Vocábulos literários

Posta-te aí e não te mexas


      Há uma parte da língua que só sobrevive — é natural — nos livros. Substantivos, adjectivos, verbos... Verbos: postar, por exemplo, nunca o ouvi sair dos lábios de nenhuma criatura. E não em todos os livros: nas traduções. «Enquanto eu me postava de pé em frente dela, a czarina humedeceu o grande rosto vermelho do médico, estimulando-o delicadamente, mesmo de forma profissional, podia dizer-se» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 93).

[Post 3213]

Montes Urales

Sancionado


      Apraz-me registar que foi esta a variante usada pela tradutora (e sancionada pelo revisor): «Nessa altura, nos tempos horríveis da revolução, Ekaterimburgo e os montes Urales eram um formigueiro de actividade dos vermelhos. Os Urales vermelhos, como então eram conhecidos, eram o pior sítio em que se poderia pensar para evitar Nicolau Alexandrovitch e a sua família» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 49).

[Post 3212]

O plural de Romanov

Ora vejam


      Leio no Manual de Redação e Estilo do Estado de S. Paulo: «Na grafia dos nomes russos, o Estado segue a notação inglesa, com algumas adaptações para o português: 1 — Use i e não y no final dos nomes russos: Trotski, Tchaikovski, Dostoievski, Stravinski, Tolstoi, Maiakovski, Malinovski, Nevski, Kerenski, etc. 2 — Mantenha o h depois do k em nomes como Chekhov, Sakharov, Zukhov, etc. 3 — O grupo zh da transcrição inglesa deve ser substituído por j em português: Soljenitsyn, Brejnev, Jivago (e não Solzhenitsyn, Brezhnev, Zhivago), etc. 4 — O Estado adota o grupo ch e não tch. Assim: Gorbachev (e não Gorbatchev), Kruchev, Chekhov, Chernenko, etc. Exceção: Tchaikovski. 5 — Os nomes russos devem terminar em v e não f: Romanov e não Romanoff; Prokofiev e não Prokofieff; Azov (mar) e não Azof, etc. Exceção, já consagrada: Rachmaninoff. 6 — Use ev e não ov, no final de nomes como Kruchev, Gorbachev, etc. 7 — Não acentue os nomes. Assim: Stalin (e não Stálin); Lenin (e não Lênin); Boris Yeltsin (e não Bóris); Tolstoi e não Tolstói.» Também o Livro de Estilo do Times recomenda: «Romanov prefer to Romanoff for the surname of the Russian Imperial Family.»
      Interessa-me o nome Romanov. No sítio da Universidade de Columbia, leio que a terminação -ov ou -off (sabia, caro Miguel B.?) é o genitivo plural, muito comum em nomes russos, como em Romanov (que significa de Roma). Mas isso é a etimologia. Em obras publicadas em língua inglesa vê-se com frequência Romanovs. Numa gramática de língua francesa (Nouvelle Grammaire Française, Maurice Grevisse e André Goosse. Bruxelas: De Boeck, 1996, 4.ª ed.), leio que os nomes próprios não pluralizam, mas concede: «Quelques noms ont gardé d’anciens pluriels graphiques : Les trois Horaces. Les trois Curiaces. Les deux Gracques. Les sept frères Maccabées ; — notamment des noms de familles, surtout régnantes, dont la glorie est ancienne : Les Ptolémées, les Tarquins, les Césars, les Flaviens, les Antonins, les Sévères, les Plantagenets, les Bourbons, les Stuarts, les Tudors.» Mas também vi noutra gramática francesa que há duas excepções: «les Romanov» e «les Habsbourg».
      Esta é uma mera digressão, pois o que nos interessa é a regra na língua portuguesa, e esta manda pluralizar os apelidos. Se a língua de origem, como acontece no caso dos apelidos anglo-saxónicos, também pluraliza, tanto melhor.

[Post 3211]

Palavras com étimo concani

Academia das Sciências


      Não é raro o Ciberdúvidas dar respostas erradas ou inúteis. Hoje, uma estudante, Matilde Cruz, quis saber quais as palavras de língua portuguesa derivadas da língua concani. A primeira ideia de José Mário Costa foi logo «remeter» «a interessada consulente para as Contribuições para a Lexiologia Luso-Oriental, do dr. Sebastião Rodolfo Dalgado, Lisboa, Academia das Sciências de Lisboa, 1916, 190 pp.». Como se recomendasse uma obra acabada de publicar e disponível na FNAC ou na Wook. De seguida, refere 21 palavras derivadas do concani. Até o meu modestíssimo glossário de palavras do concani é melhor, com mais de 120 entradas.

[Post 3210]

Epicenos

Reféns e nas tintas


       «Há vários factores que contribuem para a propagação da malária: a existência dos mosquitos-fêmea da espécie Anopheles que propagam os parasitas; condições ecológicas favoráveis, como temperaturas médias acima dos 20 graus centígrados, muita humidade e águas paradas; e condição sociais como pobreza e falta de serviços de saúde e de prevenção eficazes», lia-se no texto. Grafa-se mosquito fêmea. Trata-se de um substantivo epiceno, isto é, um substantivo designativo de animais com apenas um género, sendo necessário, para especificar o sexo, juntar ao substantivo as palavras «macho» ou «fêmea»: golfinho fêmea, crocodilo fêmea, etc. Mosquito fêmea, pois. Sem hífen.
      Já agora, e a propósito, vejamos a definição do vocábulo epiceno no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «diz-se do nome que designa um ser animado não humano e que possui apenas um género, independentemente do sexo da entidade referida (exemplo: a cobra)». Os conceitos de humano e não humano e animado e não animado não eram da defunta TLEBS? E não foram eliminados, juntamente com epiceno, é verdade, da terminologia gramatical? E um dicionário, e para mais esta versão, em linha, que estou a consultar, fica refém destes desvarios? E não se pode corrigir de uma hora para a outra?

[Post 3209]

Quebradas e puxadinhos

Estamos na Madeira


      «O caso da família de Aurélio Abreu, 71 anos, morador na Portada de Santo António, na Lomba do Monte, Funchal, é paradigmático. Casou e alargou a casa à medida que os cinco filhos foram constituindo família. Tal como centenas de outras famílias. Uma casa térrea que ficou com um primeiro andar e um “puxadinho” (anexo) num terreno de 470 metros quadrados e em declive, onde vivem 17 pessoas, 13 adultos e quatro crianças. As “quebradas” (quedas de terra) derrubaram a parede que protegia a habitação, a um metro de distância» («Ponte militar na Ribeira Brava», Céu Neves, Diário de Notícias, 3.3.2010, p. 14).
      Sim, senhor, explicar o que significa puxadinho foi sensato, porque não está dicionarizado — a acepção, digo, pois o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista duas outras acepções: Que ou aquele que é muito esmerado no modo de vestir e Que é muito puxado ou muito caro, ambas de uso informal. Já quanto a explicar o que significa quebrada me parece desnecessário. As aspas é tontice.

[Post 3208]

Disparates nos jornais

Sem querer vulnerar


      Céu Neves, jornalista do Diário de Notícias, não tem quaisquer dúvidas: «“Vulnerabilidade” é o adjectivo usado por Domingos Rodrigues para caracterizar a situação» («Ponte militar na Ribeira Brava», Céu Neves, Diário de Notícias, 3.3.2010, p. 14). Pelo menos anteontem, quando terá escrito o artigo, não tinha nem fumos de dúvida. Talvez mais tarde, já com disponibilidade para consultar um dicionário, se tenha apercebido de que vulnerabilidade é um substantivo.

[Post 3207]

Léxico: «norte-irlandês»

Acho mesmo


      «Encarnação do radicalismo religioso norte-irlandês, o histórico reverendo protestante Ian Paisley anunciou ontem que vai deixar o lugar de deputado britânico, que ocupou quatro décadas, após as legislativas de Maio» («Paisley deixa Westminster depois de quatro décadas», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 3.3.2010, p. 26).
      Já que perguntam, a resposta é sim: acho que os dicionários deviam registar o vocábulo norte-irlandês — ou deixar de registar norte-africano, norte-coreano, etc.

[Post 3206]

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