Uso da maiúscula

Posição no râguebi


      Ora aqui está um bom exemplo de uma incongruência: «A segunda equipa de 15 anda envaidecida a pavonear-se pelo colégio. fforde afirma que vai estar bom e em forma para o próximo sábado, mas só um louco mudaria de equipa vencedora» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 49).
      Estão a ver o nome fforde? É uma das personagens do romance, um talonador de uma equipa de râguebi. (Em que dicionário está registado este vocábulo? Em nenhum! Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) Há alguma palavra que, em início de período, possa começar com minúscula? Não vou estar com paninhos quentes: isto é uma completa tarouquice. Recentemente, o Jornal de Letras, Artes e Ideias publicou um artigo sobre o escritor com letras pequenas — e não é que mesmo em início de parágrafo escreveram o nome com minúscula? Como alguém me disse, é um sinal de menoridade mental fazer tal coisa. Quanto ao próprio escritor, também me garantiram que é um valor seguro, um contador de histórias nato, podendo deixar-se já (como publicidade, num meio semipacóvio, foi óptimo) destas tretas.

[Post 3245]

«Musical», uma acepção

Músicas e pantomimas


      A actriz Maria de Medeiros sobre as filhas: «Sim, elas são as duas muito artísticas. São as duas muito pantomineiras, como a mãe. A Júlia, a mais velha, até já fez uma peça de teatro muito séria (risos). Depois, penso que são as duas muito musicais. Mas com as crianças nunca se sabe, elas depois decidirão o que querem seguir» («“Em Paris consigo viver no anonimato”», Miguel Azevedo, Vidas Correio da Manhã, 13.3.2010, p. 41).
      Tanto quanto pude ver, apenas o Dicionário Houaiss regista esta acepção do vocábulo musical: que tem propensão para a música. E porquê? Em parte, porque esta acepção é um anglicismo: «having an interest in or talent for music», leio no Merriam-Webster. Em parte, digo, porque anglicismos escusados todos os dicionários registam. Escapou-lhes este.

[Post 3244]

Léxico: «patrulheiro»

Adjectivação?


      «Nem agentes de autoridade, nem milícias populares. Os 12 idosos patrulheiros que em Janeiro começaram a fiscalizar a Avenida Luísa Todi rejeitam estes rótulos. Aliás, sabem que há na cidade quem os apelide de “milícias”, mas dizem-se “ofendidos” com a adjectivação» («Patrulheiros impõem regras com a ‘arma’ da palavra’», Roberto Dores, Diário de Notícias, 12.3.2010, p. 16).
      Só o Dicionário Houaiss regista o vocábulo patrulheiro, mas isso não é agora o mais importante. Caro Roberto Dores, onde está o adjectivo? Não é erro de amador?

[Post 3243]

Léxico: «ortopraxia»

Deformidades dicionarísticas


      «Conceitos estes que Laurenti Magesa reafirmou em African Religion. The Moral Traditions of Abundant Life (1997), onde apresenta e aprofunda a espiritualidade africana como possível fundamento de uma ortodoxia e de uma ortopraxia de libertação.»
      Três dicionários — Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e Dicionário Houaiss — e nenhum resultado. Melhor: um resultado que não interessa. Este último dicionário diz que a ortopraxia é a «correcção das deformidades do corpo». Contudo, uma leitura mesmo distraída leva-nos imediatamente a concluir que no excerto citado não há deformidades. Nos tempos que correm, há blogues sobre tudo, e, por isso, também sobre a ortopraxia. Há mesmo um cujo nome é Ortopraxia e define o conceito desta forma: «Como definir ortopraxia de forma bastante simples? Diria que ortopraxia refere-se a pureza da prática cristã.» (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.)

[Post 3242]

Tradução: «Spring term»

Algo nosso


      Eu sei que a tradutologia, essa grande ciência, tem várias teorias, mas, para mim, traduzir é sempre encontrar correspondência de uma língua noutra. E não apenas correspondência literal, sob pena de termos obras sem alma, em português, sim, mas num português de tradutor automático (conheço tantas...). A tradução deve ser sempre um texto apetecível, num português provável e, neste sentido, sempre uma obra paralela. É esta obra paralela, a única que interessa ao leitor, que a esmagadora maioria das vezes o recenseador esquece, atribuindo quatro ou cinco estrelas, não à tradução que o leitor irá comprar e ler, mas a factos inteiramente externos, como à «oportunidade» ou à «coragem de editar» ou a outras balelas. Mas esta conversa ficará para outra oportunidade, porque agora quero dizer alguma coisa do que o título promete.
      «Quando fizemos uma pausa para o chá depois da segunda hora de estudo, maquinei um plano para o período da Primavera» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 21). Pelo menos a primeira ocorrência de período da Primavera não é compreensível para todos os leitores. Se o Spring term vai do início de Janeiro até à Páscoa, não se deveria traduzir por 2.º período, que, em Portugal, decorre entre o início de Janeiro e o final de Março? Outro exemplo: «Admirei os quadros — sobretudo aguarelas e gravuras a ponta seca —, olhei para alguns dos seus livros de prémio e falei do meu último trabalho (sobre O Rei Lear), com que eu estava bastante satisfeito, mas que ele classificara com pedantismo com a nota alfa/beta mais, ponto de interrogação, mais» (ibidem, idem, p. 33). Pergunto-me se não se encontraria uma nota igualmente pedante dentro daquilo que conhecemos. Depois de tentar averiguar se a nota do original é alta ou baixa, sei lá, optar por Suficiente Mais ↑↑↑, como vejo em alguns testes. Está aberta a discussão.

[Post 3241]

Ortografia: «Hauçás»

Esmiuçar os Hauçás


      «Quando os pastores muçulmanos fulas e haúças desceram sobre as aldeias cristãs dos arredores da cidade de Jos, vingando recontros que as duas partes haviam tido em Janeiro, reacenderam os problemas de um espaço enorme que tem sido um dos mais problemáticos da África, nos seus 50 anos de existência como entidade independente», acabei também de ler. Ainda estamos na Nigéria. Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista Haúças, o Dicionário Houaiss regista hauçás, povo do Norte da Nigéria e Sul do Níger. Desta vez, este dicionário não apresenta a etimologia, ao contrário daquele, que regista provir «do vernáculo Hausa ou Hausá, etnónimo, pelo francês Haoussas». Prefiro Hauçás.

[Post 3240]

Léxico: «interinato»

Quase internato


      «Uma vez que o vice-presidente, Goodluck Jonathan, é cristão, apenas o colocaram a assumir o interinato, mas sem os verdadeiros poderes de um presidente a tempo inteiro, que estes costumam as elites muçulmanas do Norte do território reservar para os seus», li num texto agora mesmo. Confesso que nunca tinha lido a palavra interinato. Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista interinato, embora remeta para o verbete interinado, o Dicionário Houaiss apenas regista este último. Contudo, no Dicionário de Elementos Mórficos, que também faz parte do Houaiss, lê-se que o sufixo –ato se apresenta «como sufixo conexo com dignidades, investiduras, funções, profissões, encargos (estáveis, provisórios, vitalícios, circunstanciais) e não raro alternando-se com o sufixo -ado em igual função».

[Post 3239]

Léxico: «processionária»

Em fila indiana?


      «A delegada de saúde de Cascais, Ana Paula Magalhães, também acompanhou o problema. “Esses casos são raros, e não são só as crianças que sofrem reacções alérgicas à processionária [lagarta do pinheiro]. Há três anos houve uma situação numa escola que afectou professores e funcionários.”» («Alergia à lagarta alarma Cascais», Cristina Serra, Correio da Manhã, 13.3.2010, p. 18).
      Alguns dicionários registam o termo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo: «nome vulgar extensivo aos insectos lepidópteros da família dos Notodontídeos, cujas lagartas se deslocam em fila indiana, entre as quais se incluem as que causam grandes prejuízos nos pinhais». Que se deslocam como numa procissão, deveria estar escrito para se perceber cabalmente a etimologia. Faz bem em perguntar, caro leitor: se deriva de «procissão», talvez se devesse escrever «procissionária». Foi, acho eu, o que também pensou a jornalista do Correio da Manhã, que também escreveu, em relação aos sintomas: «A procissionária, nome devido à descida no tronco em procissão, causa irritações na pele, olhos e aparelho respiratório.» Não podia era deixar as duas formas, uma delas errada, no artigo. A grafia correcta é processionária, porque o étimo é de facto «procissão», mas sob a forma radical procession-, como outros vocábulos da língua portuguesa, como processionário e processional. (Em relação à etimologia de procissão, o Dicionário Houaiss regista: «latim lusitânico *procissĭo,ōnis, idem, derivado do latim processĭo,ōnis».)

[Post 3238]

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