Léxico: «cepe»

Aceitamos


      «Apanhámos uma bela cesta de cepes e de cantarelos. Esta noite, vou quebrar os meus hábitos e fazer uma omeleta de cogumelos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 426).
      Nenhum dicionário da língua portuguesa regista cepe. Temos cepeiras — mas dão uvas. Estes foram apanhados por Logan Gonzago Mountstuart e Lucien Gorce nos bosques da comuna de Sainte-Sabine, na Borgonha, e aí está a pista: é o aportuguesamento da palavra francesa cèpe (por sua vez proveniente do gascão cep, e este do latim cippus). O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista como tradução de cèpe «boleto», mas boleto (e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta acepção do vocábulo) tanto pode designar cogumelos comestíveis como altamente venenosos — e os cèpes são comestíveis.

[Post 3256]

Léxico: «flósculo»

Aqui não há erros


      «Guardo a imagem de um rio largo e castanho com árvores aglomeradas na margem mais distante, tão densas como flósculos de brócolos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 13).
      O étimo do vocábulo flósculo significa «florzinha». A comparação é original: compara-se a vegetação da costa com os pequenos botões florais, os flósculos, muito próximos dos brócolos.

[Post 3255]

Tradução: «capacity»

É da casa


      «Foi assim que no Verão de 1977, surpreendentemente, viajei muito (de autocarro) pelas Ilhas Britânicas na minha capacidade de membro do Círculo de Trabalho — Acção de Trabalho do SPK» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 401).
      O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora até regista «in his capacity as prime minister na sua qualidade de primeiro-ministro», mas alguns tradutores, seguríssimos de si, não consultam dicionários.
      Ontem, um leitor chamou-me a atenção para o título que a obra The God Delusion, de Richard Dawkins, teve na tradução portuguesa (também da Casa das Letras): A Desilusão de Deus. Distracção das tradutoras ou imposição da editora?

[Post 3254]

Aportuguesamentos

Falta de memória


      «Em Battersea, encontrei a cratera feita pelo V-2. O final de uma fila de casas geminadas desaparecido, uma vedação de tábuas à volta do enorme buraco. Deve ter sido súbito. O foguete a cair silenciosamente do céu enquanto as duas caminhavam, de mãos dadas, em direcção a casa, vindas da escola. Apenas o flache, o barulho e depois o oblívio» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 271).
      Ferreira Fernando tinha razão, e eu reconheci-o na altura: V-2 é do género feminino. Vergeltungswaffe 2 (arma de retaliação 2). O aportuguesamento de flash é assustador — pelo menos até nos habituarmos. Flache. Há propostas do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa que só tiveram eco em meia dúzia de pessoas. Parece-me ser o caso de flache. Mas é de saudar. Quanto ao uso de palavras aportuguesadas nesta obra, é, não apenas abundante, mas incongruente. Se se lê sempre uísque (e há editoras, já aqui o escrevi uma vez, que distribuem a revisores e tradutores algumas regras, e entre elas a proibição de usar o vocábulo «uísque») e coquetel, ora se lê Cornwall ora Cornualha. Se se lê Reiquiavique, também se lê Bahamas. Se se lê búnquer, também se pode ler bunker. Se... Depois de se ter tomado a decisão de escrever búnquer (na página 276), como é que menos de vinte páginas à frente (na página 293) se escreve, e com referência ao mesmo espaço, bunker? Não compreendo.
      Quanto a fila de casas geminadas,aqui vimos que não é a melhor tradução. E também já falámos de oblívio.

[Post 3253]

«Dormir sobre os louros»

Ó Títiro!


      «— Em breve estaremos no continente europeu — disse. — Não podemos simplesmente dormir sobre os nossos louros» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 240).
      Pois é, mas vê-se também: dormir sob os louros e dormir à sombra dos louros. Esta acepção de louro deriva por metonímia do sentido original. Refere-se, como se sabe, às glórias, aos triunfos alcançados, lembra o Dicionário Houaiss, especialmente nas armas e/ou nas artes. Infelizmente, este dicionário não regista a frase feita (ao contrário, por exemplo, do Michaelis, que regista a última variante). Dormir à sombra dos louros pode ter sofrido contaminação de uma frase feita com um sentido aproximado: dormir à sombra da bananeira. E como à sombra é, parcialmente, sinónimo de sob (Tityre, tu patulae recubans sub tegmine fagi), passou a dormir sob os louros. Em francês diz-se s’endormir sur ses lauriers¸ e em espanhol, dormirse sobre (ou en los) laureles.

[Post 3252]

Léxico: «mógono»

Nem parece


      «É este o nome pelo qual é conhecido o recinto à sombra do mógano plurissecular rodeado de mangueiras carregadas de frutos», lia-se no texto. Está bem: corrige-se o erro e ainda assim nem todos sabem do que se trata. Mógono. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não deixa de o registar, ao contrário do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Vendo bem, até podia ter sido aportuguesado em mógano, já que vem do inglês mahogany. Isso mesmo: mogno. Uma das melhores madeiras, diz-se, para a construção de guitarras.

[Post 3251]

Parónimos

Imperdoável


      Ontem, numa mensagem de correio electrónico, um engenheiro pedia-me «descrição» em relação a uns documentos que me enviou. Enfim, algo me levou a desculpar o erro. O pior é livros, com revisão (por assim dizer...), apresentarem o mesmo erro: «Esta noite, fui a um coquetel na embaixada e conheci um homem chamado Eccles que parece ser aqui uma espécie de iminência parda — muito dentro dos assuntos; altamente céptico em relação às capacidades do pessoal da embaixada» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 206). Está a par de almas pardas.

[Post 3250]

Encadeamentos ocasionais

Que alguém saiba


      «Depois tenciono fazer Bordéus — Toulouse — Perpignan, atravessar a fronteira em Port Bou e daí descer a costa para Barcelona — Valência — Granada — Sevilha» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 150).
      Espera-se sempre que, não conhecendo o tradutor a língua portuguesa (e alguns estão tão longe da língua viva como nós da China), pelo menos o revisor domine o código de escrita. Em alguns casos, é esperar demasiado. Estatui a Base XXXII do Acordo Ortográfico de 1945: «Emprego do hífen em combinações ocasionais de formas diversas que não constituem propriamente palavras, mas encadeamentos vocabulares. (Exemplos: a estrada Rio de Janeiro-Petrópolis; o desafio de xadrez Portugal-França, etc.)»

[Post 3249]

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