Quebradas e puxadinhos

Estamos na Madeira


      «O caso da família de Aurélio Abreu, 71 anos, morador na Portada de Santo António, na Lomba do Monte, Funchal, é paradigmático. Casou e alargou a casa à medida que os cinco filhos foram constituindo família. Tal como centenas de outras famílias. Uma casa térrea que ficou com um primeiro andar e um “puxadinho” (anexo) num terreno de 470 metros quadrados e em declive, onde vivem 17 pessoas, 13 adultos e quatro crianças. As “quebradas” (quedas de terra) derrubaram a parede que protegia a habitação, a um metro de distância» («Ponte militar na Ribeira Brava», Céu Neves, Diário de Notícias, 3.3.2010, p. 14).
      Sim, senhor, explicar o que significa puxadinho foi sensato, porque não está dicionarizado — a acepção, digo, pois o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista duas outras acepções: Que ou aquele que é muito esmerado no modo de vestir e Que é muito puxado ou muito caro, ambas de uso informal. Já quanto a explicar o que significa quebrada me parece desnecessário. As aspas é tontice.

[Post 3208]

Disparates nos jornais

Sem querer vulnerar


      Céu Neves, jornalista do Diário de Notícias, não tem quaisquer dúvidas: «“Vulnerabilidade” é o adjectivo usado por Domingos Rodrigues para caracterizar a situação» («Ponte militar na Ribeira Brava», Céu Neves, Diário de Notícias, 3.3.2010, p. 14). Pelo menos anteontem, quando terá escrito o artigo, não tinha nem fumos de dúvida. Talvez mais tarde, já com disponibilidade para consultar um dicionário, se tenha apercebido de que vulnerabilidade é um substantivo.

[Post 3207]

Léxico: «norte-irlandês»

Acho mesmo


      «Encarnação do radicalismo religioso norte-irlandês, o histórico reverendo protestante Ian Paisley anunciou ontem que vai deixar o lugar de deputado britânico, que ocupou quatro décadas, após as legislativas de Maio» («Paisley deixa Westminster depois de quatro décadas», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 3.3.2010, p. 26).
      Já que perguntam, a resposta é sim: acho que os dicionários deviam registar o vocábulo norte-irlandês — ou deixar de registar norte-africano, norte-coreano, etc.

[Post 3206]

Ortografia: «Anticristo»

É triste


      «Paisley, natural de Armagh, casado, pai de cinco filhos, serviu nos Voluntários do Ulster. Fundou a Igreja Presbiteriana Livre do Ulster, em 1951, tendo criado o Partido Unionista Democrático duas décadas depois. É conhecido por vários episódios, sendo um dos mais famosos aquele em que chamou anti-cristo ao Papa João Paulo II, em 1988, em pleno Parlamento Europeu» («Paisley deixa Westminster depois de quatro décadas», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 3.3.2010, p. 26).
      Patrícia Viegas, que desilusão... Então não é Anticristo que se escreve? Dois erros numa só palavra. (Está bem: um. Há dicionários que registam o vocábulo com inicial minúscula.) Todos os dicionários acolhem, salvo seja, o último perseguidor da doutrina de Cristo no fim do mundo.

[Post 3205]

Léxico: «antecedentes»

Imagem do Diário de Notícias

Só criminais


      «Mia Wasikowska, a jovem e loura australiana de 20 anos com antecedentes polacos, conhecida dos americanos apenas da série da HBO In Treatment, e escolhida por Tim Burton para interpretar a sua Alice, quase cora quando confessa aos jornalistas que a rodeiam: “Nunca vi muitos filmes de Walt Disney quando era pequena, porque me afligiam emocionalmente.”» («Uma Alice australiana que veio do ‘ballet’», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 3.3.2010, p. 29).
      Não são todos os dicionários que registam o vocábulo assinalado na acepção usada no texto. O Houaiss é a excepção: «ascendência de uma pessoa, grupo, povo; ancestrais».

[Post 3204]

Uma acepção de «descontar»

Dê-se-lhe o desconto


      «O livro do jornalista daquele semanário britânico refere ainda que o sucessor de Tony Blair chegou a descontar a sua fúria numa teclista de Downing Street, arrancando-lhe o teclado das mãos e escrevendo ele mesmo a mensagem pretendida» («Ataques de fúria no número 10 de Downing Street», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 22.2.2010, p. 25).
      Não são todos os dicionários que registam a acepção do verbo descontar usada no texto citado. O Dicionário Houaiss regista-a, afirmando derivar por metáfora do sentido original e ser de uso informal. Informalíssimo, na verdade, e a jornalista deveria ter tido mais cuidado.
      Quanto a teclista, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, é somente a «pessoa que toca instrumentos de teclas», o Houaiss desconhece (regista tecladista, o que toca teclado de instrumento musical e, no âmbito das artes gráficas, o que opera o teclado de máquina compositora ou fotocompositora), o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa reconhece mas não regista.

[Post 3203]

Tradução: «Cabinet secretary»

Diversidade


      «A situação é de tal ordem que o próprio ministro da presidência do Conselho de Ministros, Gus O’Donnell, teve que chamar à atenção o actual inquilino do número 10 de Downing Street. É o que conta agora o jornalista Andrew Rawnsley, do semanário Observer, no livro The End of the Party, ou seja, O Fim da Festa (ou “do Partido”)» («Ataques de fúria no número 10 de Downing Street», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 22.2.2010, p. 25).
      Sir Gus O’Donnell é, desde 1 de Agosto de 2005, Cabinet Secretary, lê-se no sítio do Cabinet Office. Nem sempre é fácil, por não haver perfeita correspondência de instituições e de cargos, traduzir satisfatoriamente. No caso, a jornalista fez corresponder a cabinet secretary ministro da presidência do Conselho de Ministros. O Correio do Minho, porém, acha que Gus O’Donnell, e afirma-o a propósito do mesmo caso, é o «chefe da Função Pública». O Público, por sua vez, não tem dúvidas em dizê-lo «secretário do gabinete do chefe do Governo». O Económico apresenta-o como «Secretário Permanente do Governo». Já no Brasil, a Folha online quer que ele seja «secretário de Gabinete (cargo mais alto do funcionalismo público britânico)». Para o Jornal do Brasil, mais seco, é o «secretário de gabinete». Fiquemos por aqui.

[Post 3202]

Tradução: «intelligence»

Não precisamos


      «“Estas pessoas eram financiadas pela PIDE e por certos serviços de inteligência de países ocidentais”, sublinha Duarte de Jesus [autor da obra Eduardo Mondlane — Um Homem a Abater. Coimbra: Editora Almedina, 2010], acrescentando que estes se infiltraram na Frelimo» («PIDE será uma das responsáveis pelo assassínio de Mondlane», Diário de Notícias, 22.2.2010, p. 27).
      Dos dicionários que aqui tenho à mão, só o Houaiss regista o anglicismo semântico inteligência. Para todos os efeitos, é um falso cognato a cuja inteligência nem todos os falantes chegam. Lula da Silva, julgado semianalfabeto por muitos, disse uma vez: «Acções de inteligência em geral se revelam acções de extrema burrice.»

[Post 3201]

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