Frase interrogativa

Discutam no fórum


      Ned dá as boas-vindas ao rei Robert Baratheon, senhor dos Sete Reinos: «— Confio que tenhais apreciado a viagem, Vossa Graça?» (A Guerra dos Tronos, George R. R. Martin. Tradução de Jorge Candeias e revisão de Idalina Morgado. Parede: Saída de Emergência, 3.ª ed., 2009, p. 43).
      Só me pergunto é porque é que aquela frase é interrogativa. Se o tradutor e a revisora também se interrogaram, não chegaram à conclusão a que eu cheguei. Não é a primeira vez que aqui denuncio este erro. Não é raro uma frase interrogativa em língua inglesa não poder ser do mesmo tipo (há quatro tipos: declarativa, interrogativa, imperativa e exclamativa) em português. Nem sequer interrogativa indirecta.

[Post 3276]

Léxico: «rifte»

Pelo menos a esta hora


      «A Grande Fenda Africana é um complexo de falhas tectónicas criado há cerca de 35 milhões de anos com a separação das placas tectónicas africana e arábica. Esta estrutura estende-se no sentido norte-sul por cerca de 5000 km, desde o norte da Síria até ao centro de Moçambique, com uma largura que varia entre 30 e 100 km. É o melhor exemplo de um rifte emerso» («Vai nascer um oceano em África», Mário Gil, Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 25).
      Caro Fernando Venâncio: são 10.17 da manhã e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista este vocábulo, aportuguesamento do inglês rift.

[Post 3275]

Pronúncia: «Gibraltar»

Disparates aos pares


      A Antena 1 tem agora um programa chamado Portugueses no Mundo, de Ricardo Alexandre. Todos os dias é entrevistado, por telefone, um português que esteja a viajar ou a viver em qualquer parte do mundo. Na quinta-feira, tratava-se de um português, um construtor civil, a viver em Gibraltar. O jornalista pronunciou sempre a palavra como paroxítona; o construtor civil, sempre como oxítona. E oxítona ela é, como, por exemplo, Trafalgar. Seria mais natural o inverso: o construtor civil a demolir a ortoépia e o jornalista, homem da palavra, a erigi-la.
      Esperem! Ricardo Alexandre não disse «ilha» referindo-se a Gibraltar? Deve ter aprendido geografia nos comunicados da Lusa. Quase, quase... Quase-ilha: Gibraltar é uma península. Do latim paeninsula, que provém de paene, «quase», e insula, «ilha».

[Post 3274]

Ortografia: «afro-descendente»

Analogia


      «Os habitantes são de várias raças: os manabitas, vindos da província de Manabi, os afrodescendentes, os mestiços e os oriundos da serra», alguém escreveu. Faz lembrar a infeliz grafia *lusodescendente usada no Diário de Notícias. Rebelo Gonçalves, no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, recomendou o uso de hífen nos «compostos em que entram, morfologicamente individualizados e formando uma aderência de sentidos, um ou mais elementos de natureza adjectiva terminados em o e uma forma adjectiva». Exemplos? Físico-químico, póstero-palatal, trágico-marítimo, ântero-inferior; latino-cristão, grego-latino, afro-negro.

[Post 3273]

«Torção/torsão»

Torcer


      «Aproveito, já agora, para lhe pedir a opinião sobre o seguinte. É correcto grafar “torsão” ou terá de ser, sob pena de erro ortográfico, “torção”? Ou pode ser escrito das duas maneiras?»
      No âmbito da Matemática, basta pesquisar no Google para o comprovar, usa-se muito mais a grafia torsão do que torção. Todavia, só esta se encontra dicionarizada. Os dicionários dão como étimo de torção o vocábulo latino tortĭo,ōnis, pelo que nunca poderia ser grafado com s. Se supusermos que o étimo de torsão é o inglês torsion, então já estará correcto, pois este vem do latim tardio torsio, alteração de tortĭo,ōnis.

[Post 3272]

Superior/superiora

O mundo é dos homens?


      «Pouco depois desta descida pelo rio Cayapas e primeiro contacto com esta etnia negra do Equador, as minhas superiores enviaram-me para Muisne, uma ilha no oceano Pacífico», escreveu a missionária. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, superiora é a religiosa que dirige um convento; prioresa; abadessa. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é a religiosa que governa uma comunidade ou instituto de mulheres; prioresa; abadessa. Para o Dicionário Houaiss, é a religiosa que dirige um convento ou mosteiro; abadessa; priora. (Sim, priora ou prioresa é o mesmo.) Julgo que a melhor definição é a do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e, por isso, creio que a missionária deveria ter escrito «as minhas superioras».

[Post 3271]

Léxico: «miau-miau»

Agora com fertilizante


      «É que esta droga, conhecida como “miau-miau”, entre outros nomes, é um fertilizante de plantas, pelo que não é uma substância ilegal e pode ser adquirida com grande facilidade através da Internet. Esta facilidade de comprar e o preço (uma grama ronda os onze euros) são algumas das principais preocupações» («Autoridades em alerta com nova droga», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 18.3.2010, p. 14).
      Talvez 605 Forte fosse mais eficaz... e ainda estaríamos na mesma área: fertilizantes, pesticidas. O artigo menciona os outros nomes por que é conhecida esta nova droga: M-Cat, MC, 4MMC.
      E é claro que grama, na acepção usada, é do género masculino. A jornalista lembrou-se da erva rasteira, rizomatosa, prejudicial às culturas, pertencente à família das Gramíneas, espontânea em Portugal, e também conhecida por gramão, porque o miau-miau é um fertilizante...

[Post 3270]

Ranking/escalafón/classificação

Mais português


      «Rivera Ordoñez é considerado um dos artistas mais bonitos e elegantes de Espanha a par do seu irmão, o também matador de touros Cayetano. Há vários anos que o seu nome é presença assídua no escalafón dos melhores matadores de touros e, no ano passado, recebeu a medalha de ouro das Belas Artes pelos reis de Espanha» («Vai ouvir-se guapo! no Campo Pequeno», 24 Horas, 19.3.2010, p. 30).
      Em Portugal, talvez só um amante da tauromaquia saiba o que é o escalafón. É verdade que o contexto é quase auto-explicativo, mas não chega. Escalafón é qualquer tabela classificativa. («Lista de los individuos de una corporación, clasificados según su grado, antigüedad, méritos, etc.», define o DRAE.) Em Espanha, qualquer falante sabe o que é o escalafón — apesar de, em todos os contextos não relacionados com a tauromaquia, ter vindo estupidamente a ser substituído pelo anglicismo ranking, que também tomou conta da cabeça dos Portugueses. No ténis, por exemplo: algum jornalista se atreve a escrever «tabela classificativa [ou classificação] da ATP»? Não, tem de ser «ranking ATP»: «O francês Jo-Wilfried Tsonga fecha os primeiros 10 jogadores do ranking ATP, por troca com o chileno Fernando Gonzalez, que baixou para o 11.º lugar» («Nadal baixa para o 4.º lugar do ranking ATP», Diário de Notícias, 22.3.2010).
      Ah, sim: escreve-se Belas-Artes (Bellas Artes em espanhol), erro já aqui referido.

[Post 3269]

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