Aportuguesamentos

Falta de memória


      «Em Battersea, encontrei a cratera feita pelo V-2. O final de uma fila de casas geminadas desaparecido, uma vedação de tábuas à volta do enorme buraco. Deve ter sido súbito. O foguete a cair silenciosamente do céu enquanto as duas caminhavam, de mãos dadas, em direcção a casa, vindas da escola. Apenas o flache, o barulho e depois o oblívio» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 271).
      Ferreira Fernando tinha razão, e eu reconheci-o na altura: V-2 é do género feminino. Vergeltungswaffe 2 (arma de retaliação 2). O aportuguesamento de flash é assustador — pelo menos até nos habituarmos. Flache. Há propostas do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa que só tiveram eco em meia dúzia de pessoas. Parece-me ser o caso de flache. Mas é de saudar. Quanto ao uso de palavras aportuguesadas nesta obra, é, não apenas abundante, mas incongruente. Se se lê sempre uísque (e há editoras, já aqui o escrevi uma vez, que distribuem a revisores e tradutores algumas regras, e entre elas a proibição de usar o vocábulo «uísque») e coquetel, ora se lê Cornwall ora Cornualha. Se se lê Reiquiavique, também se lê Bahamas. Se se lê búnquer, também se pode ler bunker. Se... Depois de se ter tomado a decisão de escrever búnquer (na página 276), como é que menos de vinte páginas à frente (na página 293) se escreve, e com referência ao mesmo espaço, bunker? Não compreendo.
      Quanto a fila de casas geminadas,aqui vimos que não é a melhor tradução. E também já falámos de oblívio.

[Post 3253]

«Dormir sobre os louros»

Ó Títiro!


      «— Em breve estaremos no continente europeu — disse. — Não podemos simplesmente dormir sobre os nossos louros» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 240).
      Pois é, mas vê-se também: dormir sob os louros e dormir à sombra dos louros. Esta acepção de louro deriva por metonímia do sentido original. Refere-se, como se sabe, às glórias, aos triunfos alcançados, lembra o Dicionário Houaiss, especialmente nas armas e/ou nas artes. Infelizmente, este dicionário não regista a frase feita (ao contrário, por exemplo, do Michaelis, que regista a última variante). Dormir à sombra dos louros pode ter sofrido contaminação de uma frase feita com um sentido aproximado: dormir à sombra da bananeira. E como à sombra é, parcialmente, sinónimo de sob (Tityre, tu patulae recubans sub tegmine fagi), passou a dormir sob os louros. Em francês diz-se s’endormir sur ses lauriers¸ e em espanhol, dormirse sobre (ou en los) laureles.

[Post 3252]

Léxico: «mógono»

Nem parece


      «É este o nome pelo qual é conhecido o recinto à sombra do mógano plurissecular rodeado de mangueiras carregadas de frutos», lia-se no texto. Está bem: corrige-se o erro e ainda assim nem todos sabem do que se trata. Mógono. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não deixa de o registar, ao contrário do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Vendo bem, até podia ter sido aportuguesado em mógano, já que vem do inglês mahogany. Isso mesmo: mogno. Uma das melhores madeiras, diz-se, para a construção de guitarras.

[Post 3251]

Parónimos

Imperdoável


      Ontem, numa mensagem de correio electrónico, um engenheiro pedia-me «descrição» em relação a uns documentos que me enviou. Enfim, algo me levou a desculpar o erro. O pior é livros, com revisão (por assim dizer...), apresentarem o mesmo erro: «Esta noite, fui a um coquetel na embaixada e conheci um homem chamado Eccles que parece ser aqui uma espécie de iminência parda — muito dentro dos assuntos; altamente céptico em relação às capacidades do pessoal da embaixada» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 206). Está a par de almas pardas.

[Post 3250]

Encadeamentos ocasionais

Que alguém saiba


      «Depois tenciono fazer Bordéus — Toulouse — Perpignan, atravessar a fronteira em Port Bou e daí descer a costa para Barcelona — Valência — Granada — Sevilha» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 150).
      Espera-se sempre que, não conhecendo o tradutor a língua portuguesa (e alguns estão tão longe da língua viva como nós da China), pelo menos o revisor domine o código de escrita. Em alguns casos, é esperar demasiado. Estatui a Base XXXII do Acordo Ortográfico de 1945: «Emprego do hífen em combinações ocasionais de formas diversas que não constituem propriamente palavras, mas encadeamentos vocabulares. (Exemplos: a estrada Rio de Janeiro-Petrópolis; o desafio de xadrez Portugal-França, etc.)»

[Post 3249]

Avanços e adiantamentos

A bem do leitor


      «Quando Wallace e eu nos encontramos no pátio do Savoy, o fumo dos nossos charutos espesso como ectoplasma ao sol primaveril, Wallace diz que está ansioso pelas negociações: pretende estabelecer um novo padrão de referência para o adiantamento pago por um livro de crítica literária» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 138).
      No meio editorial, não se fala em adiantamento, mas em avanço. Contudo, não propugno o seu uso numa obra literária. Um dia, fiz esta emenda, tendo-se seguido um debate com o editor, cioso do seu jargão. O meu objectivo é sempre que o leitor compreenda sem esforço — sem ter de recorrer a um dicionário, que pode nem sequer registar a acepção.

[Post 3248]

Submirjo ou submerjo?

O erro do tabelião grogue


      «Descubro o meu fundão, submirjo a minha garrafa de cerveja num remoinho à beira de água e pesco durante uma hora, apanhando três pequenas trutas, que devolvo ao rio» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 125).
      Algumas gramáticas e dicionários de verbos consideram submergir regular e conjugável com -e- no radical da primeira pessoa do presente do indicativo e em todo o presente do conjuntivo, e eu também. Esta forma bastarda, submirjo, deve ter sido lapso de algum tabelião mais conspícuo mas já com os copos. Eu próprio estou a beber — numa caneca, não gosto de muitos calicezinhos — uma reserva Dona Antónia (uma velhota tesa, e a cupidez do barão de Forrester, com a faixa panda de moedas de ouro, é que o afogou), e os efeitos, conspícuos ou não, nunca deixam de se fazer sentir.

[Post 3247]

Brasileirismos

Nada de sofreguidão


      Corria o ano de 1985. Humberto Werneck escrevia na revista Isto É que os «puristas de Lisboa estão apreensivos com a invasão — só que, no caso, de brasileirismos. Alguns anos atrás num estudo patrocinado pelo governo lisboeta e intitulado ‘Estão a assassinar o português’, intelectuais lusitanos expuseram sua inquietude diante da sôfrega assimilação, por parte de seus compatriotas, de brasileirismos como ‘transar’, que vão dar às costas de Portugal nas caravelas eletrônicas das novelas globais.»
      Ainda hoje, poucos são os dicionários que registam o brasileirismo transar. E, à distância de 25 anos, não creio que tenha havido invasão nem sôfrega assimilação, e só refiro a questão porque topei, o que me parecia uma improbabilidade, com o vocábulo na tradução que tenho vindo a citar: «Senti-me embaraçado, sabendo que tinha feito amor — tinha transado — com a mulher várias dezenas de vezes: queria deitar tudo cá para fora — como ambos gostávamos de Anna à nossa maneira, como a partilhávamos, falar-lhe de todas as gorjetas que lhe dava, para o ajudar a ele também — como se isso nos fosse, de algum modo, tornar mais íntimos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, pp. 122-23). Se aqui não há grandes dúvidas, Anna é uma prostituta russa a viver em Paris, não se deve negligenciar que o verbo é polissémico.

[Post 3246]

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