«Directivo» como substantivo?

Não percebo


      «Ontem, aplaudiam; hoje, assobiam e insultam, criam, enfim, aquilo que foi pedido para Alvalade por um directivo imprudente: um “ambiente extremamente difícil”» («Não ponham mão nisto, não», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 19.3.2010, p. 64).
      Como estou a leste destas questões do futebol, fui pesquisar que «directivo» era aquele. Vi que o «directivo» era Salema Garção e se referia ao jogo Sporting-At. Madrid, mas este conhecimento não contribuiu em nada para compreender porque é que o jornalista usara o vocábulo. A minha suspeita era a de que Ferreira Fernandes lançara mão de um castelhanismo, directivo, «miembro de una junta de dirección: es directivo de un equipo de fútbol». Só como adjectivo vejo o vocábulo registado. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista em relação a directivo: «Que dirige. = DIRECTOR». Na expressão plano director municipal, «director» é, é óbvio, adjectivo, e podia substituir-se por «directivo».

[Post 3284]

Ordem dos elementos na frase

Faltou o revisor


      Um leitor chamou-me a atenção e fui ver: José Rodrigues dos Santos, pivô mas também romancista premiado, disse no Telejornal de hoje: «Cavaco Silva inaugurou uma exposição dedicada a si próprio em Loulé, concelho onde nasceu.» Já viram a deselegância da frase? Atentem.

[Post 3283]

Sobre «predador sexual»

Apanhar ou matar uma presa


      «Advogado garante que predador e família têm noção da gravidade dos crimes praticados» («Namorada dá apoio a violador na prisão», Helder Almeida, Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 8).
      A expressão, traduzida do inglês (sexual predator), é predador sexual, mas nos jornais vão prescindindo do adjectivo. Nenhum dicionário que eu conheça regista a expressão ou a acepção no verbete correspondente. A propósito: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista, ao contrário do Houaiss e do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o verbo predar.

[Post 3282]


Actualização em 1.06.2010

      Mas lê-se, sobretudo nas traduções: «É a sua vingança por você predar os indefesos» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 55).



«Tecto» e «plafond»

Redundâncias


      «O Ministério da Saúde vai fixar tectos máximos para os salários dos profissionais de saúde contratados a empresas privadas para exercerem funções, a recibo verde, no SNS» («Salários com tecto máximo», António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 28).
      Até parece mentira como os jornalistas perderam a mania de usar o estrangeirismo plafond. Mas estão aqui outros aspectos em causa. Primeiro: o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista (!) esta acepção de tecto. Segundo: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define-a como «limite máximo», o que mostra a redundância de «tectos máximos». Terceiro: este dicionário continua a registar o galicismo plafond, sem, contudo, fazer uma remissão para o verbete «tecto».

[Post 3281]

Geropiga/jeropiga

Escrito no bronze


      «A ideia partiu de uma brincadeira de amigos, mas ao fim de cinco anos, a Confraria dos Amigos da Geropiga de Moinhos e Arredores (CAGMA), de Miranda do Corvo, conta já com 60 confrades, seis dos quais foram entronizados ontem» («Confraria de Mir. Corvo promove Jeropiga», F. P., Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 18).
      Bem, parece que os confrades acham mesmo que se escreve *geropiga. Apesar de estarem no trono, não vamos ter medo de lhes dizer que não é assim, não é assim? Já aqui tínhamos visto esta questão semiobscura.

[Post 3280]

Tradução: «steward»

Basta!


      Benfica-Braga no Estádio da Luz. O repórter da Antena 1 João Vasco disse no serviço noticioso das 18 horas: «Estão mobilizados para esta partida cerca de 500 polícias. Há também 450 stewards, que foram mobilizados para este encontro.» Os jornalistas não perdem uma oportunidade de nos afrontarem com estrangeirismos. Este já o vi traduzido por assistente de estádio, assistente de recinto desportivo e assistente de campo. Não chega, querem ver? Isto só tinha fim se lhes descontassem no ordenado um determinado montante por cada estrangeirismo desnecessário.

[Post 3279]

Sobre «onça»

Não me parece


      «Algumas onças de tabaco solto e uns poucos papéis de cigarro» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 254).
      No Grande Dicionário da Língua Portuguesa, José Pedro Machado registou: «Onça, s. f. Pop. Pacotilha de tabaco, cujo peso é variável.» O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista: «Onça, nome feminino. antiquado pacotilha de tabaco em fio.» Quanto a ser antiquado, tenho dúvidas. De qualquer modo, a definição faz perder de vista a ligação à medida de peso. Esta definição é quase igual (com a diferença de que regista que é desusado) à do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa. Infelizmente, os dicionários copiam-se, com prejuízo evidente para os leitores.

[Post 3278]

Indicação das horas

Um nome trocado


      «Eu», escreveu Ferreira Fernandes na edição do dia 22 do Diário de Notícias, «se fosse o secretário de Estado, teria dito: “Senhor presidente, não me chamo João Trocado mas João Torcato da Mata. E, já agora, não sou secretário de Estado, sou ex-secretário de Estado porque não quero comprometer o Governo no que lhe vou dizer: não admito que me fale assim.”» («Há tons que só pedem isto: não!», p. 56).
      Bem, por vezes os jornalistas têm acesso a informação a que o comum cidadão não chega. Não me parece ser este o caso. Em que dados se baseia Ferreira Fernandes para dizer que o secretário de Estado não se chama João Trocado mas João Torcato da Mata? Escrevi aqui no dia 23 sobre a questão. Fui agora ver de novo: é mesmo Trocado e não Torcato.
      Já agora, a propósito de tons: um leitor, talvez jornalista ressabiado, deixou-me um comentário ao texto «Pelo menos a esta hora» (sobre a dicionarização de rifte): «“10.17” é modo de escrever as horas?» Se se for jornalista do Público, não é, pois até o Livro de Estilo desse jornal recomenda: «Há uma norma para escrever as horas. Ex.:12h30 (e não 12.30h, nem 12.30, nem 12h30m, nem 12H30m).» Se se for jornalista do Diário de Notícias, já é. Três exemplos:

  1. «Na primeira vez, perto da 01.30 da madrugada, a PSP foi chamada ao bairro por moradores que reclamavam de desordens nas ruas e intenso ruído provocado por um grupo de perto de 30 jovens, alguns de bairros vizinhos» («Bombeiros querem protecção policial para ir a bairros de Loures», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 19).

  2. «Os incidentes aconteceram a partir das 16.15, quando chegou a claque portista, com adeptos no tejadilho dos autocarros» («A violência antecedeu o futebol», Carlos Nogueira, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 36).

  3. «É precisamente a banda sonora da saga Guerra das Estrelas, realizada por George Lucas, que virá hoje e amanhã ao Pavilhão Atlântico, em Lisboa, às 21.00, com a digressão Star Wars: in concert, pela mão da Royal Philarmonic [Concert] Orchestra (RPCO)» («A ‘Guerra das Estrelas’ em Lisboa», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 48).
[Post 3277]

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