forma o verbo dar. Mas Luís Martins, pseudónimo de Miguel Real, é lisboeta, segundo umas fontes, ou sintrense, segundo outras. Pode ser as duas coisas, exactamente: natural de Lisboa e residente em Sintra. Mas quanto ao verbo: Dê/dês/dê/dêmos/deis/dêem.

[Post 3287]

«Replicar», anglicismo

Replico, refuto, contesto


      «A nova ferramenta deverá estar a funcionar na região de Lisboa e Vale do Tejo até ao final do ano, mas poderá estender-se ao resto do País. Segundo a mesma fonte, houve médicos de saúde pública de várias regiões que já demonstraram vontade de replicar o projecto e deverão fazer as propostas às respectivas Administrações Regionais de Saúde» («Intoxicações alimentares vão ser registadas nos hospitais», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 17).
      Poucos dicionários acolhem a acepção do verbo replicar usada no artigo. E a explicação é simples: nesta acepção é anglicismo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não a regista. Dos que a registam, prefiro a definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: «Repetir ou repetir-se por reprodução ou multiplicação. = REPRODUZIR.» Para concluir: a jornalista não devia ter usado o vocábulo.

[Post 3286]

«Centro de saúde»

Também não percebo


      «Os médicos dos hospitais e centros de saúde vão passar a registar todos os casos de intoxicações alimentares ou por monoxódio [sic] de carbono num sistema informático» («Intoxicações alimentares vão ser registadas nos hospitais», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 17).
      É muito comum os jornalistas grafarem com maiúsculas iniciais a locução centro de saúde, no plural ou no singular. Mesmo no singular, a não ser que se refira a um centro de saúde específico, é claro que se deverá grafar com minúsculas iniciais.
      A propósito da mesma notícia, pôde ler-se no Correio da Manhã: «Um sistema informático de saúde pública vai permitir que, até ao final do ano, seja possível ter uma ideia do número de toxicoinfecções alimentares causas [sic] pelo consumo de bivalves da região de Lisboa e Vale do Tejo» («Amêijoa ilegal pode provocar intoxicações», Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 18). Nenhum dicionário acolhe o vocábulo toxicoinfecção.

[Post 3285]

«Directivo» como substantivo?

Não percebo


      «Ontem, aplaudiam; hoje, assobiam e insultam, criam, enfim, aquilo que foi pedido para Alvalade por um directivo imprudente: um “ambiente extremamente difícil”» («Não ponham mão nisto, não», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 19.3.2010, p. 64).
      Como estou a leste destas questões do futebol, fui pesquisar que «directivo» era aquele. Vi que o «directivo» era Salema Garção e se referia ao jogo Sporting-At. Madrid, mas este conhecimento não contribuiu em nada para compreender porque é que o jornalista usara o vocábulo. A minha suspeita era a de que Ferreira Fernandes lançara mão de um castelhanismo, directivo, «miembro de una junta de dirección: es directivo de un equipo de fútbol». Só como adjectivo vejo o vocábulo registado. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista em relação a directivo: «Que dirige. = DIRECTOR». Na expressão plano director municipal, «director» é, é óbvio, adjectivo, e podia substituir-se por «directivo».

[Post 3284]

Ordem dos elementos na frase

Faltou o revisor


      Um leitor chamou-me a atenção e fui ver: José Rodrigues dos Santos, pivô mas também romancista premiado, disse no Telejornal de hoje: «Cavaco Silva inaugurou uma exposição dedicada a si próprio em Loulé, concelho onde nasceu.» Já viram a deselegância da frase? Atentem.

[Post 3283]

Sobre «predador sexual»

Apanhar ou matar uma presa


      «Advogado garante que predador e família têm noção da gravidade dos crimes praticados» («Namorada dá apoio a violador na prisão», Helder Almeida, Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 8).
      A expressão, traduzida do inglês (sexual predator), é predador sexual, mas nos jornais vão prescindindo do adjectivo. Nenhum dicionário que eu conheça regista a expressão ou a acepção no verbete correspondente. A propósito: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista, ao contrário do Houaiss e do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o verbo predar.

[Post 3282]


Actualização em 1.06.2010

      Mas lê-se, sobretudo nas traduções: «É a sua vingança por você predar os indefesos» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 55).



«Tecto» e «plafond»

Redundâncias


      «O Ministério da Saúde vai fixar tectos máximos para os salários dos profissionais de saúde contratados a empresas privadas para exercerem funções, a recibo verde, no SNS» («Salários com tecto máximo», António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 28).
      Até parece mentira como os jornalistas perderam a mania de usar o estrangeirismo plafond. Mas estão aqui outros aspectos em causa. Primeiro: o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista (!) esta acepção de tecto. Segundo: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define-a como «limite máximo», o que mostra a redundância de «tectos máximos». Terceiro: este dicionário continua a registar o galicismo plafond, sem, contudo, fazer uma remissão para o verbete «tecto».

[Post 3281]

Geropiga/jeropiga

Escrito no bronze


      «A ideia partiu de uma brincadeira de amigos, mas ao fim de cinco anos, a Confraria dos Amigos da Geropiga de Moinhos e Arredores (CAGMA), de Miranda do Corvo, conta já com 60 confrades, seis dos quais foram entronizados ontem» («Confraria de Mir. Corvo promove Jeropiga», F. P., Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 18).
      Bem, parece que os confrades acham mesmo que se escreve *geropiga. Apesar de estarem no trono, não vamos ter medo de lhes dizer que não é assim, não é assim? Já aqui tínhamos visto esta questão semiobscura.

[Post 3280]

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